No 4º dia de greve, servidores de Araucária seguem ocupando a Prefeitura com acesso controlado
Movimento completa quatro dias sem acordo; saguão da sede do Executivo segue ocupado com acesso controlado e forte esquema da Guarda Municipal e da Polícia Militar, enquanto grevistas concentram os atos no estacionamento coberto da Prefeitura

Araucária (PR) — Servidores municipais de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, mantêm nesta sexta-feira (2) a ocupação da sede da Prefeitura, no quarto dia de greve iniciada na terça-feira (29). Dezenas de trabalhadores permanecem no saguão do prédio, que opera com acesso controlado e forte esquema de segurança da Guarda Municipal e da Polícia Militar, enquanto cerca de mil grevistas ocupam o estacionamento coberto da sede administrativa — espaço onde o sindicato e a categoria realizam os atos da manifestação. O movimento comprometeu o funcionamento de 60 das 74 escolas municipais e tirou cerca de 600 servidores da saúde das unidades de atendimento. O motivo é o pacote de projetos que altera a Lei Orgânica e a gestão do Fundo de Previdência Municipal de Araucária (FPMA), aprovado em primeira votação na Câmara com apenas um voto contrário.
A mobilização começou na terça (29), quando cerca de 1,5 mil servidores protestaram em frente à Câmara de Vereadores durante a votação da Proposta de Emenda à Lei Orgânica Municipal (Pelom) 11/2026. Segundo o Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Araucária (Sismmar) e o Sindicato dos Servidores de Araucária (Sifar), o texto contém 14 artigos problemáticos, que ampliariam o controle do Executivo sobre organismos independentes, como o fundo previdenciário, e transformariam a Conferência Municipal de Saúde em mero instrumento de consulta. A proposta também prevê que a remuneração de servidores afastados para exercício de direção sindical passe a ser custeada pelas próprias entidades — medida classificada pelos sindicatos como “antidemocrática” e que visa “sufocar financeiramente as entidades sindicais”.
Na quarta-feira (30), servidores do quadro geral e do magistério ocuparam o gabinete do prefeito Gustavo Botogoski (PSD) e passaram a noite no prédio, na tentativa de forçar a abertura de negociações. Desde então, a sede do Executivo opera esvaziada, sem a presença de funcionários da administração, e a categoria mantém vigília permanente. Segundo apuração do Portal Conexão, o saguão do prédio segue ocupado nesta sexta, com entrada controlada e reforço de agentes da Guarda Municipal e da Polícia Militar, enquanto o estacionamento coberto concentra as assembleias e os atos organizados pelo sindicato.
Impasse e Justiça
Bruno Garcia, dirigente do Sifar, afirmou que o pedido da categoria é a retirada do projeto: “O prefeito fez um projeto de lei que permite a ele colocar a mão na nossa aposentadoria, no dinheiro do nosso futuro que é o que a gente chama de fundo de previdência. Tem uma estimativa de que haja R$ 2,3 bilhões nesse fundo. Ele fez um projeto e mandou para a Câmara sem discutir com ninguém e já foi aprovado em primeira votação. Nosso pedido é que ele retire o projeto e fale com a categoria para que possamos voltar a focar na saúde e na educação.”
A Prefeitura, em nota, classificou a paralisação como ilegal e informou que o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) elevou de R$ 5 mil para R$ 50 mil a multa diária aplicada ao Sismmar, por descumprimento de liminar no processo nº 0137941-63.2026.8.16.0000 — a greve do magistério começou sem a apresentação de um plano concreto de manutenção das atividades essenciais na educação. A decisão é do desembargador Leonel Cunha.
Os sindicatos contestam a leitura da administração. Segundo os dirigentes, a liminar tratava apenas da ausência de plano de contingência, não da legalidade do movimento, e o plano já foi apresentado. Eles relatam ainda que pediram ao desembargador uma audiência de mediação entre as partes — e que o magistrado deu prazo para a Prefeitura se manifestar sobre o interesse no encontro.
De acordo com a nota oficial, das 74 unidades escolares, 12 ficaram totalmente fechadas, 25 permaneceram abertas sem atendimento aos alunos e sete tiveram atendimento parcial. A paralisação também atingiu 23 dos 36 Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) e dois dos quatro Centros Municipais de Atendimento Educacional Especializado (CMAEEs). Na saúde, além dos 600 servidores de fora, a aplicação de vacinas foi afetada. O município afirma que os impactos nos demais órgãos foram mínimos ou nulos.
Resposta do governo e desgaste político
A administração sustenta que a Emenda nº 59/2026, aprovada pela Câmara e aceita pelo Executivo, “blinda totalmente o FPMA contra atos por ofício do gestor municipal”, mantendo a gestão sob responsabilidade exclusiva dos conselheiros eleitos pelos servidores. A Prefeitura afirma ainda que o projeto em análise propõe apenas reestruturação interna do Poder Executivo e adequação à legislação federal sobre a Conferência Municipal de Saúde, e que as tratativas com o sindicato seguem por meio da Secretaria de Governo.
O impasse, porém, se arrasta sem sinal de recuo de qualquer lado — e o episódio se soma a outros atritos do governo Botogoski com as categorias: em agosto, mais de 2 mil servidores pararam e a administração recuou de um pacote de mudanças após pressão sindical. Desta vez, a recusa em abrir negociação antes da votação, a aprovação do texto com apoio quase unânime da Câmara e a ocupação do próprio gabinete do prefeito colocam a administração em posição defensiva, com a segunda votação marcada para 13 de outubro. Segundo os sindicatos, a greve pode ser mantida até a data caso não haja diálogo.
A cidade conta com cerca de 2,5 mil servidores. O SINDIEDUTEC, sindicato que representa trabalhadores em educação de municípios da região, já manifestou apoio público à paralisação.
Portal Conexão Geral – Conectado em Tudo.
Seu navegador bloqueou a janela. Permita pop-ups para este site e tente novamente.


Comentários
Ainda não há comentários aprovados.