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Brasil e EUA retomam negociação nesta segunda para tentar reduzir tarifaço sobre produtos brasileiros

Reunião virtual marcada para 14h30 coloca frente a frente representantes comerciais dos dois países; Brasil pretende ampliar lista de produtos isentos e sinalizará que está preparado para usar a Lei de Reciprocidade Econômica caso não haja avanço

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BRASÍLIA, 31 de agosto de 2026 — Brasil e Estados Unidos retomam nesta segunda-feira (31) uma negociação considerada estratégica para a indústria e para os exportadores brasileiros. Representantes dos dois governos têm reunião virtual marcada para as 14h30 com o objetivo de discutir as tarifas adicionais impostas por Washington sobre parte dos produtos vendidos pelo Brasil ao mercado norte-americano.

Pelo lado brasileiro, participa o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Os Estados Unidos serão representados por Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial norte-americano, o USTR.

A reunião é resultado direto da reabertura do diálogo político entre os dois governos depois de uma conversa telefônica realizada em 21 de agosto entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

Embora Brasília trate a volta à mesa de negociação como um sinal positivo, a expectativa é de uma conversa difícil e sem garantia de acordo imediato.

Tarifas podem chegar a 37,5%

O centro da discussão são duas medidas adotadas pelos Estados Unidos em julho.

Uma delas estabeleceu tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros após investigação comercial específica contra o Brasil. Outra impôs sobretaxa de até 12,5% relacionada às políticas de prevenção e combate ao trabalho forçado nas cadeias internacionais de produção.

Nos produtos atingidos simultaneamente pelas duas medidas, as sobretaxas podem chegar a 37,5%.

Dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos estão sujeitas às novas tarifas decorrentes dessas investigações.

Outros produtos ficaram fora das novas sobretaxas ou são alcançados por regimes tarifários setoriais diferentes.

A abrangência da medida torna a negociação particularmente relevante porque os Estados Unidos permanecem entre os maiores mercados consumidores dos produtos brasileiros.

Brasil quer ampliar lista de exceções

Uma das prioridades do governo brasileiro será aumentar o número de produtos excluídos das tarifas adicionais.

Washington já criou uma relação de mercadorias excepcionadas das medidas, mas Brasília considera possível ampliar essa lista.

A estratégia brasileira deverá concentrar esforços inicialmente em setores nos quais existe maior possibilidade de negociação, buscando resultados pontuais antes de discutir questões mais complexas da relação comercial.

A ampliação das exceções poderia reduzir imediatamente o impacto sobre empresas que dependem fortemente do mercado norte-americano.

Setores industriais acompanham a reunião com atenção porque tarifas elevadas tornam os produtos brasileiros mais caros nos Estados Unidos e podem reduzir competitividade, vendas e produção.

Lei de Reciprocidade estará sobre a mesa

O governo brasileiro também deverá informar oficialmente ao representante norte-americano que está preparado para utilizar a Lei de Reciprocidade Econômica caso não seja possível construir uma solução negociada.

A legislação permite ao Brasil adotar medidas proporcionais contra países que imponham barreiras consideradas prejudiciais ao comércio brasileiro.

Na prática, isso poderia abrir caminho para tarifas ou outras restrições sobre produtos norte-americanos.

Brasília, entretanto, tem evitado uma reação imediata.

A prioridade declarada continua sendo a negociação, principalmente porque uma guerra comercial poderia aumentar custos para empresas e consumidores dos dois países.

O governo brasileiro iniciou os procedimentos técnicos necessários para uma eventual aplicação da reciprocidade, mas a medida é tratada como instrumento de pressão e não como primeira opção.

Washington questiona práticas brasileiras

As divergências comerciais não envolvem apenas tarifas.

A investigação norte-americana levantou questionamentos sobre diferentes políticas brasileiras, incluindo regras relacionadas ao etanol, questões ambientais e determinadas práticas comerciais.

O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, também apareceu entre os pontos analisados pelos Estados Unidos dentro das discussões sobre concorrência e acesso ao mercado.

