QUANDO O CAMPUS VIRA TRINCHEIRA
Militância partidária, intolerância e disputa ideológica reacendem debate sobre pluralismo nas universidades públicas brasileiras

Mobilização explícita em favor de Lula nas eleições de 2026, episódios de hostilidade a vozes divergentes e relatos de autocensura colocam novamente no centro do debate os limites entre liberdade política, militância e utilização do ambiente universitário como instrumento de disputa partidária
BRASÍLIA/CURITIBA — Universidade é, por definição, lugar de confronto de ideias. Conservadores, liberais, socialistas, progressistas, religiosos, ateus, governistas e oposicionistas precisam ter o mesmo direito de falar, pesquisar, questionar e ser questionados.
O problema começa quando o debate deixa de ser plural e uma corrente política passa a tratar o espaço acadêmico como território próprio — no qual adversários não são simplesmente contestados, mas hostilizados, constrangidos ou impedidos de falar.
Em pleno segundo turno das eleições presidenciais de 2026, essa discussão voltou ao centro da política brasileira.
Nos últimos dias, movimentos estudantis desencadearam uma mobilização nacional explicitamente favorável à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A União Nacional dos Estudantes (UNE) lançou uma campanha de apoio ao candidato e convocou mobilizações até a véspera do segundo turno. Levantamentos divulgados nesta semana apontam ações em mais de 40 universidades, distribuídas por pelo menos 14 estados e pelo Distrito Federal.
Não se trata, portanto, apenas de estudantes discutindo política dentro das universidades. Parte organizada do movimento estudantil assumiu publicamente uma posição eleitoral e passou a atuar para influenciar o resultado das urnas.
Isso é um direito político de seus integrantes.
A questão mais delicada é outra: até que ponto uma universidade pública consegue continuar sendo institucionalmente plural quando organizações que falam em nome dos estudantes transformam o ambiente acadêmico em base de mobilização de uma candidatura?
Curitiba oferece um retrato da mobilização
Na noite desta quinta-feira (8), milhares de estudantes participaram de uma manifestação em Curitiba em apoio à reeleição de Lula e contra Flávio Bolsonaro (PL), adversário do petista no segundo turno, e Sergio Moro (PL), eleito governador do Paraná.
A concentração ocorreu na Praça Santos Andrade, diante do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e seguiu pela Rua XV de Novembro até a Boca Maldita.
Entre as manifestações estava uma grande bandeira com a inscrição “UFPR contra o fascismo”.
Há uma diferença importante entre dizer que estudantes da UFPR são contra determinado candidato e utilizar a própria identificação da universidade numa mensagem política. A primeira situação representa manifestação individual ou coletiva de cidadãos; a segunda pode transmitir ao público a impressão de que uma instituição pública inteira possui posição política determinada.
E universidades públicas não pertencem à esquerda, à direita, a partidos, sindicatos, movimentos estudantis, professores ou governos.
Pertencem à sociedade.
Mobilização nacional tem candidato definido
A movimentação não está restrita ao Paraná.
Atos favoráveis a Lula ocorreram ou foram convocados no Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal, Bahia, Alagoas e outras unidades da Federação.
No Rio, estudantes da UFRJ, UFF, institutos federais e outras instituições participaram de manifestação favorável ao presidente.
Em São Paulo, alunos de diferentes instituições também se mobilizaram. USP e Unicamp tiveram assembleias ou reuniões anunciadas dentro da movimentação nacional.
A própria UNE assumiu publicamente o objetivo eleitoral da campanha. Sua presidente, Bianca Borges, declarou que os estudantes seriam decisivos para reeleger Lula.
A atuação política da UNE não é novidade histórica. O movimento estudantil brasileiro teve participação relevante em diferentes momentos da vida nacional, inclusive no enfrentamento à ditadura militar e na campanha pelas Diretas Já.
A pergunta contemporânea é diferente: uma entidade representativa dos estudantes deve comportar-se como organização eleitoral de uma candidatura específica — e, fazendo isso, consegue representar estudantes que pensam politicamente de maneira diferente?
A universidade deve proteger inclusive quem pensa contra a maioria
Talvez o melhor teste para medir a liberdade de uma universidade não seja verificar se a maioria pode falar.
Maiorias quase sempre conseguem.
O verdadeiro teste é saber se a minoria consegue entrar numa sala, apresentar seus argumentos e sair dela sem ser intimidada.
Nesse ponto, episódios registrados nos últimos anos acenderam um sinal de alerta.
Em setembro de 2025, uma palestra sobre o Supremo Tribunal Federal prevista para ocorrer na UFPR, com a participação do advogado Jeffrey Chiquini e do vereador Guilherme Kilter (Novo), terminou cancelada depois de confrontos e protestos.
As versões sobre o episódio divergem em pontos importantes. Organizadores afirmaram que participantes foram hostilizados e agredidos; a UFPR sustentou que os convidados insistiram em entrar mesmo depois do cancelamento e apontou reação desproporcional das forças de segurança.
Independentemente dessa disputa factual, uma constatação permaneceu: o debate não aconteceu.
