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OPINIÃO · COLUNA

Aliado ou puxa-saco? O perigo da bajulação na administração pública e privada

Quando líderes confundem lealdade com submissão, o contraditório desaparece, os erros se multiplicam e instituições públicas e privadas passam a servir mais aos interesses pessoais do que aos seus verdadeiros propósitos.

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A diferença entre um aliado e um puxa-saco é simples: o puxa-saco massageia o ego, aplaude os erros e assiste o líder afundar. O verdadeiro aliado, por sua vez, tem coragem de confrontá-lo e, quando necessário, dar-lhe um choque de realidade para impedir que ele se afogue nas próprias escolhas.

Essa diferença, que pode ser percebida nas relações pessoais, torna-se ainda mais importante dentro da administração pública e da iniciativa privada. Em organizações nas quais decisões afetam servidores, funcionários, clientes, fornecedores, investidores e toda a sociedade, cercar-se apenas de pessoas que concordam com tudo não é sinal de liderança forte. É uma fragilidade disfarçada de prestígio.

O líder que somente aceita elogios começa a perder o contato com a realidade. E quem perde o contato com a realidade passa a decidir com base naquilo que deseja ouvir, não naquilo que precisa saber.

Quando a lealdade é confundida com submissão

Um dos problemas mais comuns nas estruturas de poder é a confusão entre lealdade e obediência incondicional.

Há gestores que consideram leal somente quem concorda com todas as suas decisões. Qualquer ponderação é interpretada como resistência; qualquer alerta é recebido como afronta; qualquer opinião divergente passa a ser vista como falta de compromisso.

Nesse ambiente, o profissional competente aprende que falar a verdade pode custar espaço, confiança ou até o próprio emprego. Enquanto isso, o bajulador percebe que concordar, elogiar e alimentar o ego do superior pode render proximidade, vantagens e influência.

A partir desse momento, a competência perde espaço para a conveniência.

O puxa-saco faz de tudo para aparecer agradando. Na presença do líder, demonstra uma lealdade aparentemente inabalável. Bate palmas, elogia decisões, reforça convicções e transforma erros evidentes em supostos acertos.

Nos bastidores, porém, muitas vezes deixa claro que seu compromisso não é com a pessoa, com a instituição ou com o projeto. Seu verdadeiro compromisso é com as benesses: o cargo, o salário, a influência, o contrato, o prestígio, a facilidade ou qualquer outra vantagem proporcionada pela proximidade com o poder.

O perigo na administração pública

Na administração pública, a bajulação é especialmente prejudicial porque os efeitos de uma decisão equivocada não recaem apenas sobre o gestor e sua equipe. Eles atingem o cidadão e comprometem recursos que pertencem à coletividade.

Um agente público não administra patrimônio particular. Ele exerce temporariamente uma responsabilidade pública e deve atuar segundo princípios como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Nesse contexto, o verdadeiro aliado de uma gestão não é aquele que protege o governante de toda crítica ou concorda com qualquer decisão. É aquele que ajuda a administração a permanecer dentro da legalidade, a corrigir falhas, a evitar desperdícios e a entregar melhores resultados para a população.

O servidor, assessor ou secretário que alerta sobre uma possível ilegalidade, uma despesa desnecessária, uma comunicação equivocada ou uma política pública ineficiente não está necessariamente agindo contra o gestor. Ao contrário: pode estar protegendo a gestão, a instituição e o próprio administrador de consequências futuras.

O bajulador, entretanto, prefere dizer que “está tudo certo”. Mesmo quando existem falhas, ele silencia. Mesmo quando percebe riscos, evita contrariar. Se a decisão produzir bons resultados, procura aparecer na fotografia. Se der errado, desaparece, transfere responsabilidades ou afirma que apenas cumpria ordens.

Esse comportamento enfraquece o serviço público, porque substitui o compromisso institucional pela fidelidade pessoal. Aos poucos, o interesse coletivo pode ser colocado em segundo plano, enquanto o grupo mais próximo do poder passa a trabalhar para preservar posições e privilégios.

Gestões públicas eficientes precisam de profissionais tecnicamente preparados, moralmente responsáveis e suficientemente corajosos para apresentar a realidade — inclusive quando ela é desconfortável.

O mesmo problema nas empresas

Na iniciativa privada, a bajulação também cobra um preço elevado.

Empresas que premiam somente quem concorda com a direção tendem a perder capacidade de inovação, antecipação de riscos e correção de falhas. Problemas deixam de ser comunicados, metas irreais permanecem intocadas e decisões ruins continuam sendo executadas porque ninguém se sente seguro para questioná-las.

O resultado pode aparecer na perda de clientes, no desperdício de recursos, na queda da produtividade, na deterioração do ambiente de trabalho e na saída dos profissionais mais competentes.

