Agulhas de rádio doadas por Marie Curie ao Brasil podem voltar em nova forma de tratamento contra o câncer
Material entregue pela cientista há cem anos ajudou a desenvolver a radioterapia no país e agora integra uma parceria internacional para produção de actínio, usado em terapias contra tumores agressivos.

BELO HORIZONTE — Um presente científico entregue por Marie Curie ao Brasil há exatamente cem anos pode ganhar uma nova finalidade na medicina moderna. Três agulhas contendo rádio-226, doadas pela cientista ao então Instituto do Radium de Belo Horizonte em 1926, estão entre materiais radioativos enviados aos Estados Unidos para reprocessamento e desenvolvimento de novos radiofármacos contra o câncer.
Marie Curie esteve em Belo Horizonte entre 16 e 18 de agosto de 1926, acompanhada da filha Irène Joliot-Curie. Durante a visita, entregou ao instituto três fontes de rádio que passaram a ser utilizadas em tratamentos oncológicos por meio da chamada curieterapia, uma das primeiras formas de braquiterapia empregadas no país.
Material virou rejeito, mas voltou a ter valor científico
Com o avanço da tecnologia e a adoção de métodos mais seguros, as antigas fontes de rádio deixaram de ser utilizadas e foram armazenadas durante décadas.
O que por muito tempo foi considerado apenas rejeito radioativo passou a despertar novo interesse científico depois que pesquisadores identificaram o potencial do rádio-226 como matéria-prima para produção de actínio, elemento utilizado em tratamentos mais modernos contra determinados tipos de câncer.
O actínio pode ser empregado em terapias direcionadas contra tumores metastáticos e agressivos, especialmente em situações em que tratamentos convencionais apresentam respostas limitadas.
Parceria com empresa dos Estados Unidos
Em 2023, o Brasil passou a estruturar uma parceria internacional para aproveitar estoques antigos de rádio-226.
O acordo envolve a Comissão Nacional de Energia Nuclear, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares e a empresa norte-americana Niowave, responsável pelo processamento do material.
Pelo acordo, a empresa deverá produzir actínio a partir do rádio enviado pelo Brasil durante três anos. Em contrapartida, pesquisadores brasileiros receberão treinamento técnico e doses do novo material para estudos e desenvolvimento de aplicações médicas.
De rejeito a matéria-prima
Em junho de 2025, técnicos do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear, em Belo Horizonte, realizaram uma operação especial para transferir as antigas fontes de rádio de suas blindagens para cápsulas certificadas para transporte internacional.
Entre esses materiais estavam justamente as três agulhas associadas à visita de Marie Curie ao Brasil.
A operação transformou um material que permanecia armazenado há décadas em uma possível matéria-prima estratégica para a medicina nuclear.
Um legado com cem anos de história
A visita de Marie Curie ao Brasil em 1926 durou 44 dias e incluiu passagens pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
Durante a viagem, a cientista realizou conferências, participou de encontros acadêmicos e ajudou a difundir o conhecimento sobre radioatividade e aplicações médicas da radiação.
A passagem por Belo Horizonte teve significado especial porque o Instituto do Radium era o primeiro centro brasileiro dedicado exclusivamente ao tratamento do câncer.
As fontes doadas por Curie foram incorporadas aos equipamentos utilizados naquela época e contribuíram para a expansão da radioterapia no Brasil.
Ciência fecha um ciclo
Cem anos depois, o mesmo material que ajudou pacientes nas primeiras décadas da radioterapia brasileira pode voltar a contribuir para novas terapias.
A diferença é tecnológica: em vez de ser utilizado diretamente como fonte de radiação, o rádio poderá servir como matéria-prima para produção de substâncias destinadas a tratamentos muito mais precisos.
O caso simboliza uma rara conexão entre a história da ciência e a medicina contemporânea: um material levado pessoalmente por uma das maiores cientistas da história volta a ter relevância um século depois, agora inserido em pesquisas voltadas à próxima geração de tratamentos contra o câncer.
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