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Segurança nas escolas: quantas tragédias ainda serão necessárias para transformar a proteção das crianças em prioridade?

De Realengo a Blumenau, passando por Suzano, Saudades, Aracruz e Cambé, episódios de violência marcaram a história recente do Brasil. Ocorrência no CMEI São Braz, em Curitiba, reacende questionamentos sobre prevenção, investimentos e cumprimento das leis.

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CURITIBA (PR) — 9 de outubro de 2026.

A ocorrência registrada nesta sexta-feira (9), no CMEI São Braz, em Curitiba, reacendeu uma discussão que atravessa décadas no Brasil: a segurança de crianças, adolescentes e profissionais dentro das instituições de ensino.

A cada episódio grave, famílias demonstram preocupação, autoridades anunciam providências e especialistas defendem medidas preventivas. Entretanto, permanece uma questão fundamental: as ações implementadas são suficientes, abrangentes e permanentemente fiscalizadas?

Uma história de violência que o Brasil não pode esquecer

Levantamento divulgado pelo Observatório Nacional dos Direitos Humanos identificou 43 ataques de violência extrema contra escolas brasileiras desde 2001, no período analisado, com 47 vítimas fatais. O dado não representa todas as formas de violência escolar nem um balanço integral até outubro de 2026, mas ajuda a dimensionar a gravidade do fenômeno.

Em 2011, o massacre da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, deixou 12 estudantes mortos. Em 2019, o ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, São Paulo, matou estudantes e funcionários. Em 2021, uma creche de Saudades, Santa Catarina, foi alvo de um ataque que matou cinco pessoas, entre elas três crianças.

Em 2022, duas escolas de Aracruz, no Espírito Santo, foram atacadas. Em 2023, quatro crianças foram assassinadas em uma creche de Blumenau, Santa Catarina. No mesmo ano, o Colégio Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé, no Paraná, sofreu um ataque que resultou na morte de dois estudantes.

Os episódios têm circunstâncias, autores e motivações diferentes. O caso do CMEI São Braz não deve ser automaticamente classificado como um ataque escolar planejado semelhante aos massacres históricos. A comparação aqui é sobre a necessidade de prevenção, protocolos e proteção dos ambientes educacionais.

Depois das tragédias, vieram leis e programas

A Constituição Federal estabelece proteção prioritária à criança e ao adolescente. A Lei Federal nº 14.811/2024 instituiu medidas de proteção contra a violência em estabelecimentos educacionais ou similares e prevê protocolos de proteção articulados com órgãos de segurança, saúde e comunidade escolar.

No Paraná, programas de segurança escolar e a Patrulha Escolar Comunitária integram a estrutura de prevenção e resposta. Curitiba também utiliza mecanismos de monitoramento e ações da Guarda Municipal. A existência dessas iniciativas, porém, leva a uma segunda pergunta: qual é a abrangência efetiva das medidas em cada escola e CMEI?

Protegemos melhor o patrimônio do que nossas crianças?

Instituições financeiras operam sob exigências específicas de segurança para proteger pessoas, instalações e valores. Nas instituições de ensino, está em jogo um bem que não pode ser recuperado: a vida.

Isso não significa transformar escolas em fortalezas ou defender indiscriminadamente vigilância armada. Significa discutir avaliação de riscos, controle adequado de acesso, comunicação de emergência, profissionais capacitados, treinamento e integração rápida com as forças de segurança.

Na educação infantil, a questão ganha peso adicional. Crianças pequenas dependem dos adultos para compreender uma ameaça, deixar um ambiente ou seguir um procedimento de emergência.

Segurança começa antes da chegada da polícia

Polícia Militar e guardas municipais são indispensáveis diante de uma ocorrência grave. Mas um sistema de proteção escolar precisa funcionar antes da emergência. Controle de acesso, protocolos claros, identificação de ameaças, treinamento dos profissionais e comunicação rápida são componentes de uma política preventiva.

A prevenção também envolve acompanhamento psicossocial, enfrentamento do bullying, identificação responsável de ameaças e integração entre educação, saúde, assistência social e segurança pública.

O que os governos precisam responder?

Depois de tantos episódios, a discussão precisa avançar dos anúncios para os indicadores. Quantas escolas possuem planos de segurança implementados e testados? Quantos profissionais receberam capacitação? Com que frequência são feitas avaliações de vulnerabilidade? Quanto se investe especificamente em segurança escolar? Quantas unidades possuem sistemas de emergência e controle de acesso?

No Paraná, é importante conhecer a cobertura dos programas estaduais e sua articulação com as redes municipais. Em Curitiba, a ocorrência no CMEI São Braz torna pertinente esclarecer quais mecanismos estavam disponíveis na unidade, como foram acionados e qual é a cobertura dessas estruturas nos demais CMEIs e escolas municipais.

Essas perguntas não representam condenação antecipada de gestores ou profissionais. Representam cobrança por transparência e prestação de contas.

Pais, responsáveis e comunidade também precisam participar

Famílias podem conhecer os procedimentos de entrada e saída, perguntar sobre protocolos de emergência e comunicar comportamentos ou ameaças preocupantes pelos canais adequados. Profissionais precisam receber capacitação compatível com a realidade de cada faixa etária.

Estudantes também devem receber orientações adequadas à idade, sem transformar a escola em ambiente de medo. Segurança e acolhimento não são objetivos incompatíveis.

A memória das vítimas precisa produzir resultados

Realengo, Suzano, Saudades, Aracruz, Blumenau e Cambé não podem permanecer apenas como nomes associados a tragédias. Cada episódio representa vidas interrompidas, famílias atingidas e comunidades marcadas.

A ocorrência em Curitiba recoloca o assunto no debate público. O desafio é impedir que a discussão desapareça novamente quando a emergência deixar as manchetes.

A segurança das crianças não pode depender da próxima tragédia para voltar à agenda pública.

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