Quando a verdade incomoda, o problema não é a canção
A crítica do bispo Samuel Ferreira a “Reacende a Chama” provocou um debate que ultrapassa preferências musicais e alcança uma questão muito mais profunda: a Igreja ainda está falando sobre oração, santificação, volta de Cristo e eternidade?

A música “Reacende a Chama”, interpretada por Sued Silva, tornou-se o centro de uma grande discussão no meio evangélico depois de receber uma dura crítica do bispo Samuel Ferreira, presidente da Assembleia de Deus do Brás e uma das lideranças mais conhecidas do país.
Durante um programa transmitido pela Mais FM 102.9, o bispo manifestou sua reprovação à composição, afirmou que mandaria interromper sua execução entre os jovens de seu ministério e classificou a música como “lixo”.
A declaração repercutiu intensamente nas redes sociais, gerou manifestações de apoio e discordância e acabou ampliando consideravelmente a visibilidade da canção.
Assista ao clipe oficial de “Reacende a Chama”
▶ Sued Silva — Reacende a Chama | Clipe oficial
Antes de apresentar qualquer discordância, faço questão de registrar publicamente o meu respeito.
Admiro muito a história do bispo Samuel Ferreira, sua trajetória ministerial e o trabalho evangelístico realizado por ele e pelo ministério que lidera. Reconheço a relevância de uma obra que alcançou milhares de pessoas, formou lideranças, implantou igrejas e contribuiu para a pregação do Evangelho no Brasil e em outros países.
Esta coluna não representa um ataque pessoal ao bispo, à sua família, à Assembleia de Deus do Brás ou ao Ministério de Madureira. Trata-se de uma discordância legítima e respeitosa em relação à maneira como a canção foi julgada.
É perfeitamente possível admirar a história de um líder cristão e, ao mesmo tempo, discordar de uma de suas declarações.
O que disse o bispo Samuel Ferreira
Ao comentar a música, o bispo questionou sua construção e criticou o estilo musical utilizado. Em sua argumentação, também recorreu a um pensamento atribuído a Santo Agostinho sobre o perigo de uma pessoa ser conduzida apenas pela melodia e pelo entusiasmo de uma composição, sem analisar cuidadosamente aquilo que está sendo cantado.
Essa preocupação é legítima.
Nenhuma música deve ser aceita como doutrina somente porque possui uma melodia emocionante. Nenhuma canção está acima da Bíblia, assim como nenhum cantor, compositor, pregador, pastor ou bispo está imune ao exame das Escrituras.
O ponto que provoca discordância é a conclusão extremamente severa de que a música seria “lixo”.
Assista à declaração do bispo
▶ Bispo Samuel Ferreira critica a canção “Reacende a Chama”
A canção criticada não incentiva o pecado, a imoralidade ou o abandono da fé. Pelo contrário: apresenta um chamado à oração, à santificação, à esperança na volta de Cristo, ao despertamento espiritual e ao retorno ao primeiro amor.
Por isso, permanece uma pergunta necessária: onde estaria o “lixo”?
A música toca em uma realidade que não pode ser escondida. Em muitos ambientes religiosos, o Evangelho da cruz vem sendo substituído por uma mensagem concentrada quase exclusivamente em prosperidade, conquistas financeiras, bens materiais e soluções imediatas para os problemas da vida.
Isso não significa afirmar que todas as igrejas abandonaram o Evangelho.
Não são todas as igrejas. Não são todos os pastores. Não são todos os bispos. Existem milhares de homens e mulheres sérios, que servem ao próximo, cuidam dos necessitados, pregam a verdade e administram com responsabilidade os recursos recebidos.
Justamente por isso, aqueles que não se enquadram na crítica não deveriam se sentir atacados por ela.
Quando uma mensagem denuncia a falsa igreja, o falso cristianismo e a exploração da fé, o verdadeiro pastor não precisa vestir a carapuça. Ao contrário, deveria apoiar a denúncia, porque os primeiros prejudicados pelos mercadores da fé são os próprios líderes honestos.
A resposta de Sued Silva
Após a repercussão da declaração, Sued Silva manifestou-se reafirmando sua fé e sua decisão de continuar cantando. Em sua resposta, declarou: “Nunca calarei minha voz” e afirmou que seu sustento e seu chamado procedem de Jesus.