Quando o líder prefere elogios a diagnósticos, os melhores funcionários podem se cansar de tentar contribuir. Muitos deixam de participar, limitam-se a cumprir tarefas ou procuram outras organizações. Permanecem mais próximos justamente aqueles que descobriram que concordar é mais vantajoso do que entregar resultados.

Cria-se, então, uma empresa aparentemente harmoniosa, mas internamente incapaz de reconhecer seus próprios problemas.

A ausência de conflitos não significa necessariamente que tudo esteja bem. Em alguns ambientes, ela apenas demonstra que as pessoas desistiram de falar.

O bajulador protege a própria conveniência

O puxa-saco não atua movido prioritariamente por lealdade. Sua lógica é a sobrevivência por aproximação.

Ele estuda o comportamento de quem ocupa o poder, identifica aquilo que o líder gosta de ouvir e passa a reproduzir exatamente esse discurso. Sua postura muda conforme o ambiente e sua opinião acompanha a direção das vantagens.

Na frente, aparenta respeito e fidelidade. Na ausência, pode demonstrar ressentimento, criticar aquele a quem elogia publicamente ou revelar que sua proximidade sempre esteve condicionada aos benefícios recebidos.

Por isso, não se deve medir a lealdade pela quantidade de elogios. Ela é percebida na coerência entre o que alguém diz na presença e aquilo que sustenta na ausência.

O bajulador permanece enquanto existem vantagens. O aliado permanece fiel aos seus valores, mesmo quando precisa discordar.

O verdadeiro aliado também precisa saber confrontar

Ser aliado não significa ser agressivo, inconveniente ou permanentemente contrário. A discordância responsável exige preparo, respeito, argumentos e compromisso com uma solução.

O verdadeiro aliado não critica para humilhar, ocupar o lugar do outro ou demonstrar superioridade. Ele apresenta fatos, aponta riscos e oferece alternativas. Escolhe o momento adequado, preserva a dignidade das pessoas e não transforma divergências internas em espetáculo público.

Seu compromisso inicial é com a própria moral e com a ética. Exatamente por isso, ele não vende sua consciência para preservar um cargo, agradar uma autoridade ou conquistar benefícios.

O respeito verdadeiro anda ao lado da verdade.

Quem realmente se importa não assiste passivamente alguém tomar decisões prejudiciais apenas para continuar sendo bem recebido. Quando necessário, o aliado oferece um choque de realidade. Pode até desagradar momentaneamente, mas sua intenção é evitar um prejuízo maior.

Bons líderes não temem pessoas competentes

Também cabe ao líder decidir que tipo de ambiente deseja construir.

Gestores inseguros costumam interpretar profissionais competentes como ameaças. Preferem pessoas dependentes, silenciosas e permanentemente agradecidas. Com isso, podem até preservar sua autoridade por algum tempo, mas enfraquecem a organização que deveriam liderar.

Bons líderes fazem o contrário. Eles não temem perguntas difíceis, não punem opiniões técnicas e não exigem concordância artificial. Criam canais para que problemas sejam comunicados, estimulam avaliações sinceras e compreendem que uma decisão pode ser aperfeiçoada sem que sua autoridade seja diminuída.

Liderar não é estar sempre certo. É ter maturidade para reconhecer quando outra pessoa apresenta uma alternativa melhor.

Na administração pública, isso protege o interesse coletivo. Na empresa privada, melhora decisões, reduz riscos e fortalece os resultados. Em ambos os casos, a diversidade de opiniões, quando acompanhada de responsabilidade, é uma forma de proteção institucional.

Escolha quem diz a verdade

Todo líder deveria desconfiar de ambientes nos quais ninguém discorda, nenhuma decisão é questionada e todos os discursos terminam em aplausos.

O excesso de elogios pode produzir uma sensação agradável de poder, mas também pode esconder incompetência, oportunismo e medo. Quando todos dizem apenas aquilo que o chefe deseja ouvir, a organização deixa de enxergar seus problemas antes que eles se tornem crises.

O puxa-saco protege a própria conveniência. O aliado protege aquilo que é correto.

O puxa-saco está comprometido com as vantagens da proximidade. O aliado está comprometido com a verdade, a ética e os resultados.

O puxa-saco aplaude enquanto você afunda. O verdadeiro aliado estende a mão — ainda que, antes de salvá-lo, precise fazê-lo despertar para a realidade.

Portanto, na vida, na administração pública ou na iniciativa privada, não escolha as pessoas pela intensidade dos aplausos. Escolha pela firmeza do caráter, pela coerência das atitudes e pela coragem de dizer a verdade, inclusive quando ela não for aquilo que você gostaria de ouvir.


✍️ Laécio Monteiro
Jornalista | Apresentador e Radialista | Gestor | Escritor


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