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ANÁLISE | A sucessão tardia: o que Araucária de 2024 pode ensinar sobre a disputa pelo Paraná em 2026

De Hissam a Ratinho Junior, processos diferentes levantam a mesma questão: até que ponto a força e a aprovação de um governante podem ser transferidas ao sucessor escolhido?

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ARAUCÁRIA (PR) — A história política não costuma se repetir exatamente da mesma maneira. Municípios e estados possuem dimensões diferentes, os candidatos mudam, o eleitorado muda e cada eleição possui circunstâncias próprias.

Mas determinados processos políticos apresentam semelhanças que merecem ser observadas.

Ao acompanhar a sucessão do governador Ratinho Junior no Paraná em 2026, encontro elementos que me fazem recordar a eleição municipal de Araucária em 2024.

Não afirmo que os resultados serão iguais. Muito menos que uma eleição permita antecipar o resultado da outra.

Minha comparação está na construção política da sucessão.

Araucária demonstrou que um governante eleitoralmente muito forte pode chegar ao fim de um ciclo administrativo sem conseguir transferir integralmente sua força para quem escolhe como sucessor.

Dois anos depois, Ratinho Junior enfrenta seu próprio desafio: transformar a força política acumulada durante dois mandatos em votos para Sandro Alex.

É o fenômeno que denomino, nesta análise, de “sucessão tardia”.

Hissam: força eleitoral extraordinária

Hissam Hussein Dehaini chegou à reta final de seu ciclo administrativo carregando um patrimônio político expressivo.

Em 2020, pesquisa registrada apontava aprovação de 80,5% de sua administração. Na eleição municipal daquele mesmo ano, sua força nas urnas foi ainda mais impressionante: Hissam foi reeleito com 89,40% dos votos válidos.

São indicadores diferentes — aprovação de governo não deve ser confundida com votação eleitoral —, mas ambos demonstravam sua força política naquele período.

Hissam possuía ainda forte sustentação na Câmara Municipal e um amplo grupo político construído ao redor de seu governo.

O grande problema surgiu justamente na questão que costuma desafiar governos fortes:

Quem será o sucessor?

Genildo e uma história que antecedia o governo

Quem acompanhava de perto a política de Araucária sabia que essa discussão não começou apenas em 2024.

Um dos nomes que circulou nesse processo foi o de Genildo Carvalho, ex-secretário municipal de Governo e personagem de uma relação política antiga com Hissam.

Pelo acompanhamento que fiz daquele grupo, existia no ambiente político a expectativa de que Genildo pudesse ocupar papel importante numa futura sucessão. Também circulava entre integrantes daquele meio a interpretação de que havia um compromisso político relacionado à própria história entre os dois e ao papel atribuído a Genildo na entrada de Hissam na política.

Não encontrei, entretanto, documento público que formalize esse suposto compromisso. Portanto, registro aqui aquilo que pertence à minha leitura dos bastidores políticos daquele período, e não como acordo documentalmente comprovado.

O fato objetivo é que Genildo posteriormente tomou outro caminho e chegou às eleições de 2024 como candidato a prefeito pelo Cidadania, disputando contra o candidato apoiado por Hissam.

Um integrante importante do antigo núcleo político havia se transformado em adversário eleitoral.

Ben Hur ganha força na sucessão

Outro personagem passou então a ganhar protagonismo: Ben Hur Custódio.

Naquele momento, Ben Hur exercia seu segundo mandato de vereador e presidia novamente a Câmara Municipal.

Seu nome ganhou força e chegou a ser tratado como possível candidato à sucessão.

Mas a construção de uma eventual candidatura enfrentou resistências políticas internas e questões jurídicas discutidas naquele período.

Independentemente das razões que impediram aquela candidatura de prosperar, o fato politicamente relevante é que o desenho sucessório mudou novamente.

E surgiu uma composição que, na minha avaliação à época, poderia ser eleitoralmente muito competitiva.

Hilda surge como sucessora

Em fevereiro de 2024, Hissam anunciou Hilda Lukalski como sua escolhida para disputar a Prefeitura.

Ben Hur seria candidato a vice.