E quando a resposta a uma ideia considerada errada deixa de ser outra ideia e passa a ser impedir que ela seja apresentada, a universidade perde exatamente aquilo que deveria protegê-la da intolerância: o pluralismo.
USP também registrou tentativa de interdição política
O problema reapareceu na campanha eleitoral deste ano.
Em agosto, estudantes da Faculdade de Direito da USP organizaram protestos contra um ato do então candidato à Presidência Renan Santos, do Missão.
Participaram da mobilização representantes da União da Juventude Socialista, da União Estadual dos Estudantes e de entidades sindicais.
Durante o encontro, além das críticas a Renan e ao então governador Tarcísio de Freitas, houve pedidos explícitos de votos para Lula.
Uma das dirigentes estudantis declarou que não permitiria que a chamada “extrema direita” ocupasse aquele espaço.
É justamente nesse ponto que a discussão ultrapassa preferências partidárias.
Quem decide quais correntes políticas podem “ocupar” uma universidade pública?
A direção?
O centro acadêmico?
O sindicato?
O grupo numericamente majoritário?
Ou a Constituição?
Mais de mil professores passaram a denunciar o problema
A preocupação com a intolerância acadêmica já ultrapassou grupos conservadores.
Em 2026, professores e pesquisadores de diferentes posições políticas lançaram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.
O documento ganhou mais de mil assinaturas e descreveu um ambiente no qual haveria crescimento da conformidade ideológica, da autocensura e da intolerância ao dissenso.
Entre os problemas relatados estão cancelamento e interrupção de eventos, boicote de aulas, intimidação de participantes, campanhas públicas contra professores e episódios que chegaram à necessidade de escolta.
Uma pesquisa acadêmica desenvolvida em parceria por pesquisadores ligados à UFF, USP e UFPR passou a levantar episódios de restrição à liberdade acadêmica. Mais de uma centena de casos ocorridos entre 2014 e 2026 já havia sido analisada neste ano.
O ponto importante é que a crítica não nasceu exclusivamente da direita.
Professores progressistas, liberais, conservadores e pesquisadores sem alinhamento partidário comum passaram a defender aquilo que deveria ser elementar dentro de qualquer universidade: o direito de discordar.
A percepção da sociedade também preocupa
Pesquisa da More in Common em parceria com a Quaest, realizada em 2025 e citada no manifesto pelo pluralismo acadêmico, revelou um dado particularmente desconfortável para as instituições públicas.
Segundo o levantamento, 54% dos entrevistados afirmaram acreditar que universidades públicas promovem mais ideologia do que ensino de qualidade. Outros 59% disseram confiar pouco ou nada nessas instituições.
A percepção popular não significa que a acusação seja automaticamente verdadeira.
As universidades públicas brasileiras continuam responsáveis por parcela importante da produção científica nacional, mantêm centros de excelência, hospitais universitários, laboratórios, programas de pesquisa e formação profissional reconhecidos internacionalmente.
Mas seria igualmente equivocado simplesmente ignorar o desgaste.
Quando mais da metade dos entrevistados percebe excesso de ideologização, existe pelo menos um problema de confiança pública que precisa ser enfrentado.
Militância não está apenas de um lado
Uma análise séria precisa registrar também que episódios de intolerância e provocação política partiram de grupos identificados com a direita.
Em setembro deste ano, por exemplo, a Universidade de Brasília informou que um candidato a deputado federal ligado à direita foi preso em flagrante pela Polícia Federal depois de depredação de pinturas em um muro do Instituto de Artes. Segundo a instituição, apoiadores envolvidos no episódio também teriam agredido estudantes.
Na UFRGS, houve igualmente conflito envolvendo militantes de direita acusados de arrancar cartazes e tentar pintar paredes de centros acadêmicos.
Esses episódios precisam ser condenados pelo mesmo princípio.
Se impedir uma palestra conservadora é intolerância, agredir estudantes de esquerda também é.
Se utilizar intimidação para silenciar a direita é incompatível com a universidade, utilizar intimidação contra a esquerda também é.
Pluralismo não significa substituir uma hegemonia pela outra.
Significa impedir que qualquer grupo tenha o poder de silenciar os demais.
Eleições expõem um desequilíbrio histórico
Isso não elimina, contudo, uma característica evidente da atual mobilização estudantil organizada.
Nas eleições de 2026, as principais entidades nacionais do movimento universitário não estão adotando neutralidade entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Elas escolheram um lado.
A UNE lançou campanha favorável à reeleição do presidente, convocou atos e pretende manter estudantes mobilizados até a véspera da votação.
Essa opção é legítima enquanto posição política da entidade.
Mas precisa ser apresentada como aquilo que efetivamente é: uma escolha político-eleitoral, e não uma manifestação universal da juventude ou das universidades brasileiras.
Há estudantes conservadores, liberais e de direita dentro das mesmas instituições.
Há professores que votarão em Flávio Bolsonaro.
Há servidores que rejeitam Lula.
Todos também integram a universidade.
Liberdade política é protegida pelo STF
Existe ainda uma distinção jurídica fundamental.
