Grupo dono do Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265,2 milhões
Controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill teve o processamento do pedido autorizado pela Justiça de São Paulo; restaurantes continuam funcionando normalmente enquanto grupo prepara plano para renegociar dívidas

SÃO PAULO — O Grupo Gennius, conglomerado responsável por marcas conhecidas do setor de alimentação, entre elas Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial com um passivo de R$ 265,2 milhões submetido ao processo. O pedido foi apresentado à Justiça de São Paulo na segunda-feira (24) e teve seu processamento autorizado no dia seguinte.
A decisão foi proferida pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A KPMG Corporate Finance foi nomeada administradora judicial e ficará responsável por acompanhar a situação financeira das empresas e o desenvolvimento do processo.
Apesar da recuperação judicial, o grupo afirma que as operações continuam funcionando normalmente, com atendimento aos clientes e manutenção da rotina das unidades.
Recuperação judicial não significa fechamento das lojas
A entrada em recuperação judicial não representa, por si só, falência ou encerramento das atividades. O mecanismo previsto na legislação brasileira permite que empresas em dificuldades financeiras tentem reorganizar suas dívidas, negociar com credores e preservar suas operações, empregos e atividade econômica.
O Grupo Gennius terá agora 60 dias para apresentar um plano de recuperação, no qual deverá detalhar de que maneira pretende reorganizar suas finanças e pagar os credores.
Após a apresentação, o plano seguirá as etapas previstas no processo recuperacional e poderá ser submetido à análise dos credores.
A Justiça também determinou a suspensão de determinadas execuções contra as empresas e impediu que contratos essenciais sejam simplesmente interrompidos em razão do pedido de recuperação.
Por outro lado, o magistrado negou a liberação dos recebíveis e aplicações financeiras dados como garantia fiduciária aos bancos, conhecidos no mercado como “travas bancárias”. Isso significa que determinados valores vinculados a garantias financeiras poderão continuar sendo retidos pelas instituições credoras.
Mais de R$ 241 milhões estão entre fornecedores e credores sem garantia
Os créditos submetidos à recuperação somam aproximadamente R$ 265,2 milhões.
Desse total, cerca de R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas. Outros aproximadamente R$ 241,7 milhões estão relacionados a fornecedores, bancos e demais credores sem garantia, enquanto pouco mais de R$ 1,1 milhão corresponde a créditos de microempresas e empresas de pequeno porte.
O montante, entretanto, não representa necessariamente todo o endividamento financeiro do conglomerado.
Parte das dívidas bancárias possui garantias específicas e fica fora da negociação coletiva da recuperação judicial. Documentos relacionados ao caso apontam que o endividamento bancário do grupo, considerando também essas operações, supera os R$ 300 milhões.
Pandemia, delivery e juros são apontados como causas da crise
Ao justificar a deterioração de sua situação financeira, o grupo apontou uma combinação de fatores acumulados nos últimos anos.
Entre eles estão os impactos provocados pela pandemia de Covid-19, especialmente sobre restaurantes instalados em grandes centros urbanos, além da transformação dos hábitos dos consumidores e da rápida expansão dos aplicativos e plataformas de delivery.
O crescimento das vendas digitais mudou a dinâmica do setor de alimentação e pressionou um modelo historicamente baseado em grandes restaurantes físicos, muitos deles com estacionamento, salão amplo, drive-thru e outras estruturas que possuem custos elevados de manutenção.
Outro fator apontado pela companhia é a elevação das taxas de juros, que tornou mais cara a captação de recursos e a rolagem das dívidas financeiras.
A estratégia da empresa nos últimos anos passou a incluir unidades menores e modelos mais adaptados ao consumo por delivery e às praças de alimentação.
Grupo tentou acordo antes de recorrer à recuperação judicial
A recuperação judicial não foi a primeira tentativa do Gennius de reorganizar suas obrigações.
Antes do pedido formal, o conglomerado buscou uma negociação extrajudicial com os credores e chegou a obter proteção temporária da Justiça contra determinadas cobranças e execuções.
O período deveria permitir uma tentativa de acordo sem a abertura de uma recuperação judicial. Como as negociações não foram suficientes para solucionar a situação financeira, o grupo decidiu recorrer ao procedimento previsto na Lei de Recuperação Judicial e Falências.
A partir de agora, as negociações passam a ocorrer sob acompanhamento do Judiciário e da administradora judicial.
Pedido envolve lojas próprias e empresas do conglomerado
A estrutura submetida à recuperação reúne diversas empresas responsáveis por diferentes segmentos da operação, incluindo franqueadoras, holdings, sociedades operacionais, restaurantes próprios do Habib’s, unidades do Ragazzo e churrascarias Tendall.
Entre as estruturas relacionadas ao processo estão 119 lojas Habib’s, 26 unidades Ragazzo e seis churrascarias Tendall, além de sociedades responsáveis por atividades administrativas e operacionais.
Um ponto importante é que franquias administradas por empresários independentes possuem CNPJs próprios e não são automaticamente incluídas na recuperação judicial do controlador.
Isso ajuda a explicar por que o consumidor pode continuar encontrando as unidades funcionando normalmente, mesmo durante o processo judicial.
O que acontece agora
A etapa mais importante será a apresentação do plano de recuperação judicial.
O documento deverá mostrar como o Grupo Gennius pretende equilibrar o caixa, reorganizar sua estrutura financeira e estabelecer condições para pagamento dos credores. Poderão ser propostas medidas como alongamento de prazos, renegociação de valores e outras formas permitidas pela legislação.
O processo será acompanhado pela Justiça, pela administradora judicial e pelos próprios credores.
A empresa sustenta que a recuperação faz parte de uma estratégia destinada a preservar a sustentabilidade do negócio no longo prazo e reforça que Habib’s, Ragazzo e demais operações permanecem atendendo normalmente.
Para uma das marcas mais conhecidas do setor de alimentação rápida no Brasil, o desafio agora será transformar a proteção judicial em uma reestruturação capaz de reduzir o peso do endividamento sem comprometer a operação construída ao longo de quase quatro décadas.
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