Fim da escala 6×1 entra na reta decisiva no Senado; veja o que pode mudar para trabalhadores e empresas
Acordo entre Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre colocou a proposta entre as prioridades do Congresso para a próxima semana; texto reduz jornada máxima para 40 horas, garante dois dias de descanso e mantém salários, mas enfrenta emendas e resistência de setores empresariais

A proposta que pode alterar uma das estruturas mais tradicionais das relações de trabalho no Brasil voltou ao centro das decisões do Congresso Nacional. Depois de meses praticamente parada no Senado, a PEC 221/2019, que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, entrou na reta decisiva de tramitação.
O impulso ocorreu depois de uma reunião realizada nesta quarta-feira (26), no Palácio da Alvorada, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Os três acertaram colocar a proposta entre as prioridades do chamado esforço concentrado do Congresso, previsto para a semana de 31 de agosto a 4 de setembro, última semana de votações antes de os trabalhos legislativos serem fortemente afetados pela campanha eleitoral.
Mas é importante fazer uma distinção: o fim da escala 6×1 ainda não está valendo.
A PEC já passou pela Câmara, mas ainda precisa superar a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e duas votações no plenário do Senado antes de poder ser promulgada.
O que muda se a proposta for aprovada
O texto aprovado pela Câmara estabelece uma mudança significativa em relação à regra constitucional atual.
Hoje, a Constituição permite jornada normal de até 44 horas semanais, normalmente distribuídas em seis dias para trabalhadores submetidos à escala 6×1.
Com a PEC, a regra geral passaria a ser:
- jornada máxima de 40 horas semanais;
- trabalho distribuído, como regra, em cinco dias;
- dois dias de repouso semanal remunerado;
- um dos dias de descanso preferencialmente aos domingos;
- nenhuma redução salarial em razão da diminuição da jornada.
A proposta não estabelece implantação imediata das 40 horas.
Está prevista uma transição justamente para permitir que empresas, trabalhadores e setores com funcionamento contínuo reorganizem suas escalas.
Mudança aconteceria em etapas
Pelo texto aprovado na Câmara, 60 dias depois da eventual promulgação da emenda constitucional, a jornada máxima cairia das atuais 44 para 42 horas semanais.
Nesse mesmo momento, passaria a valer a garantia dos dois dias de descanso remunerado por semana.
Depois de mais 12 meses de transição, a jornada máxima chegaria definitivamente às 40 horas semanais. Na prática, considerando os 60 dias iniciais e o período seguinte, a implantação integral ocorreria aproximadamente 14 meses depois da promulgação.
Durante a transição, acordos e convenções coletivas poderão ajudar a reorganizar a distribuição das horas.
Salário não poderá ser reduzido
Um dos pontos centrais do texto é a proteção salarial.
A redução da carga horária não poderá provocar diminuição nominal ou proporcional do salário do trabalhador. A garantia também alcança os pisos salariais.
Isso significa que um trabalhador contratado atualmente para cumprir 44 horas semanais não poderia ter o salário reduzido simplesmente porque sua jornada passaria posteriormente para 42 e depois para 40 horas.
Este é justamente um dos pontos que torna o debate economicamente relevante.
Para trabalhadores e entidades sindicais, a mudança representa uma tentativa de melhorar a qualidade de vida e permitir maior equilíbrio entre trabalho, família, descanso e qualificação profissional.
Já parte das entidades empresariais alerta que determinados setores poderão precisar contratar mais trabalhadores ou reorganizar escalas, aumentando custos operacionais.
Comércio, supermercados, bares, restaurantes, hotelaria, saúde, transporte e serviços que funcionam durante praticamente toda a semana estão entre os segmentos nos quais o impacto tende a exigir maior planejamento.
E quem trabalha em hospital, transporte ou escala 12×36?
A PEC reconhece que nem todas as atividades funcionam da mesma maneira.
Regimes especiais poderão continuar existindo.
É o caso, por exemplo, de atividades essenciais envolvendo saúde, segurança, transporte e limpeza urbana, além da conhecida escala 12×36, em que o profissional trabalha 12 horas e descansa 36.
Nessas situações, leis específicas, acordos ou convenções coletivas poderão estabelecer formas diferenciadas de organização.
A proposta, entretanto, procura preservar como referência os dois dias de repouso semanal, permitindo em determinados regimes que as folgas sejam compensadas ao longo do mês.
Portanto, acabar com a escala 6×1 não significa que todos os brasileiros obrigatoriamente trabalharão de segunda a sexta-feira.
A organização dependerá também da natureza da atividade.
Pequenas empresas estão no centro da discussão
Outro ponto sensível envolve os pequenos negócios.
O texto prevê que uma futura lei complementar estabeleça regras de transição destinadas a reduzir eventuais impactos sobre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.
Essa discussão ganhou força porque a capacidade de absorver aumento de custos varia muito entre uma grande indústria e um pequeno comércio com poucos funcionários.
