Irmãos Batista fecham compra da Avibras e entram no estratégico setor de defesa brasileiro
DEFESA E NEGÓCIOS | Joesley e Wesley Batista, empresários que estiveram no centro de investigações e delações no contexto da Lava Jato, acertaram a aquisição da Avibras por meio da Globe Investimentos. Negócio coloca a família Batista em um dos setores mais sensíveis da economia nacional e ainda depende de análise regulatória.

BRASÍLIA — Os empresários Joesley e Wesley Batista acertaram a compra da Avibras, uma das empresas mais estratégicas da indústria de defesa brasileira, responsável por sistemas de artilharia, mísseis, foguetes e tecnologias militares de alto valor agregado.
A operação será realizada por meio da Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais da família Batista, e não diretamente pela J&F. A aquisição envolve 100% da nova estrutura empresarial criada para assumir os ativos estratégicos da companhia e representa a entrada dos irmãos no setor de defesa e aeroespacial.
A negociação ocorre em um momento delicado para a Avibras, que atravessou anos de crise financeira, recuperação judicial, paralisação de atividades e conflitos trabalhistas. Ao mesmo tempo, a empresa mantém tecnologia considerada estratégica para a soberania nacional, especialmente por causa do sistema de artilharia ASTROS, reconhecido internacionalmente.
Compra coloca os Batista em um setor estratégico para o país
A Avibras não é uma empresa comum.
Fundada em 1961 por engenheiros ligados ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica, a companhia construiu ao longo das décadas uma posição relevante na indústria de defesa brasileira.
Seu principal produto é o sistema ASTROS, plataforma de artilharia de foguetes e mísseis exportada para diferentes países e utilizada pelas Forças Armadas brasileiras.
Além disso, a empresa domina tecnologias consideradas sensíveis, incluindo propulsão, integração de sistemas, foguetes, mísseis e veículos especiais.
Por essa razão, a venda da Avibras possui uma dimensão que ultrapassa uma operação empresarial tradicional.
A questão envolve também política industrial, defesa nacional, soberania tecnológica e preservação de conhecimento estratégico desenvolvido no Brasil.
Empresa enfrentava uma longa crise financeira
A Avibras entrou em recuperação judicial em 2022, depois de enfrentar graves dificuldades financeiras.
A crise resultou em paralisação de atividades, atrasos de salários e sucessivas greves.
Durante anos, a empresa buscou investidores e chegou a negociar com grupos estrangeiros, mas as tentativas não foram concluídas.
A retomada começou a ganhar força mais recentemente, com a entrada de recursos privados e reorganização das operações.
Segundo informações divulgadas no mercado, cerca de R$ 300 milhões foram mobilizados para permitir a retomada da empresa, com participação de investidores brasileiros, entre eles Joesley Batista.
A aquisição agora formaliza uma mudança muito mais profunda na estrutura de controle.
Negócio ainda passa por análise do Cade
A operação foi comunicada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade.
Os compradores pediram análise pelo procedimento sumário, argumentando que a aquisição representa a entrada dos Batista num mercado no qual eles ainda não possuem participação relevante e, portanto, não criaria concentração concorrencial significativa.
A aprovação do Cade é uma das etapas necessárias para a conclusão definitiva do negócio.
A análise regulatória ganha importância adicional porque a Avibras atua em um setor estratégico e mantém contratos, tecnologia e relacionamento com as Forças Armadas brasileiras.
Joesley e Wesley estiveram no centro de grandes investigações
A entrada dos irmãos Batista no setor de defesa inevitavelmente resgata o histórico político e judicial dos empresários.
Joesley e Wesley estiveram no centro de uma das maiores crises políticas brasileiras da última década depois da colaboração premiada da JBS, firmada em 2017.
Joesley gravou uma conversa com o então presidente Michel Temer, e os relatos apresentados pelos executivos provocaram investigações envolvendo políticos de diferentes partidos.
Os irmãos também foram investigados por operações financeiras realizadas antes da divulgação pública da delação.
Na chamada Operação Tendão de Aquiles, Joesley e Wesley foram acusados de uso de informação privilegiada e manipulação de mercado em negociações envolvendo ações da JBS e contratos de dólar.
Os dois chegaram a ser presos preventivamente.
Posteriormente, contudo, a Comissão de Valores Mobiliários formou maioria e os absolveu administrativamente das acusações de uso de informação privilegiada naquele processo.
O histórico exige precisão: os Batista foram investigados em diferentes operações e tiveram fatos relacionados ao contexto da Lava Jato, mas não é correto tratar todas as acusações daquela época como condenações definitivas.
Delação da JBS teve impacto nacional
A colaboração dos executivos da J&F alcançou o núcleo central da política brasileira.