Hilda não era uma personagem secundária dentro daquela administração.

Era vice-prefeita pelo segundo mandato consecutivo, tinha trajetória própria no município, conhecimento público e participação direta na administração.

E existe aqui uma circunstância pessoal que considero importante revelar ao leitor.

Eu estava dentro do governo quando Hilda assumiu a Prefeitura

Quando Hilda assumiu interinamente o comando da Prefeitura de Araucária durante aquele ciclo administrativo, eu exercia o cargo de secretário municipal de Governo.

Não acompanhei, portanto, todo aquele período apenas como jornalista ou observador externo.

Eu estava dentro da estrutura administrativa.

Documentação oficial daquele período registra Hissam Hussein Dehaini como prefeito, Hilda Lukalski como vice-prefeita e meu nome como secretário municipal de Governo.

Essa experiência evidentemente não me permite afirmar como Hilda se sairia numa eleição que acabou não disputando.

Mas contribuiu diretamente para a avaliação política que formei sobre ela.

Pude acompanhar de dentro da administração sua relação com a estrutura municipal e aquele momento em que esteve à frente do Executivo.

Minha percepção, baseada nessa experiência, era de que Hilda reunia atributos políticos próprios e condições competitivas para representar a continuidade daquele governo.

Isso é uma avaliação minha — e não uma previsão retroativa de vitória.

O problema explodiu na convenção

A sucessão, porém, sofreu uma nova reviravolta.

Às vésperas da convenção partidária, Hilda tornou pública sua discordância em relação à composição da chapa.

O problema estava na vice.

Ela não concordava com a manutenção de Ben Hur nessa posição e pediu que pudesse participar da definição de outro nome.

A divergência chegou à convenção.

O conflito, que poderia permanecer nos bastidores, tornou-se público.

Hilda acabou deixando a candidatura.

Politicamente, considero esse episódio muito mais relevante do que simplesmente dizer que um nome foi substituído por outro.

A pessoa escolhida meses antes pelo próprio prefeito para representá-lo na sucessão havia rompido com o projeto durante sua construção.

Cláudio assume e a chapa muda novamente

Com a saída de Hilda, o médico Cláudio Bednarczuk assumiu a candidatura a prefeito.

Inicialmente, Ben Hur permaneceu na composição como candidato a vice.

Mas a chapa ainda sofreria outra alteração.

Ben Hur também deixou formalmente a disputa eleitoral e sua esposa, Vanessa Maciel, passou a ocupar a candidatura a vice.

A composição definitiva tornou-se Cláudio Bednarczuk e Vanessa Maciel.

Observe-se a trajetória política dessa sucessão.

Genildo esteve entre os nomes relacionados ao futuro daquele grupo e terminou candidato adversário. Ben Hur ganhou força e foi cogitado para a sucessão. Hilda foi efetivamente anunciada candidata a prefeita. Hilda rompeu na convenção. Cláudio assumiu. Ben Hur posteriormente deixou a chapa. Vanessa entrou como vice.

Enquanto tudo isso acontecia, Hissam continuava sendo uma liderança política muito forte.

A urna mostrou que popularidade não é propriedade

O resultado de outubro foi apertadíssimo.

Gustavo Botogoski recebeu 27.892 votos, ou 35,74% dos válidos.

Cláudio Bednarczuk recebeu 26.179 votos, ou 33,54%.

A diferença foi de apenas 1.713 votos.

Não existe método sério que permita afirmar que determinada ruptura interna tenha produzido exatamente esses votos. Eleição é resultado de inúmeros fatores.

Mas o resultado permite uma conclusão mais cuidadosa:

A enorme força política de Hissam não foi suficiente para assegurar a vitória de seu sucessor.

Aprovar um governo e votar no candidato apoiado pelo governante são decisões diferentes.

Essa é, para mim, uma das principais lições de 2024.

O custo político dos preteridos

Existe ainda outro componente que merece atenção.

Toda sucessão cria expectativas.

Quanto mais forte é um governo, maior tende a ser o número de pessoas que se consideram habilitadas para continuá-lo.