Setores empresariais defendem que qualquer mudança considere produtividade, necessidade de contratação, custos trabalhistas e características específicas de cada atividade.
Representantes dos trabalhadores argumentam, por outro lado, que jornadas menores podem contribuir para reduzir rotatividade, afastamentos e desgaste profissional, além de aumentar produtividade e qualidade de vida.
A discussão econômica, portanto, deve permanecer mesmo que exista maioria política favorável ao princípio de reduzir a jornada.
Câmara aprovou por ampla maioria
A proposta já superou uma etapa política considerada difícil.
Em 27 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC em dois turnos.
No primeiro, foram 472 votos favoráveis e 22 contrários.
No segundo turno, o placar foi de 461 votos a 19.
A votação demonstrou que o assunto conseguiu apoio muito além dos partidos que originalmente defendiam a redução da jornada.
O texto aprovado é um substitutivo relatado pelo deputado Leo Prates. As propostas iniciais discutidas no Congresso chegaram a defender jornadas de 36 horas semanais, mas as negociações produziram uma solução intermediária de 40 horas e escala 5×2.
Senado já recebeu 12 emendas
A tramitação no Senado, porém, começa a revelar divergências.
Até esta quarta-feira (26), 12 emendas já haviam sido apresentadas à PEC na Comissão de Constituição e Justiça.
Entre os autores estão Izalci Lucas, Hermes Klann, Hamilton Mourão e o senador paranaense Oriovisto Guimarães, que apresentou cinco emendas.
Parte dessas propostas procura ampliar a possibilidade de negociação coletiva, criar maior flexibilidade para determinadas atividades ou modificar o período de transição.
Oriovisto já havia manifestado preocupação com impactos econômicos e fiscais decorrentes da redução da jornada e defende uma adaptação mais longa para determinados setores.
O ponto político é decisivo: se o Senado alterar o mérito da PEC, o texto terá que retornar à Câmara dos Deputados.
Isso tornaria muito mais difícil concluir a votação antes das eleições.
Por esse motivo, existe uma movimentação entre aliados do governo para preservar, sempre que possível, o texto já aprovado pelos deputados.
Próxima quarta-feira será decisiva
A PEC está atualmente na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e tem como relator o senador Omar Aziz.
Segundo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o relatório deverá ser apresentado à CCJ na próxima quarta-feira, 2 de setembro, justamente durante o esforço concentrado.
Caso seja aprovada pela comissão, a proposta seguirá para o plenário.
Por se tratar de uma emenda constitucional, o rito é mais rigoroso que o de um projeto de lei comum.
São necessários pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores, correspondentes a três quintos da Casa, e a aprovação precisa ocorrer em dois turnos.
Se o Senado aprovar exatamente o mesmo conteúdo da Câmara, não haverá necessidade de nova votação entre os deputados e a emenda poderá seguir para promulgação.
Tema também entrou na disputa eleitoral
A proximidade das eleições adicionou uma dimensão política inevitável ao debate.
Lula passou a defender publicamente o fim da escala 6×1 como uma das medidas de maior impacto social de sua agenda e associa a redução da jornada à possibilidade de os trabalhadores terem mais tempo para a família.
A oposição, embora não tenha posição completamente uniforme sobre o tema, questiona a tentativa de acelerar a votação às vésperas das eleições e apresenta alternativas que privilegiam maior liberdade de negociação entre empregados, sindicatos e empresas.
O governo, por sua vez, procura transformar a próxima semana em uma janela para concluir a tramitação.
O tema reúne características capazes de produzir uma das discussões mais importantes deste final de legislatura: direitos dos trabalhadores, produtividade, custos empresariais, geração de empregos e qualidade de vida estão sendo colocados na mesma equação.
Então a escala 6×1 acabou?
Não.
Para o trabalhador que está hoje em regime 6×1, absolutamente nada muda imediatamente.
A PEC ainda precisa:
- ser analisada e aprovada pela CCJ do Senado;
- passar pelo plenário do Senado em primeiro turno;
- obter pelo menos 49 votos;
- ser novamente aprovada em segundo turno;
- manter o texto da Câmara ou, caso seja modificada, retornar aos deputados;
- ser promulgada pelo Congresso.
Somente depois disso começariam a correr os prazos de transição.
O que mudou nesta semana foi essencialmente o cenário político: uma proposta que estava parada passou a ter prioridade formal, relator definido, prazo político e compromisso dos presidentes das duas Casas para ser deliberada.
Por isso, a próxima semana poderá definir se o fim da escala 6×1 deixará de ser apenas uma das principais discussões trabalhistas dos últimos anos para se transformar em uma nova regra constitucional brasileira.
O Portal Conexão Geral continuará acompanhando a tramitação da PEC e os impactos que uma eventual mudança poderá produzir para trabalhadores, empresas e para a economia.
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