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Flávio Bolsonaro deixa o Brasil rumo aos EUA e aliado de Trump anuncia “Operação Alba”

Senador descumpriu ordem do STF, teve os passaportes cancelados e viajou com a mulher e as duas filhas, segundo aliados e autoridades americanas. Governo dos EUA diz que concederá vistos à família; Itamaraty, Polícia Federal e Casa Branca não confirmam a existência da operação.

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BRASÍLIA (DF) – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil na madrugada desta terça-feira (27) rumo aos Estados Unidos, acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas, segundo aliados do parlamentar e uma fonte do governo americano ouvidas pela agência Reuters. A saída ocorreu menos de 48 horas depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno e horas após ele descumprir ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que o proibia de deixar o país e determinava a entrega dos passaportes à Polícia Federal.

A chegada ao território americano foi anunciada pelo advogado e empresário mexicano Simón Levy, que se apresenta como interlocutor do movimento político de Donald Trump. Em publicações no X ao longo da tarde, ele afirmou que o senador chegou “em segurança” e atribuiu a articulação ao secretário de Estado americano, Marco Rubio. Pouco depois, deu ao episódio o nome de “Operação Alba”.

Nenhum órgão oficial confirmou a existência da operação. O Departamento de Estado informou que concederá vistos a Flávio e à família e permitirá a entrada deles no país, mas não disse se o senador já estava em solo americano. Itamaraty, Polícia Federal e Casa Branca não confirmaram a chegada até a publicação desta reportagem.

O prazo descumprido

A ordem de Moraes foi assinada na noite de domingo (25), poucos minutos depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar a vitória de Lula. A representação da Polícia Federal, de 16 páginas, foi assinada às 21h16, sete minutos após a confirmação do resultado, e citava o risco de fuga, a presença do advogado Willer Tomaz nos Estados Unidos sem previsão de retorno e a declaração pública do ex-deputado Eduardo Bolsonaro de que o irmão deveria deixar o país caso perdesse a eleição.

O ministro atendeu ao pedido na mesma noite, sem consulta prévia à Procuradoria-Geral da República. A decisão, em segredo de justiça, foi tornada pública pelo próprio senador em suas redes sociais. O prazo para a entrega dos passaportes comum e diplomático brasileiros, além do italiano, expirou às 11h desta terça-feira. Flávio não compareceu. A Polícia Federal cancelou os documentos e informou o ministro sobre o descumprimento.

Na véspera, em vídeo publicado após receber a intimação, o senador havia negado a intenção de deixar o Brasil e afirmado que permaneceria no país para organizar a oposição ao governo de Lula.

A versão de Levy e o que seria a “Operação Alba”

Simón Levy é advogado e empresário mexicano, ocupou cargos públicos no México e, nos últimos anos, passou a se apresentar como defensor de Trump e de Rubio. Na primeira publicação da tarde, escreveu em inglês que podia confirmar que Flávio não estava mais no Brasil e seguia para os Estados Unidos, e que “uma operação de proteção dos EUA está em andamento para garantir sua segurança”.

Em seguida, afirmou: “Como relatei há algumas horas, Flávio Bolsonaro chegou em segurança aos Estados Unidos. O cérebro por trás dessa operação é o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Dos Estados Unidos, livre e seguro, Flávio liderará a oposição contra Lula.”

O termo “Operação Alba” apareceu em outra postagem, cerca de meia hora depois, para designar o que Levy descreve como uma estratégia mais ampla de Washington para a América Latina. Em texto publicado em seu próprio site, datado de 26 de outubro e intitulado “Operación Alba: Flávio llega a Estados Unidos”, ele sustenta que a chegada do senador faz parte de uma ofensiva americana que passaria por Venezuela, Cuba e México, e que o Brasil seria pressionado “por onde mais dói: o dinheiro”.

No mesmo texto, Levy separa o que classifica como confirmado: a informação de um funcionário americano à Reuters de que Flávio rumava aos EUA, o relato de aliados à CNN Brasil de que ele saiu com a esposa e as duas filhas, e o descumprimento do prazo das 11h, seguido do cancelamento dos passaportes pela PF. O restante, incluindo o papel de Rubio e o próprio nome da operação, não tem lastro documental público.

A reportagem procurou a Secretaria de Estado americana, que não se manifestou sobre as declarações. A proximidade de Levy com o círculo político de Trump não comprova, por si só, participação formal do governo americano na saída ou na recepção do senador.

A rota, o jatinho e a negativa argentina

A primeira informação sobre a saída foi publicada na madrugada desta terça pelo site argentino Infobae, que não revelou a fonte. Segundo a versão inicial, Flávio teria cruzado a fronteira por terra, na região de Foz do Iguaçu, e embarcaria em Puerto Iguazú, na província de Misiones, em um jato Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, da empresa Baires Fly S.A., com destino à Flórida.

A aeronave chegou a Puerto Iguazú na noite de segunda-feira, procedente de Buenos Aires. O voo tinha decolagem prevista para as 2h e foi cancelado porque um dos quatro passageiros não chegou a tempo, de acordo com fontes da Polícia de Segurança Aeroportuária argentina citadas pela imprensa local. Aliados do senador passaram a sustentar, depois, que o jatinho teria servido de despiste.