Quando vários nomes são estimulados, cogitados ou trabalham acreditando possuir espaço no projeto e posteriormente são descartados, surge aquilo que considero o custo político dos preteridos.

Alguns permanecem no grupo. Outros rompem. Alguns apoiam formalmente, mas perdem entusiasmo. Outros levam consigo lideranças, apoiadores ou parcelas do eleitorado.

Por isso, sucessão não deveria começar na convenção.

Ela precisa ser construída muito antes.

E então chegamos ao Paraná de 2026

Guardadas todas as diferenças, encontro alguns elementos semelhantes no processo sucessório de Ratinho Junior.

Ratinho também chega ao final de um ciclo de grande força política.

Seu governo construiu ampla base partidária, reúne prefeitos, deputados, vereadores e lideranças espalhadas pelo Paraná.

Mas a definição do sucessor também percorreu diferentes nomes.

Guto Silva esteve entre os principais.

Alexandre Curi entrou diretamente nas articulações.

Rafael Greca também buscou espaço para disputar o Governo.

Outros nomes circularam durante a construção política.

Até que Sandro Alex foi escolhido.

A escolha de Sandro produziu consequências

Guto Silva não era apenas mais um integrante do governo.

Havia comandado secretarias importantes e era apontado como um dos nomes mais próximos de Ratinho para a sucessão.

Depois da escolha de Sandro, o próprio Guto declarou posteriormente ter se sentido “traído” pela maneira como o processo foi conduzido, conforme declaração reproduzida pela imprensa.

Segundo o relato publicado, Guto afirmou que não participou da mudança de rumo e foi chamado para ser comunicado da decisão.

É uma declaração politicamente significativa porque revela que a escolha do sucessor produziu desconforto dentro do próprio núcleo governista.

Aqui está outra semelhança que observo com Araucária:

O problema não necessariamente começa depois que o candidato é escolhido. Às vezes, ele nasce na maneira como a escolha é construída.

Ratinho conseguiu recompor parte do grupo

Há, entretanto, uma diferença importante — e ela precisa ser reconhecida.

Ratinho conseguiu reconstruir parte significativa da aliança.

Rafael Greca acabou incorporado à chapa como candidato a vice-governador.

Alexandre Curi seguiu dentro da composição política disputando o Senado.

Portanto, seria incorreto afirmar que o grupo de Ratinho simplesmente se desmantelou.

Houve fissuras, disputas e insatisfações.

Mas também houve recomposição.

A questão eleitoral é outra:

Quanto custou esse processo e quanto do capital político de Ratinho pode efetivamente ser transferido para Sandro?

Sandro cresce, mas pesquisas ainda mostram Moro numericamente à frente

A pesquisa Quaest divulgada em 24 de setembro oferece uma fotografia importante dessa disputa.

Sergio Moro aparece com 36% das intenções de voto.

Sandro Alex tem 20%.

Requião Filho também registra 20%.

A pesquisa ouviu 804 eleitores entre 20 e 23 de setembro, possui margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número PR-02802/2026.

Há um dado importante para Sandro: ele cresceu.

Na Quaest de agosto aparecia com 15%. Agora chegou a 20%.

Moro passou de 37% para 36%, enquanto Requião Filho passou de 21% para 20%.

Portanto, o crescimento numérico mais expressivo entre os três nesse intervalo foi o de Sandro.

Mas isso não elimina a distância registrada pelo levantamento mais recente: Moro aparece numericamente 16 pontos à frente dos dois candidatos que registram 20%.

Outro levantamento recente apresenta uma fotografia diferente.

A Real Time Big Data, realizada entre 11 e 15 de setembro com 1.600 entrevistados, apontou Moro com 35%, Sandro com 27% e Requião Filho com 22%. A margem de erro informada é de dois pontos percentuais.

Pesquisas utilizam metodologias, amostras e períodos de coleta próprios. São fotografias daquele momento e não previsões do resultado das urnas.

Ratinho arregaçou as mangas

Diante desse cenário, Ratinho Junior aumentou sua participação direta na campanha.

O governador chegou a se licenciar do cargo em setembro para intensificar seu envolvimento na eleição de Sandro.