Em julgamento da ADPF 548, o Supremo Tribunal Federal decidiu que manifestações, debates e expressão política dentro das universidades são protegidos constitucionalmente.
A decisão surgiu após operações realizadas durante as eleições de 2018 para retirar faixas e interromper atividades consideradas propaganda eleitoral.
O STF considerou inconstitucionais medidas que impeçam a livre manifestação de ideias dentro do ambiente universitário.
Portanto, não é correto afirmar que estudantes ou professores estão proibidos de defender candidatos dentro das universidades.
Não estão.
As normas eleitorais atuais também admitem manifestações espontâneas no ambiente universitário, desde que não haja financiamento de candidaturas ou partidos e que as atividades regulares não sejam comprometidas.
Por outro lado, orientação jurídica destinada aos próprios docentes das universidades federais deixa clara uma fronteira: recursos, canais institucionais, equipamentos públicos e autoridade funcional não podem ser utilizados em benefício eleitoral.
Também não se admite pressão sobre estudantes, colegas ou subordinados em razão de suas posições políticas.
A distinção é essencial:
liberdade política individual é uma garantia; aparelhamento institucional é outra coisa.
O problema começa quando discordar tem custo
Uma universidade pode ser majoritariamente progressista sem deixar de ser democrática.
Assim como poderia ser majoritariamente conservadora.
A composição ideológica de professores e alunos não é, por si, um problema.
O problema surge quando determinadas posições passam a produzir consequências sociais ou acadêmicas para quem discorda.
Quando um estudante evita expressar sua opinião por medo.
Quando um professor escolhe determinadas palavras não por rigor científico, mas por receio de campanhas contra ele.
Quando uma palestra precisa de segurança para acontecer.
Quando um convidado é impedido de falar.
Quando adversários deixam de ser considerados interlocutores e passam automaticamente a ser classificados como inimigos, fascistas, comunistas, racistas ou qualquer outro rótulo utilizado não para descrevê-los, mas para retirar deles o direito de participar do debate.
Nesse momento, o ambiente acadêmico deixa de produzir confronto intelectual e passa a reproduzir policiamento ideológico.
A militância agressiva destrói aquilo que afirma defender
Existe uma contradição especialmente grave quando movimentos que afirmam defender democracia recorrem à intimidação para impedir manifestações das quais discordam.
Democracia não é o direito de falar apenas quando se está do lado majoritário.
É principalmente a obrigação de conviver com o direito de expressão de quem pensa exatamente o contrário.
Gritos, cercos, ameaças, empurrões, invasões, cancelamentos forçados e constrangimentos não se transformam em práticas democráticas apenas porque quem os pratica acredita possuir superioridade moral sobre o adversário.
O mesmo vale para provocações, depredações e agressões promovidas por militantes de direita.
Violência política não muda de natureza conforme a bandeira de quem a pratica.
Universidade não pode ter dono
A discussão, portanto, não deveria ser sobre retirar política das universidades.
Isso seria impossível — e indesejável.
Universidades precisam discutir capitalismo e socialismo, liberalismo e marxismo, conservadorismo e progressismo, aborto, religião, segurança pública, identidade de gênero, desigualdade, racismo, política econômica, Supremo Tribunal Federal, governos de esquerda e governos de direita.
Precisam discutir Lula.
Precisam discutir Flávio Bolsonaro.
E precisam permitir críticas duríssimas aos dois.
O que não podem fazer é estabelecer previamente quem tem legitimidade para falar.
A universidade financiada pelo contribuinte não pode possuir candidato oficial, ideologia oficial ou partido informalmente proprietário de seus corredores.
Seu compromisso institucional deve ser outro: com conhecimento, evidências, pesquisa, liberdade acadêmica e pluralidade.
O desafio não é despolitizar — é devolver pluralidade
O Brasil erra quando reduz esse debate a dois extremos.
De um lado, existe quem gostaria de tratar qualquer discussão política na universidade como “doutrinação”.
Do outro, há quem considere toda denúncia de intolerância ideológica simplesmente um “ataque à universidade pública”.
Nenhuma das duas posições resolve o problema.
A universidade não precisa ser despolitizada.
Precisa ser plural.
Um estudante de esquerda deve conseguir defender Lula diante de colegas bolsonaristas.
Um estudante conservador deve conseguir defender Flávio Bolsonaro diante de uma turma majoritariamente petista.
Um professor marxista precisa ter liberdade para ensinar Marx.
Um professor liberal precisa poder apresentar Hayek.
Um pesquisador conservador precisa ter espaço para contestar consensos progressistas.
E nenhum deles deveria ser ameaçado, constrangido ou academicamente prejudicado por isso.
Esse é o verdadeiro teste.
Porque quando uma universidade só garante liberdade para as ideias consideradas moralmente aceitáveis pelo grupo dominante, aquilo já não é pluralismo.
É hegemonia.
E quando o espaço que deveria ensinar jovens a confrontar argumentos passa a ensiná-los a silenciar adversários, o prejuízo ultrapassa os muros do campus.
Chega à democracia.
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