O governo de Javier Milei negou o ingresso do senador no país. Em nota, a Direção Nacional de Migrações afirmou não registrar “nenhuma entrada de Flávio Bolsonaro na República Argentina”, e o porta-voz da Casa Rosada, Fabián Fernández, disse que “não há pedido de asilo”. As autoridades argentinas inspecionaram a aeronave e a tripulação e informaram não haver plano de voo que listasse a família do senador.

A Polícia Federal não identificou passagem do parlamentar por nenhum posto regular de controle migratório e não descarta saída clandestina. Em Brasília, a corporação confirmou a saída do país ao jornal Gazeta do Povo na tarde desta terça, depois de não conseguir cumprir a ordem de entrega dos documentos.

O que pesa contra o senador

A decisão de Moraes integra inquérito em que Flávio e o advogado Willer Tomaz, amigo da família, são investigados por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas e plataformas de pagamento. O senador entrou na apuração a partir da análise de dados do celular de Tomaz. Na sexta-feira (23), o ministro determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores do advogado, limite que não corresponde a valores já localizados, e proibiu Flávio de manter contato com ele.

O senador responde a um segundo inquérito no STF, relatado pelo ministro André Mendonça, que apura repasses de R$ 61 milhões do Banco Master ao filme “Dark Horse”. Ambos os investigados negam irregularidades.

Reação no Congresso e no STF

Deputados do PT reagiram ainda na tarde desta terça. Lindbergh Farias (PT-RJ), Rogério Correia (PT-MG) e a deputada eleita Ana Elisa Santos (PT-MG) protocolaram pedido de prisão preventiva de Flávio junto a Moraes e solicitaram que, caso o mandado seja expedido, o nome do senador seja incluído no alerta vermelho da Interpol, a chamada Difusão Vermelha. O documento pede ainda comunicação às autoridades migratórias da Argentina, dos Estados Unidos e dos demais países do Mercosul.

A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou que pedirá o bloqueio das contas bancárias do senador. A também deputada Sâmia Bomfim e outros parlamentares do PSOL enviaram ofício ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), pedindo apuração de abandono de função, perda do mandato e suspensão da remuneração. Até o fim da tarde, o STF não havia decidido sobre o pedido de prisão e a Mesa do Senado não havia se manifestado.

Entre aliados, a tese circulou em duas direções. Parlamentares próximos defenderam, sob a formulação de “exílio”, que a saída evita que o senador seja usado como “moeda de troca” em eventuais processos de impeachment de ministros do STF. O senador Rogério Marinho (PL-RN) disse em coletiva não saber o paradeiro do colega e relatou que, no último contato, Flávio afirmou que “daria um tempo” e não voltou a responder. O deputado Maurício Marcon confirmou que ele deixou o país. O ex-candidato à Presidência Renan Santos criticou a decisão e afirmou que a atitude “não é a postura de um líder”.

Asilo, extradição e os limites jurídicos

Aliados indicaram que Flávio pretende formalizar pedido de asilo político aos Estados Unidos e que deve se reunir com o irmão, Eduardo Bolsonaro, que vive no país, nesta quarta-feira (28). A avaliação de pessoas próximas ao senador, confirmada à CNN Brasil, é que o governo Trump endossou a saída e sinalizou a concessão do benefício, que se estenderia à mulher e às filhas.

O pedido de asilo é analisado pelos órgãos de imigração americanos e corre em processo separado de qualquer pedido de extradição. Um eventual pedido brasileiro depende de ordem de prisão, que ainda não existe, e do tratado de extradição entre Brasil e Estados Unidos, assinado em 1961 e em vigor desde 1965, cuja lista de crimes não inclui lavagem de dinheiro nem evasão de divisas, conforme levantamento do Times Brasil/CNBC. A Constituição também limita a prisão de parlamentares. Como precedente, o pedido de extradição do ex-deputado Alexandre Ramagem foi entregue aos americanos em 30 de dezembro de 2025 e segue sem prazo para análise.

A embaixada do Brasil em Roma informou que Flávio tem cidadania e passaporte italianos, o que abre uma terceira via de deslocamento na Europa, além dos documentos brasileiros cancelados.

O futuro político em suspenso

Flávio ainda não reconheceu oficialmente a derrota. Na noite de domingo, disse que contestaria o resultado e anunciou a intenção de pedir a cassação da chapa de Lula no TSE. Na segunda-feira, o PL reconheceu formalmente a vitória do presidente reeleito. Lula obteve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador, diferença de 4.430.191 votos. Flávio recebeu 59,8 milhões de votos, mais do que os 58,2 milhões obtidos pelo pai, Jair Bolsonaro, em 2022.

O mandato de senador termina em 31 de janeiro de 2027, e Carlos Jordy (PL-RJ) assume a cadeira. Será a primeira vez em 24 anos que Flávio ficará sem cargo público e sem foro privilegiado por prerrogativa de função, embora as investigações já abertas no STF permaneçam no tribunal. O projeto de liderar a oposição a Lula a partir do Congresso, defendido por aliados até domingo, ficou suspenso com a viagem.

O presidente Donald Trump voltou a questionar, nesta terça-feira, sem apresentar provas, o resultado da eleição brasileira, no mesmo dia em que aliados do senador passaram a afirmar que ele está em território americano.


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