Passou a percorrer municípios, participar de encontros, carreatas e mobilizações.

Politicamente, o movimento é compreensível.

Ratinho tenta utilizar seu próprio capital político para fortalecer o candidato escolhido para representar a continuidade de seu governo.

E é justamente nesse ponto que a experiência de Araucária volta à minha memória.

O eleitor pode aprovar Ratinho e não votar em Sandro

Assim como um eleitor de Araucária podia aprovar Hissam e escolher outro candidato para prefeito, um eleitor paranaense pode aprovar Ratinho Junior e votar em outro candidato ao Governo.

Não existe contradição nisso.

A avaliação de uma administração responde a uma pergunta.

A escolha do próximo governante responde a outra.

Esse é um dos maiores desafios enfrentados por governos populares no momento da sucessão:

transformar aprovação administrativa em transferência eleitoral.

O voto não pertence ao governante.

O que chamo de “sucessão tardia”

Depois de acompanhar esses processos, utilizo aqui uma expressão própria para definir o fenômeno:

Síndrome da sucessão tardia.

É quando um governante chega politicamente forte ao final de seu ciclo, mas demora para transformar sua liderança pessoal em um projeto sucessório claramente definido e assimilado pelo grupo.

Vários nomes surgem. Expectativas são criadas. Projetos pessoais começam a ser construídos.

Quando finalmente ocorre a escolha, não basta apresentar o candidato ao eleitor.

É necessário também recompor aqueles que não foram escolhidos.

Quanto mais tarde isso acontece, menos tempo existe para transformar o escolhido em liderança própria.

O governante continua forte. Mas seu sucessor precisa correr contra o relógio.

Hissam tentou transferir força; Ratinho enfrenta agora seu próprio teste

Não estou afirmando que Sandro Alex perderá.

Também não afirmo que Sergio Moro ou qualquer outro candidato vencerá.

A eleição será decidida pelos paranaenses.

Minha análise trata de outro fenômeno.

Hissam chegou forte à sucessão de Araucária. Tinha realizações, grupo político, apoio legislativo e enorme votação anterior.

Mas atravessou uma construção sucessória marcada por diferentes nomes, mudanças e rupturas.

Quando chegou a eleição, sua força pessoal não foi suficiente para assegurar a vitória do candidato escolhido.

Ratinho Junior possui hoje seu próprio patrimônio político.

Também possui estrutura. Também possui grupo. Também possui realizações para apresentar.

E agora coloca pessoalmente essa força na campanha de Sandro Alex.

A Quaest mostra Sandro crescendo de 15% para 20%, mas registra Moro com 36%.

A Real Time Big Data apresenta uma distância menor, com 35% para Moro e 27% para Sandro.

Nenhum desses números determina o resultado de outubro.

Eles mostram apenas o tamanho do desafio político existente no momento em que as pesquisas foram realizadas.

Quem acompanhou Araucária já conhece o risco

Talvez minha experiência em Araucária seja justamente o motivo pelo qual observo essa movimentação com atenção especial.

Eu não estava apenas acompanhando de fora parte daquele processo.

Fui secretário municipal de Governo.

Convivi com aquela estrutura administrativa.

Estava na administração quando Hilda exerceu interinamente o comando do Executivo.

Depois acompanhei as articulações, as mudanças de nomes, as rupturas e, finalmente, o resultado das urnas.

Por isso minha conclusão não é sobre quem ganhará a eleição de 2026.

É sobre construção política.

Um bom governo não elege automaticamente seu sucessor.

Uma grande aprovação não é transferida integralmente por decisão do governante.

Um grupo numeroso não permanece necessariamente unido apenas porque esteve unido durante o governo.

E, principalmente:

Construir um bom governo e construir uma boa sucessão são duas tarefas completamente diferentes.

Araucária deixou essa lição em 2024.

O Paraná está vivendo seu próprio processo em 2026.

A história não precisa se repetir.

Mas ignorar aquilo que ela ensina costuma ser um dos erros mais caros da política.


Laécio Monteiro
Jornalista MTB 11120/PR | Radialista DRT 7640/PR

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