Um ano após explosão na Enaex, nove mortes ainda cobram respostas e reparação em Quatro Barras
Tragédia de 12 de agosto de 2025 matou nove trabalhadores e deixou sete pessoas feridas na Região Metropolitana de Curitiba. Polícia descartou crime, mas apontou falhas sistêmicas na gestão de riscos; ação civil busca reparações às famílias e medidas de segurança.

QUATRO BARRAS (PR) — Há exatamente um ano, às 5h50 de 12 de agosto de 2025, uma explosão de grandes proporções atingiu a fábrica de explosivos da Enaex Brasil, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba. Nove trabalhadores morreram e outras sete pessoas sofreram ferimentos leves.
A explosão destruiu completamente uma unidade destinada à fabricação de acessórios iniciadores de explosivos e abriu uma cratera no local. O impacto foi sentido em diferentes pontos do município, provocando danos em imóveis próximos e mobilizando bombeiros, policiais, equipes de resgate, peritos e agentes da Defesa Civil.
Um ano depois, a tragédia permanece marcada pela dor das famílias, pelas dúvidas sobre as condições de segurança da operação e pela discussão judicial em torno das responsabilidades civis, ambientais e trabalhistas.
Nove vidas interrompidas
As vítimas foram identificadas como Camila de Almeida Pinheiro, Cleberson Arruda Correa, Eduardo Silveira de Paula, Francieli Gonçalves de Oliveira, Jessica Aparecida Alves Pires, Marcio Nascimento de Andrade, Pablo Correa dos Santos, Roberto dos Santos Kuhnen e Simeão Pires Machado.
A identificação exigiu um trabalho complexo da Polícia Científica. Em razão do poder destrutivo da explosão, algumas confirmações dependeram de exames genéticos e análise de impressões digitais. O processo foi concluído nove dias depois do acidente, conforme informou a Secretaria da Segurança Pública do Paraná.
Mais do que números de uma ocorrência industrial, as nove vítimas eram trabalhadores que saíram de casa para cumprir mais uma jornada e não retornaram às suas famílias.
Perícia apontou frio como possível fator
O laudo da Polícia Científica ficou pronto em setembro de 2025, após 19 dias de perícias, análises e reconstrução dos possíveis cenários da explosão.
Segundo o órgão, a destruição completa da área dificultou a coleta de vestígios. A investigação técnica considerou que a baixa temperatura registrada naquela madrugada — aproximadamente três graus — pode ter contribuído para o acidente.
O laudo não apresentou o frio como uma explicação isolada ou definitiva. O documento reuniu diferentes cenários e incluiu recomendações de segurança para o setor industrial, de acordo com a Polícia Científica do Paraná.
Polícia descartou crime, mas apontou falhas na gestão de riscos
A Polícia Civil concluiu o inquérito em outubro de 2025. Depois de analisar imagens de câmeras, depoimentos, laudos periciais, mensagens corporativas, e-mails institucionais e documentos técnicos da empresa, a investigação concluiu que não houve crime doloso ou culposo.
Isso significa que os investigadores não encontraram elementos suficientes para atribuir a uma pessoa uma conduta criminosa intencional ou negligente.
A mesma investigação, contudo, apontou indícios de falhas sistêmicas na gestão de riscos da empresa, que podem ter contribuído para a explosão. A conclusão está no comunicado oficial da Polícia Civil do Paraná.
A inexistência de responsabilização criminal não encerra a discussão sobre outras formas de responsabilidade. Uma empresa pode não ter cometido crime e, ainda assim, ser obrigada a reparar danos civis, ambientais ou trabalhistas, além de corrigir procedimentos considerados inseguros.
Ministério Público pede indenizações e mudanças estruturais
Em março de 2026, o Ministério Público do Paraná ajuizou uma ação civil pública contra a Enaex Brasil.
Entre os pedidos apresentados estão indenizações mínimas de R$ 1 milhão para a família de cada trabalhador morto, pagamento de pensões aos dependentes, compensações aos feridos e às pessoas diretamente atingidas e pelo menos R$ 20 milhões por danos morais coletivos.
O Ministério Público também pediu:
- interdição das atividades envolvendo explosivos até a redução dos riscos críticos;
- apresentação de um plano técnico de segurança e contingência;
- recuperação de possíveis danos ambientais;
- reparação dos prejuízos causados aos imóveis e à área urbana;
- apuração de suposta supressão irregular de 3.315 metros quadrados de vegetação nativa;
- bloqueio de até R$ 50 milhões em bens da empresa.
Os pedidos foram detalhados em reportagens baseadas na ação ajuizada pela Promotoria de Justiça de Quatro Barras, como registraram a CBN Curitiba e a Band Paraná.
Justiça determinou bloqueio parcial
Em decisão preliminar, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 4 milhões para garantir possíveis indenizações às famílias. O valor considerado foi de cerca de R$ 486 mil por vítima.
O pedido de bloqueio de R$ 50 milhões foi considerado excessivamente genérico para aquela etapa do processo. Também não foi acolhido, em caráter liminar, o pedido de interdição total da unidade, porque a empresa apresentou licenças e autorizações válidas para operar.
A decisão não representa o julgamento definitivo da ação. O mérito dos pedidos de indenização, reparação ambiental e adoção de medidas estruturais ainda depende da análise judicial. Nas fontes públicas consultadas para esta reportagem, não foi localizada uma sentença final sobre o caso. Os detalhes da decisão preliminar foram divulgados pela Revista Proteção.
O que diz a Enaex
A Enaex afirma que possui as licenças e autorizações necessárias para o funcionamento da unidade e que vem adotando as medidas jurídicas cabíveis.
A empresa também declarou ter firmado acordos de indenização com familiares das vítimas, com participação de advogados e da Defensoria Pública. Os valores são confidenciais.
Em relação aos danos materiais provocados pela explosão, a companhia sustenta que realizou ressarcimentos a moradores e estabelecimentos atingidos, com apoio da Defesa Civil, além de manter colaboração com as autoridades responsáveis pelas investigações. A manifestação foi publicada pelo portal Nosso Dia.
As perguntas que permanecem
O trabalho técnico realizado pela Polícia Científica e pela Polícia Civil esclareceu parte importante da dinâmica da explosão. Mesmo assim, a conclusão de que houve possíveis falhas sistêmicas na gestão de riscos exige respostas concretas.
É necessário saber quais procedimentos foram revistos, quais recomendações da perícia foram adotadas, como os trabalhadores passaram a ser protegidos e de que maneira o poder público fiscaliza atualmente uma atividade que, por sua própria natureza, envolve risco elevado.
A tragédia também evidencia a necessidade de comunicação transparente. Empresas que trabalham com substâncias explosivas precisam prestar contas não apenas aos órgãos reguladores, mas também aos empregados e às comunidades localizadas em seu entorno.
Memória, prevenção e responsabilidade
A lembrança das nove vítimas não pode ficar restrita à data de aniversário da explosão. Preservar essa memória significa acompanhar os processos, cobrar reparações justas e impedir que falhas semelhantes voltem a colocar trabalhadores em perigo.
Responsabilização não deve ser confundida com condenação antecipada. Ela depende de investigação, contraditório e decisão judicial. Mas também não pode ser reduzida à existência ou não de um crime. Segurança industrial, prevenção e reparação são deveres permanentes.
Um ano depois, a resposta mais digna à memória dos nove trabalhadores é transformar a dor de Quatro Barras em fiscalização, transparência e proteção efetiva à vida.
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