As informações prestadas pelos empresários deram origem ou contribuíram para investigações envolvendo autoridades com foro privilegiado e chegaram ao Supremo Tribunal Federal.
Documentos da própria Procuradoria-Geral da República registraram que Joesley se dispôs a apresentar informações e provas relacionadas a crimes investigados no contexto da Lava Jato e de outras apurações.
É justamente por causa desse passado que a aquisição de uma empresa estratégica de defesa desperta atenção política além do aspecto econômico.
Governo acompanha a recuperação da Avibras
A preservação da Avibras vem sendo acompanhada de perto pelo Governo Federal.
A companhia possui valor estratégico para as Forças Armadas e para a manutenção de uma base industrial de defesa nacional.
Nos últimos meses, integrantes do governo defenderam publicamente a retomada das atividades e a manutenção do controle brasileiro sobre a empresa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também visitou a unidade da companhia em Jacareí, em São Paulo, e reiterou a importância de fortalecer a indústria nacional de defesa.
A entrada de investidores brasileiros atende justamente a uma preocupação presente durante as negociações anteriores: evitar que tecnologias sensíveis desenvolvidas no país passem integralmente para controle estrangeiro.
Compra também envolve um grande passivo trabalhista
A recuperação da empresa não se resume à retomada da produção.
A Avibras acumulou uma dívida trabalhista significativa durante os anos de crise.
Um acordo recente estabeleceu cerca de R$ 230 milhões para pagamento de passivos com trabalhadores.
A solução dessas pendências será fundamental para a estabilização da empresa e para a reconstrução da relação com funcionários que enfrentaram atrasos salariais e paralisações prolongadas.
Avibras pode voltar a disputar contratos internacionais
A expectativa dos novos investidores é recuperar a capacidade produtiva e reposicionar a companhia no mercado brasileiro e internacional.
A empresa já possui histórico de exportações para países do Oriente Médio e outros mercados.
O sistema ASTROS continua sendo uma de suas principais vitrines.
Além da defesa, a Avibras também possui conhecimento tecnológico que pode ser aplicado em projetos espaciais e civis.
Se a recuperação avançar, a empresa poderá voltar a disputar grandes contratos internacionais, especialmente num cenário mundial de aumento dos gastos militares.
Entrada dos Batista amplia diversificação do grupo familiar
A aquisição também mostra a continuidade do processo de diversificação patrimonial dos irmãos Batista.
A família construiu sua fortuna principalmente a partir da JBS, hoje uma das maiores empresas de alimentos do mundo.
Nas últimas décadas, porém, os investimentos passaram a alcançar setores como energia, mineração, serviços financeiros e infraestrutura.
A Avibras representa uma mudança particularmente significativa porque introduz os empresários num setor diretamente relacionado à segurança nacional.
A própria Globe informou ao Cade que a operação representa sua entrada nos mercados de defesa e aeroespacial.
Uma empresa privada com importância de Estado
A principal particularidade da Avibras está justamente nessa combinação.
Ela é uma companhia privada, mas detém conhecimento que possui importância estratégica para o Estado brasileiro.
É por isso que seu futuro interessa simultaneamente a investidores, trabalhadores, militares e governo.
A entrada de capital privado pode oferecer condições para recuperar produção, pagar passivos e desenvolver novos projetos.
Ao mesmo tempo, a presença de um novo controlador numa empresa de defesa exige acompanhamento regulatório e institucional compatível com a sensibilidade do setor.
O peso do passado e a dimensão do novo negócio
A compra da Avibras pelos irmãos Batista reúne dois elementos capazes de produzir forte repercussão.
De um lado, a recuperação de uma das empresas mais importantes da indústria de defesa brasileira.
De outro, a entrada de empresários cujo histórico recente está associado a delações, investigações, prisões preventivas e uma das maiores crises políticas do país desde a redemocratização.
Esses fatos não tornam a aquisição irregular.
Também não devem ser apagados da contextualização.
A operação precisa ser analisada pelo que é hoje: uma aquisição empresarial relevante, submetida aos órgãos competentes e com impacto potencial sobre emprego, tecnologia, defesa e soberania.
O próximo capítulo dependerá da aprovação regulatória e, sobretudo, da capacidade dos novos controladores de transformar uma companhia que passou anos em crise novamente numa empresa capaz de produzir, inovar e competir.
Para o Brasil, há ainda uma questão maior.
A Avibras não representa apenas patrimônio empresarial.
Representa conhecimento estratégico acumulado durante mais de seis décadas.
E é justamente por isso que a mudança de controle de uma empresa desse porte merece acompanhamento que vá muito além do mercado financeiro.
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