O governo brasileiro rejeita parte das acusações e sustenta que várias das políticas questionadas não representam práticas comerciais desleais.

Também contesta as críticas relacionadas ao combate ao trabalho forçado e argumenta que o país possui legislação e mecanismos institucionais destinados a enfrentar esse tipo de violação.

Essas divergências ajudam a explicar por que a negociação deverá ser mais ampla do que uma simples discussão sobre percentuais tarifários.

Empresas temem perda do mercado norte-americano

Para o setor produtivo brasileiro, o principal risco é perder espaço nos Estados Unidos para fornecedores de outros países.

Quando uma tarifa adicional é aplicada, o produto brasileiro chega ao importador norte-americano com custo maior.

Dependendo do setor, a empresa exportadora precisa escolher entre elevar o preço final, reduzir sua margem de lucro ou redirecionar a produção para outros mercados.

Nenhuma dessas alternativas é simples.

Empresas que construíram relações comerciais de longo prazo com compradores norte-americanos podem enfrentar dificuldade para substituir rapidamente esses contratos.

Por isso, entidades empresariais defendem que os dois governos mantenham canais permanentes de negociação.

Relação comercial movimenta bilhões de dólares

Brasil e Estados Unidos mantêm uma das mais importantes relações comerciais das Américas.

A pauta envolve produtos industriais, petróleo e derivados, aeronaves, máquinas, alimentos, minerais, produtos químicos e diversos outros segmentos.

Além da troca de mercadorias, empresas norte-americanas possuem investimentos expressivos no Brasil e companhias brasileiras também mantêm operações nos Estados Unidos.

Uma escalada tarifária, portanto, não afetaria somente exportadores.

Ela poderia alterar investimentos, cadeias produtivas, preços e decisões empresariais em ambos os países.

Telefonema entre Lula e Trump reabriu canal político

A reunião desta segunda-feira só foi marcada depois de uma nova conversa entre Lula e Trump.

O telefonema realizado em 21 de agosto permitiu que os dois governos retomassem um canal político que vinha atravessando um período de forte tensão.

Trump orientou sua equipe comercial a reabrir as conversas técnicas e, poucos dias depois, Greer entrou em contato com o governo brasileiro para marcar a reunião desta segunda.

A retomada não significa que as divergências tenham desaparecido.

Ao contrário, os dois países continuam distantes em vários pontos.

Mas a existência de uma negociação formal reduz, pelo menos temporariamente, o risco de decisões comerciais tomadas sem diálogo.

Reunião pode preparar novo encontro entre os presidentes

Além das negociações técnicas, existe expectativa de novos contatos políticos entre os dois governos nas próximas semanas.

Lula e Trump poderão voltar a se encontrar ou conversar durante o período da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro, em Nova York.

Um avanço nesta segunda-feira poderia criar condições para que eventuais decisões mais importantes fossem discutidas diretamente pelos presidentes.

Por outro lado, se a reunião terminar sem qualquer aproximação, a possibilidade de medidas de reciprocidade deverá voltar ao centro do debate brasileiro.

Segunda-feira pode definir o rumo da disputa comercial

A reunião das 14h30 não deverá solucionar de uma vez todos os conflitos comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

Mas poderá indicar se existe espaço real para negociação.

O primeiro sinal será observar se Washington demonstra disposição para ampliar a relação de produtos brasileiros excluídos das sobretaxas.

Outro ponto será a resposta norte-americana à sinalização brasileira de que poderá utilizar instrumentos de reciprocidade.

Para exportadores, indústrias e trabalhadores ligados aos setores afetados, o resultado interessa diretamente.

Cada produto retirado da lista de tarifas representa maior possibilidade de preservar contratos, produção e empregos.

Por isso, uma videoconferência realizada nesta segunda-feira entre Brasília e Washington terá repercussões muito além das salas dos dois governos: poderá determinar parte das condições em que empresas brasileiras disputarão um dos maiores mercados consumidores do mundo nos próximos meses.


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