Compulsão por bets invade empresas e provoca faltas, dívidas e queda de produtividade
Pedidos frequentes de adiantamento salarial, desatenção, crises emocionais e ausências após o pagamento acendem o alerta nos setores de recursos humanos

O avanço das apostas online no Brasil deixou de produzir consequências apenas dentro das casas dos jogadores e passou a afetar diretamente o ambiente de trabalho. Empresas relatam funcionários endividados, pedidos frequentes de antecipação salarial, faltas injustificadas, crises familiares, perda de concentração e redução da produtividade associadas ao uso problemático das chamadas bets.
O problema atinge desde pequenos estabelecimentos, que nem sempre possuem equipes estruturadas de recursos humanos, até grandes companhias. Diante do aumento dos relatos, entidades empresariais, sindicatos e departamentos de gestão de pessoas começaram a desenvolver campanhas educativas e programas de acolhimento.
Dados sobre afastamentos previdenciários reforçam o alerta. Em 2025, o número de trabalhadores afastados por problemas relacionados à perda de controle sobre os jogos cresceu 59,8% em comparação com o ano anterior, passando de 425 para 679 registros.
Embora o total ainda seja pequeno diante dos aproximadamente 4,5 milhões de afastamentos concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social no mesmo período, o crescimento revela que o transtorno do jogo começa a aparecer formalmente entre as causas de adoecimento com impacto na vida profissional.
Problema começa a aparecer nos departamentos de recursos humanos
Os primeiros sinais costumam chegar aos setores de recursos humanos por meio de pedidos de ajuda, relatos de dívidas, conflitos familiares e mudanças repentinas no comportamento do trabalhador.
A Associação Brasileira de Recursos Humanos aponta que as apostas compulsivas podem afetar a saúde mental dos funcionários, reduzir a produtividade e provocar consequências econômicas para as empresas.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes também passou a receber relatos de trabalhadores que solicitam adiantamentos salariais repetidamente, apresentam dificuldades de concentração ou se ausentam durante o expediente para apostar pelo celular.
Em alguns casos, o funcionário falta ao trabalho logo após o depósito do salário. Há relatos de pessoas que perdem parte significativa da remuneração em poucas horas e, depois, recorrem a empréstimos, familiares ou antecipações para pagar despesas básicas.
O resultado pode ser uma sequência de problemas: endividamento, ansiedade, irritabilidade, conflitos familiares, redução do desempenho e novas apostas feitas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
Aposta permanece no bolso do trabalhador
Diferentemente de formas tradicionais de jogos de azar, as plataformas digitais permanecem disponíveis durante praticamente todo o dia. Basta um telefone celular e acesso à internet para apostar dentro de casa, no transporte público, no intervalo do trabalho ou durante o expediente.
Notificações, bônus, apostas em tempo real e promessas de ganhos rápidos contribuem para manter o usuário conectado. A facilidade de acesso dificulta a identificação do problema, porque a prática pode ocorrer discretamente, sem que colegas, familiares ou gestores percebam imediatamente.
No ambiente profissional, a compulsão pode aparecer por meio de consultas repetidas ao celular, saídas frequentes do posto de trabalho, irritação após perdas, dificuldade de concentração, queda no rendimento e preocupação constante com resultados esportivos ou jogos virtuais.
Em atividades que exigem atenção permanente, operação de máquinas, condução de veículos ou cumprimento rigoroso de procedimentos de segurança, a perda de concentração também pode elevar o risco de erros e acidentes.
Transtorno do jogo é reconhecido como problema de saúde
O transtorno do jogo, também conhecido popularmente como ludopatia, é caracterizado pela dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de consequências financeiras, profissionais, familiares e emocionais.
A condição é reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como um transtorno de comportamento aditivo.
Segundo estimativa divulgada pelo Ministério da Saúde com base em informações da Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 1,2% da população adulta mundial enfrenta o transtorno do jogo.
O problema pode aparecer associado a ansiedade, depressão, uso abusivo de álcool ou outras drogas, alterações no sono, sentimento de culpa e isolamento social. Em situações mais graves, o comprometimento emocional pode provocar crises intensas e aumentar o risco de comportamentos autodestrutivos.
O adoecimento não deve ser confundido com uma perda ocasional ou com a prática recreativa e controlada. O sinal de alerta surge quando a pessoa perde a capacidade de estabelecer limites e continua apostando mesmo depois de acumular prejuízos.
Empresas começam a criar ações preventivas
Companhias como Ypê, Gerdau e Whirlpool, responsável pelas marcas Brastemp e Consul, passaram a desenvolver iniciativas de conscientização sobre os riscos das apostas.
As ações incluem palestras, oficinas de educação financeira, orientação sobre gatilhos comportamentais e divulgação de canais de apoio psicológico. Algumas empresas também oferecem programas internos de acolhimento aos funcionários que reconhecem a perda de controle.
