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Vacina personalizada contra câncer alcança resultado histórico em teste avançado

Tratamento experimental desenvolvido por Moderna e Merck usa tecnologia de mRNA para ensinar o sistema imunológico a reconhecer mutações do tumor de cada paciente; estudo com mais de mil pessoas mostrou redução da recorrência e disseminação do melanoma

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ESTADOS UNIDOS, 28 de agosto de 2026 — Depois de mais de um século de tentativas frustradas de desenvolver vacinas terapêuticas capazes de combater o câncer, um estudo envolvendo Moderna e Merck alcançou um resultado considerado histórico por pesquisadores da área.

Uma vacina personalizada baseada em RNA mensageiro (mRNA) atingiu os principais objetivos de um ensaio clínico de fase avançada realizado com pacientes que tiveram melanomas de alto risco removidos cirurgicamente.

O tratamento, chamado intismeran autogene, é produzido individualmente para cada paciente e utilizado em combinação com o Keytruda, medicamento de imunoterapia da Merck já empregado contra diversos tipos de câncer.

Os resultados mostram que a combinação conseguiu reduzir tanto a possibilidade de o melanoma retornar quanto o risco de a doença se espalhar para outras regiões do organismo, na comparação com pacientes tratados apenas com Keytruda.

O medicamento ainda é experimental e não está aprovado para uso comercial.

Primeiro resultado positivo desse tipo em fase avançada

A importância do anúncio está no estágio da pesquisa.

Vacinas contra câncer vêm sendo estudadas há décadas, mas sucessivas tentativas não conseguiram demonstrar benefícios suficientes em grandes ensaios clínicos.

Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, o resultado da Moderna e da Merck representa o primeiro sucesso de uma vacina terapêutica contra o câncer em um estudo de fase avançada após mais de cem anos de pesquisas na área.

O ensaio clínico envolveu 1.137 pacientes com melanoma de alto risco, entre os estágios IIB e IV, cujos tumores haviam sido removidos cirurgicamente.

Os participantes foram divididos entre aqueles que receberam Keytruda associado à vacina personalizada e aqueles tratados somente com o imunoterápico.

A análise intermediária mostrou que o tratamento combinado atingiu os objetivos estabelecidos para impedir a recorrência e a disseminação da doença.

Os detalhes completos dos resultados ainda deverão ser apresentados em um congresso médico internacional.

Vacina é diferente para cada paciente

Ao contrário das vacinas tradicionais, que são produzidas da mesma forma para milhões de pessoas, o novo tratamento é individualizado.

Depois da retirada cirúrgica do tumor, cientistas analisam geneticamente as células cancerígenas do paciente.

O objetivo é identificar mutações específicas daquele tumor.

A partir dessas informações, é desenvolvida uma vacina de mRNA capaz de apresentar ao sistema imunológico até dezenas dessas características.

Na prática, o tratamento procura ensinar as células de defesa a reconhecer aquilo que diferencia o câncer das células saudáveis.

Quando determinadas células com essas mutações aparecem novamente no organismo, o sistema imunológico passa a ter mais condições de identificá-las e atacá-las.

Tecnologia usada contra Covid ganha nova aplicação

A estratégia utiliza o mesmo princípio tecnológico do RNA mensageiro que ganhou projeção mundial durante a pandemia de Covid-19.

Mas o objetivo é completamente diferente.

Nas vacinas contra doenças infecciosas, o mRNA leva instruções para que o sistema imunológico aprenda a reconhecer partes de um vírus.

Na vacina contra o câncer, o material genético é construído a partir das mutações encontradas no próprio tumor do paciente.

Cada pessoa recebe, portanto, uma formulação específica.

O tratamento chega a apresentar ao sistema imunológico 34 alvos relacionados ao câncer daquele paciente.

Essa quantidade de alvos é considerada uma das diferenças fundamentais em relação a tentativas anteriores de vacinas oncológicas, que geralmente buscavam atacar apenas uma ou duas mutações.

Keytruda ajuda a liberar resposta imunológica

A vacina é utilizada juntamente com o Keytruda porque os dois tratamentos possuem funções complementares.

A vacina procura mostrar ao sistema imunológico quem deve ser atacado.

O Keytruda atua removendo mecanismos utilizados pelo câncer para impedir que as células imunológicas ataquem o tumor.