A cantora não respondeu com ofensas pessoais nem transformou o episódio em um ataque direto ao bispo. Sua manifestação concentrou-se na própria experiência de fé e na convicção de que continuará exercendo seu ministério.
Assista à resposta da cantora
▶ Sued Silva responde após a repercussão da crítica
A resposta serena da cantora oferece uma lição importante. Divergências no meio cristão não deveriam ser transformadas em guerras pessoais, disputas entre ministérios ou competições para descobrir quem possui maior autoridade espiritual.
O debate precisa permanecer no campo das ideias, da doutrina e das Escrituras.
Oferta não é instrumento de chantagem espiritual
A Bíblia ensina generosidade, contribuição e responsabilidade com a obra de Deus. Igrejas precisam de recursos para manter seus templos, desenvolver projetos sociais, evangelizar e assistir famílias necessitadas. O problema não está na oferta voluntária, consciente e administrada com transparência.
O problema começa quando a fé se transforma em produto.
Começa quando campanhas são utilizadas para explorar a dor, o medo, a enfermidade, o desemprego e o desespero das pessoas. Quando se promete uma resposta divina em troca de determinado valor. Quando objetos comuns recebem uma suposta condição sobrenatural e são usados para pressionar emocionalmente pessoas vulneráveis.
Há lugares nos quais não basta tosquiar a ovelha: procura-se extrair dela até o último recurso, sempre em nome de uma nova campanha, de um novo propósito ou de uma nova revelação.
A pessoa chega procurando acolhimento e termina submetida a uma espiritualidade baseada no medo, na culpa e na obrigação de contribuir além de suas possibilidades.
Isso não é cuidado pastoral. É exploração religiosa.
Cristo nunca tratou pessoas como fontes de arrecadação. Ele acolheu os cansados, alimentou os famintos, curou os enfermos e confrontou aqueles que transformaram a casa de oração em ambiente de comércio.
A Igreja precisa ter coragem de olhar para si mesma
É muito fácil condenar os pecados do mundo e permanecer em silêncio diante dos desvios cometidos dentro dos templos. Entretanto, a verdadeira reforma espiritual começa quando a Igreja aceita ser confrontada pela Palavra.
“Reacende a Chama” não afirma que toda igreja é falsa. A música reconhece que, mesmo em meio às distorções, ainda existe uma Igreja espiritual: formada por pessoas que oram, buscam santidade, esperam a volta de Cristo e não negociam sua fé por vantagens materiais.
Essa distinção é fundamental.
Existe a igreja dos templos grandiosos, das estruturas administrativas e das multidões. E existe a Igreja formada por pessoas verdadeiramente transformadas pelo Evangelho. Em muitos lugares, as duas caminham juntas. Em outros, infelizmente, a estrutura permaneceu, mas a essência foi abandonada.
Uma liderança verdadeiramente segura não precisa temer perguntas. Também não deveria confundir uma crítica ao mercantilismo religioso com um ataque à Igreja de Cristo.
Quem cuida das ovelhas não deveria se ofender quando alguém denuncia os lobos.
Talvez a pergunta mais importante não seja se a música é boa ou ruim do ponto de vista artístico. A pergunta que deveria inquietar o meio evangélico é outra: ainda estamos conduzindo pessoas para Cristo ou apenas ensinando-as a buscar benefícios em nome de Cristo?
A Igreja não precisa de menos reflexão. Precisa de mais discernimento, mais Bíblia, mais prestação de contas e menos culto à personalidade. Precisa voltar a falar sobre arrependimento, graça, santidade, eternidade, justiça e serviço ao próximo.
Minha admiração pela trajetória do bispo Samuel Ferreira e pelo trabalho evangelístico de seu ministério permanece. Respeito, contudo, não significa concordância automática. No ambiente cristão, divergências podem e devem ser apresentadas com verdade, equilíbrio e amor.
Se uma canção nos obriga a encarar uma realidade presente em parte do meio religioso, talvez ela não seja “lixo”.
Talvez seja um espelho.
E, algumas vezes, o que mais incomoda no espelho não é a imagem produzida por ele, mas aquilo que ele revela.
“Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas?”
Ezequiel 34:2
Laécio Monteiro
Jornalista — MTB 11.120-PR | Radialista — DRT 7.640-PR
Escritor, apresentador e gestor público
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