Campanha presidencial começa nas ruas com atos de Lula, Flávio, Caiado, Zema e Renan Santos
Principais candidatos ao Palácio do Planalto escolheram redutos políticos e locais simbólicos para a primeira mobilização oficial das Eleições 2026; segurança pública, soberania, economia e críticas aos adversários deram o tom dos discursos deste domingo.

BRASÍLIA — A corrida pelo Palácio do Planalto entrou oficialmente nas ruas neste domingo (16). Com a propaganda eleitoral autorizada pela Justiça Eleitoral, candidatos à Presidência aproveitaram o primeiro dia de campanha para realizar atos em diferentes regiões do país, apresentar mensagens centrais de suas candidaturas e começar a disputa direta pelo voto.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou ao ABC paulista, onde iniciou sua trajetória sindical; Flávio Bolsonaro (PL) reuniu apoiadores em Copacabana, no Rio de Janeiro; Ronaldo Caiado (PSD) percorreu cidades de Goiás em carreata; Romeu Zema (Novo) iniciou a campanha em Montes Claros, no norte de Minas Gerais; e Renan Santos (Missão) escolheu o Largo São Francisco, no centro de São Paulo.
Embora existam outros candidatos registrados na disputa presidencial, foram esses cinco que concentraram os principais atos públicos de lançamento acompanhados pela imprensa nacional ao longo deste domingo.
Lula volta às origens e aposta em mulheres, soberania e continuidade
Candidato à reeleição, Lula abriu oficialmente sua campanha no Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, local intimamente ligado às greves dos metalúrgicos do final da década de 1970 e ao início de sua trajetória política.
O simbolismo foi explícito. O ato adotou o lema “Onde tudo começou”, enquanto a campanha apresenta o slogan “O Brasil pronto para mais”. Ao lado de Lula estavam o vice-presidente e candidato novamente ao cargo, Geraldo Alckmin (PSB), Fernando Haddad e outras lideranças da coligação.
As mulheres receberam espaço de destaque.
A primeira-dama Janja da Silva discursou e homenageou Marisa Letícia, ex-primeira-dama e primeira esposa de Lula. Simone Tebet e Marina Silva, que disputam o Senado por São Paulo, também participaram do lançamento.
Lula voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública, condicionando a medida ao avanço da PEC da Segurança no Congresso. O presidente também colocou a defesa da soberania brasileira entre os eixos do discurso, em um momento de tensão nas relações com os Estados Unidos.
A estratégia do PT para a largada foi combinar memória política, realizações do governo e um discurso de continuidade.
Flávio Bolsonaro estreia em Copacabana com segurança e legado do pai
No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro iniciou a campanha na praia de Copacabana, palco recorrente das manifestações políticas ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A escolha do local reforçou uma das características mais evidentes da candidatura do senador: a tentativa de preservar e mobilizar o eleitorado construído pelo pai.
Durante o ato, foi reproduzido um áudio de Jair Bolsonaro, e Flávio pediu que os participantes cantassem em homenagem ao ex-presidente. O candidato também fez críticas ao governo Lula, ao Supremo Tribunal Federal e ao funcionamento das instituições em Brasília.
A segurança pública ocupou posição central.
Flávio prometeu endurecer o enfrentamento ao crime organizado e defendeu que milícias também sejam classificadas como organizações terroristas. A campanha utiliza o slogan “O Brasil vai vencer”.
O candidato também mencionou economia, redução de impostos e gastos públicos.
Seu vice, o deputado federal Alfredo Gaspar, participou do lançamento. Flávio aproveitou o discurso para defender o companheiro de chapa das acusações criminais divulgadas recentemente. Gaspar nega as acusações e afirma estar à disposição das autoridades.
A largada mostra que a associação ao legado político de Jair Bolsonaro continuará tendo papel relevante na campanha do PL.
Caiado transforma Goiás em vitrine de sua principal bandeira
Ronaldo Caiado começou o domingo com uma missa na Catedral de Goiânia e depois percorreu cidades goianas próximas ao Distrito Federal.
A carreata passou por Águas Lindas de Goiás, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental e Luziânia.
A escolha não foi casual.
Caiado afirmou que selecionou municípios que no passado enfrentaram altos índices de violência para tentar associar o desempenho de sua administração em Goiás à principal bandeira da candidatura presidencial: segurança pública.
O candidato pretende apresentar sua experiência no governo estadual como modelo para uma política nacional de enfrentamento ao crime.
Também procurou marcar distância tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro.
Caiado reafirmou que faz oposição ao atual presidente depois de declarações do presidente nacional do PSD e candidato a vice, Gilberto Kassab, sobre a proximidade de partidos do centro com Lula. Kassab não acompanhou o candidato nos atos deste domingo.
O ex-governador também apresentou recentemente seu plano de governo, elaborado com participação do ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta e que inclui dezenas de propostas para a área da saúde.