Essa classe de medicamentos, conhecida como inibidores de checkpoint imunológico, transformou o tratamento de diversos tipos de câncer ao longo dos últimos anos.

A estratégia da Moderna e da Merck busca agora acrescentar um componente ainda mais preciso: fornecer ao sistema imunológico um conjunto de alvos específicos do tumor de cada paciente.

Estudos anteriores já indicavam benefício

Antes do resultado do ensaio de fase avançada, pesquisas anteriores já haviam indicado potencial do tratamento.

Em um estudo de fase 2 acompanhado durante aproximadamente cinco anos, a combinação de intismeran autogene com Keytruda apresentou redução de 49% no risco de recorrência ou morte em comparação com o Keytruda usado sozinho.

Também foi observada uma redução de 59% no risco de metástase distante ou morte naquele estudo.

Esses resultados serviram de base para o desenvolvimento do ensaio maior que agora atingiu seus principais objetivos.

Aprovação poderá ser discutida com autoridades regulatórias

Moderna e Merck já iniciaram conversas com autoridades regulatórias sobre os próximos passos.

Nos Estados Unidos, o tratamento já havia recebido da Food and Drug Administration (FDA) a classificação de Breakthrough Therapy, mecanismo utilizado para acelerar o desenvolvimento e a avaliação de terapias destinadas a doenças graves quando resultados preliminares indicam vantagens relevantes.

Representantes da Moderna afirmaram que, caso o processo regulatório avance conforme esperado, o tratamento poderia chegar ao mercado norte-americano a partir de 2027.

Isso, entretanto, ainda dependerá da análise dos dados completos e da aprovação das autoridades sanitárias.

Não é uma vacina que previne todos os tipos de câncer

Apesar da dimensão do resultado, especialistas destacam que é importante evitar uma interpretação equivocada.

A descoberta não representa uma vacina universal capaz de impedir que uma pessoa desenvolva câncer.

O tratamento foi desenvolvido para pacientes que já tiveram melanoma de alto risco diagnosticado e removido cirurgicamente.

Seu objetivo é reduzir a possibilidade de células cancerígenas remanescentes provocarem novamente a doença ou produzirem metástases.

Também ainda não existe demonstração de que a mesma estratégia terá eficácia equivalente em todos os tipos de tumor.

Próximo desafio é levar tecnologia a outros cânceres

O melanoma foi escolhido para os primeiros grandes testes porque costuma apresentar grande quantidade de mutações, característica que facilita a criação de alvos para o sistema imunológico.

Agora, pesquisadores querem descobrir se a mesma estratégia funcionará em outros tumores.

Há estudos envolvendo câncer de pulmão, rim, bexiga, pâncreas e outros tipos de câncer.

Esse será um dos testes decisivos para determinar se a tecnologia poderá representar apenas uma nova alternativa contra o melanoma ou uma plataforma capaz de transformar diferentes áreas da oncologia.

Os desafios não são apenas científicos.

Como cada vacina precisa ser produzida individualmente a partir do tumor do paciente, fabricar o tratamento em grande escala será significativamente mais complexo do que produzir medicamentos convencionais.

Uma nova fronteira para a medicina personalizada

A medicina já vinha caminhando para tratamentos cada vez mais direcionados às características genéticas de cada câncer.

A vacina de mRNA leva esse conceito a outro nível.

Em vez de produzir um único medicamento para uma população inteira de pacientes, a proposta é fabricar uma terapia específica para as mutações encontradas em cada pessoa.

Ainda será necessário conhecer os resultados completos do estudo, avaliar a sobrevida dos pacientes no longo prazo, acompanhar possíveis efeitos adversos e passar pelo processo regulatório.

Por isso, o avanço deve ser tratado como um resultado científico extremamente promissor, e não como uma cura definitiva para o câncer.

Mesmo com essas ressalvas, o sucesso do ensaio representa algo que pesquisadores perseguem há gerações: transformar o próprio sistema imunológico do paciente em uma arma personalizada contra seu tumor.

Depois de mais de cem anos de tentativas, uma vacina terapêutica contra o câncer finalmente atravessou uma das barreiras mais difíceis da pesquisa médica. Agora, o desafio será transformar um resultado histórico de laboratório e ensaio clínico em um tratamento seguro e acessível aos pacientes.


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