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O consumidor mudou: avanço das vendas online e da IA transforma o comércio e desafia lojas físicas

E-commerce bate recordes, marketplaces avançam e a inteligência artificial muda a jornada de compra. Especial analisa a pressão sobre as lojas físicas e por que o futuro do varejo tende a ser híbrido.

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VAREJO | 25 de setembro de 2026

Portas baixadas, pontos comerciais vazios e placas de aluguel passaram a chamar atenção em diferentes centros urbanos. A percepção aparece também em Araucária e Curitiba, mas o fenômeno exige cautela: não há base para atribuir cada fechamento ao comércio eletrônico. Juros, endividamento, aluguel, folha de pagamento, concorrência, gestão e mudanças locais de fluxo também pesam. O que os dados permitem afirmar é que o comportamento do consumidor mudou — e o varejo físico está sendo obrigado a mudar junto.

2026 confirma a força do comércio eletrônico

Segundo o relatório “Da Compra à Confiança — Panorama do e-commerce brasileiro no primeiro semestre de 2026”, elaborado pela Confi, por meio da Neotrust e da Aftersale, em parceria com o E-Commerce Brasil, o varejo eletrônico movimentou R$ 208,4 bilhões entre janeiro e junho, crescimento de 16,9% em um ano. Foram 756,7 milhões de pedidos, alta de 34,8%.

O tíquete médio, porém, caiu 13,3%, para R$ 275,50. A combinação é reveladora: o consumidor passou a comprar online com maior frequência, inclusive produtos de menor valor e mais cotidianos.

Para o ano completo, o estudo projeta faturamento de R$ 462,5 bilhões, avanço de 18,6%. A projeção não significa que todo esse crescimento seja retirado diretamente das lojas físicas, mas mostra a velocidade com que o canal digital amplia sua presença no orçamento das famílias.

Marketplaces mudaram a escala da concorrência

Em entrevista à Reuters, Léo Bicalho, diretor de Negócios da Neotrust, afirmou que cerca de 75% do resultado acompanhado pelo levantamento já é movimentado pelas grandes plataformas de marketplace. Segundo ele, a disputa entre esses ecossistemas tem atraído cada vez mais volume para o online.

Para o comerciante de bairro, isso significa concorrer não apenas com a loja da rua ao lado, mas com milhares de vendedores acessíveis em segundos pelo celular. Preço, prazo, avaliações de compradores, variedade e entrega passaram a ser comparados quase instantaneamente.

A loja física vai desaparecer?

Os números não autorizam essa conclusão. O que está ocorrendo é uma mudança de função. A loja física tende a ser menos dependente apenas da exposição de estoque e mais vinculada a experiência, atendimento, demonstração, retirada, troca, serviços e relacionamento.

O futuro mais provável é híbrido: o consumidor pode descobrir um produto nas redes sociais, pesquisar preços em marketplaces, conversar pelo WhatsApp, experimentar presencialmente e concluir a compra pelo canal que oferecer a melhor combinação de confiança, preço e conveniência.

E onde entra a inteligência artificial?

A IA adiciona uma nova camada à transformação. Sistemas de recomendação, atendimento automatizado, previsão de demanda, produção de anúncios, análise de dados, busca inteligente e personalização podem aumentar a eficiência das grandes plataformas. Mas as mesmas ferramentas também podem ser incorporadas por pequenos e médios negócios.

Outra mudança está começando na própria descoberta de produtos. Assistentes de inteligência artificial podem comparar alternativas, resumir avaliações e ajudar consumidores a decidir o que comprar. Nesse ambiente, catálogo organizado, reputação digital, informações claras e presença em múltiplos canais passam a ter valor estratégico.

Fechamentos têm várias causas

Seria incorreto afirmar que toda loja que fecha é vítima do e-commerce. Juros elevados, crédito caro, endividamento, aluguel, folha, carga tributária, erros de gestão, localização e mudanças no perfil das cidades interferem na sobrevivência de um estabelecimento.

Grandes redes também passam por reestruturações próprias. Portanto, fechamento de unidades não pode ser automaticamente usado como prova de que a internet “matou” determinado negócio.

Haverá uma onda de novos fechamentos?

Não existe hoje uma projeção nacional confiável que permita dizer quantas lojas físicas fecharão especificamente por causa do e-commerce ou da inteligência artificial. Qualquer número apresentado dessa maneira seria especulativo.

O que pode ser medido é a pressão competitiva: o comércio eletrônico segue crescendo em dois dígitos, os pedidos online aumentam em ritmo ainda maior e os marketplaces concentram grande volume das transações digitais.

Segmentos nos quais os produtos são facilmente comparáveis por preço e entregues sem dificuldade tendem a enfrentar pressão maior. Negócios baseados em atendimento especializado, experiência, serviço imediato, conveniência local e relacionamento preservam diferenciais importantes — principalmente quando também atuam no digital.

Araucária: dinheiro pode sair da cidade — mas empresas também podem vender para fora

Para Araucária, a transformação apresenta dois lados. Uma compra que antes necessariamente ocorreria em um estabelecimento local pode hoje ser feita em segundos com um vendedor de outra cidade, Estado ou país. Isso pode repercutir na ocupação de imóveis comerciais, empregos e circulação de renda.

Por outro lado, a mesma tecnologia elimina fronteiras para o empreendedor araucariense. Uma empresa que dependia do consumidor que passava diante da vitrine pode vender para Curitiba, para o Paraná e para todo o Brasil.

É por isso que a discussão local não deve se resumir a tentar preservar o modelo antigo. Capacitação digital, logística, integração de canais, acesso a tecnologia, gestão, qualificação do atendimento e revitalização das áreas comerciais passam a fazer parte de uma política moderna de desenvolvimento econômico.

O consumidor mudou primeiro

Talvez essa seja a principal conclusão. A transformação não começa na tecnologia, mas no comportamento. O consumidor descobriu que pode pesquisar, comparar preços, consultar avaliações, comprar a qualquer hora e receber produtos sem sair de casa.

A loja física continua relevante, mas endereço, vitrine e estoque já não bastam. Quem combinar confiança local, atendimento humano, experiência, preço competitivo, logística e presença digital terá mais instrumentos para permanecer.

A grande pergunta dos próximos anos não é se o comércio físico vai acabar. É quantas empresas conseguirão mudar na mesma velocidade em que o consumidor já mudou.

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