A prevenção é considerada especialmente importante porque muitos trabalhadores escondem o problema por vergonha, medo de julgamento ou receio de perder o emprego.
Pequenas empresas, entretanto, enfrentam maior dificuldade para estruturar programas permanentes de saúde mental. Por isso, entidades representativas começaram a preparar materiais de orientação para ajudar gestores a identificar sinais de risco e encaminhar os trabalhadores para atendimento especializado.
A recomendação é que as empresas evitem exposição, humilhação ou acusações precipitadas. O acompanhamento deve preservar a confidencialidade do trabalhador e ser conduzido, sempre que possível, por profissionais das áreas de saúde ocupacional, assistência social ou recursos humanos.
Demissão exige cautela
O crescimento dos casos também abre uma discussão trabalhista. A prática constante de jogos de azar aparece entre as hipóteses previstas na legislação para aplicação de justa causa, mas a situação pode se tornar mais complexa quando há diagnóstico médico de transtorno do jogo.
Decisões judiciais envolvendo trabalhadores com comportamento compulsivo mostram que cada situação precisa ser analisada individualmente. A existência de uma doença, a ciência da empresa sobre o quadro clínico, a relação entre o transtorno e as faltas cometidas e as medidas adotadas antes da demissão podem influenciar uma eventual disputa judicial.
Entidades da área de recursos humanos recomendam que, diante de indícios de adoecimento, o empregador priorize o encaminhamento para avaliação profissional. Quando houver incapacidade temporária para o trabalho, o funcionário poderá precisar de tratamento e afastamento previdenciário.
A orientação não significa ignorar condutas que coloquem pessoas, patrimônio ou operações em risco. Significa separar atos disciplinares deliberados de comportamentos que podem estar relacionados a uma condição de saúde que exige diagnóstico e acompanhamento.
Sinais que merecem atenção
Entre os comportamentos que podem indicar uma relação problemática com as apostas estão:
- gastar mais dinheiro ou permanecer jogando por mais tempo do que o planejado;
- tentar recuperar perdas realizando novas apostas;
- comprometer valores destinados à alimentação, moradia ou contas básicas;
- solicitar empréstimos ou antecipações salariais com frequência;
- mentir para familiares e amigos sobre os valores apostados;
- demonstrar irritação ou ansiedade quando não consegue jogar;
- apresentar alterações no sono, no humor e na rotina;
- perder a concentração no trabalho;
- faltar ou abandonar compromissos para apostar;
- continuar jogando mesmo depois de prejuízos financeiros e familiares.
A presença isolada de um desses comportamentos não confirma um diagnóstico. A avaliação deve ser realizada por um profissional de saúde capacitado.
SUS oferece atendimento presencial e remoto
Pessoas que enfrentam problemas com jogos e apostas podem procurar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde.
O acolhimento presencial pode começar em uma Unidade Básica de Saúde. Quando houver necessidade de acompanhamento especializado, o paciente poderá ser encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial.
O Ministério da Saúde também disponibiliza teleatendimento sigiloso para apostadores e familiares. O acesso ocorre pelo aplicativo ou pela versão digital do Meu SUS Digital.
Na área de serviços, o usuário deve selecionar a opção relacionada a problemas com jogos de apostas e responder a um autoteste. Quando a ferramenta identifica risco moderado ou elevado, o encaminhamento para o atendimento remoto é realizado automaticamente.
O autoteste serve como instrumento de orientação e reflexão, mas não substitui uma avaliação clínica.
Ferramenta permite bloquear acesso às bets
Outra alternativa é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, mantida pelo Ministério da Fazenda. O sistema permite que o próprio usuário solicite o bloqueio simultâneo de suas contas em todas as empresas de apostas autorizadas pelo governo federal.
A ferramenta também impede a abertura de novas contas utilizando o mesmo CPF e interrompe o envio de publicidade direcionada pelas plataformas regulamentadas.
A autoexclusão pode ser solicitada por prazo determinado ou indeterminado. A medida não substitui o tratamento, mas pode reduzir o acesso imediato às apostas e ajudar a interromper o ciclo de perdas.
Desafio ultrapassa os limites das empresas
Os efeitos das bets no trabalho demonstram que o problema não pode ser tratado exclusivamente como uma decisão financeira individual. Quando a compulsão compromete o salário, a saúde mental, a família e a capacidade profissional, as consequências atingem também empresas, serviços públicos e toda a sociedade.
O desafio para os empregadores será equilibrar segurança, disciplina, prevenção e acolhimento. Para os trabalhadores, reconhecer a perda de controle e procurar ajuda pode ser o primeiro passo para evitar o aprofundamento das dívidas e do adoecimento.
O Portal Conexão Geral continuará acompanhando os impactos das apostas online sobre a saúde, a economia e a vida dos brasileiros. Continue conosco para receber informações atualizadas, contextualizadas e fundamentadas nos fatos.
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