Zema promete endurecimento penal e “superpresídio”
Em Minas Gerais, Romeu Zema escolheu Montes Claros para iniciar oficialmente a campanha.
O candidato do Novo participou de uma missa e depois caminhou pelo Mercado Municipal da cidade. A estratégia foi iniciar a corrida presidencial justamente no norte mineiro, região onde Lula historicamente apresenta desempenho eleitoral mais forte.
Zema também colocou a segurança pública no centro de sua mensagem.
Entre as propostas apresentadas está a construção do que chamou de “superpresídio” no Norte do Brasil, destinado aos principais líderes de organizações criminosas.
O candidato defendeu endurecimento da legislação penal, ampliação do sistema penitenciário e aumento da rede de atendimento especializado às mulheres.
Zema também fez críticas a ministros do Supremo Tribunal Federal e prometeu que, caso eleito, montará uma administração baseada, segundo ele, em transparência e integrantes com “ficha limpa”.
O candidato afirmou acreditar que chegará ao segundo turno e declarou que, em uma eventual disputa entre o PT e outro candidato de direita, apoiará o nome que estiver contra o partido de Lula.
Seu candidato a vice, o senador Eduardo Girão, não esteve no ato de Montes Claros.
Renan Santos tenta ocupar espaço fora da polarização
O candidato do Missão, Renan Santos, escolheu um ambiente completamente diferente.
Seu lançamento ocorreu no Largo São Francisco, no centro de São Paulo, diante da Faculdade de Direito da USP, instituição onde estudou, embora não tenha concluído o curso.
O público era majoritariamente jovem, perfil no qual o partido ligado ao Movimento Brasil Livre tenta ampliar sua presença.
Renan dedicou boa parte do discurso a críticas simultâneas a Lula e Flávio Bolsonaro, sinalizando que tentará se posicionar como alternativa aos dois candidatos que lideram as pesquisas.
Assim como Caiado, Zema e Flávio, fez da segurança pública e do combate ao crime organizado um dos principais temas da abertura de campanha.
O tom, entretanto, foi particularmente duro, com o candidato utilizando linguagem agressiva ao defender ações das forças de segurança contra integrantes de organizações criminosas.
O evento contou com lideranças do Missão, incluindo o deputado federal Kim Kataguiri, Aroldo Medina — candidato a vice-presidente —, Amanda Vettorazzo e Arthur do Val.
O encerramento teve caráter performático: Renan tocou violão e gaita e cantou seu jingle de campanha.
Segurança pública domina o primeiro dia
Apesar das diferenças ideológicas e de estratégia, uma característica apareceu repetidamente nos primeiros discursos: segurança pública.
Flávio Bolsonaro falou em endurecer o enfrentamento às facções e milícias. Caiado tenta nacionalizar o modelo aplicado por ele em Goiás. Zema promete um presídio federal destinado às lideranças criminosas. Renan Santos defende uma ofensiva mais contundente contra organizações criminosas.
Até Lula, cuja campanha tende a dar mais destaque a políticas sociais, economia e soberania, voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública.
O primeiro dia, portanto, indica que o tema deverá ocupar espaço significativamente maior na eleição presidencial deste ano.
Lula e Flávio começam à frente nas pesquisas
A campanha começa com dois candidatos destacados numericamente.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada na sexta-feira (14) mostrou Lula com 38% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 31% no primeiro turno.
Caiado e Renan Santos aparecem com 4% cada. Zema e Augusto Cury têm 2%, enquanto Samara Martins registra 1%. Os demais nomes testados não pontuaram. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Em uma simulação de segundo turno entre Lula e Flávio, o petista aparece com 43% e o candidato do PL com 40% — diferença dentro da margem de erro.
Isso significa que, embora Lula e Flávio iniciem a campanha em posição bastante superior aos demais no primeiro turno, o cenário projetado para uma eventual decisão entre os dois permanece competitivo.
Justiça Eleitoral registra 13 candidaturas
Até as 16h30 deste domingo, os sistemas da Justiça Eleitoral contabilizavam 13 pedidos de registro para a Presidência da República.
O número ainda é tratado como parcial porque os pedidos protocolados dentro do prazo precisam ser processados e refletidos integralmente no DivulgaCandContas.
Entre os registros de última hora aparece o empresário Pablo Marçal, que protocolou pedido de candidatura pelo PRTB após obter uma decisão liminar. A possibilidade de efetivamente concorrer ainda depende da situação jurídica de sua inelegibilidade.
Além dos candidatos que realizaram grandes atos neste domingo, estão na disputa ou apresentaram pedidos de registro nomes como Augusto Cury (Avante), Samara Martins (UP), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO), Clariana Barão (DC) e Wilson Grassi (Democrata), além da candidatura registrada pelo PRTB.
Nem todos, porém, promoveram neste domingo atos nacionais de lançamento com a mesma dimensão ou cobertura dos cinco eventos destacados nesta reportagem.
O que muda a partir de agora
Desde este domingo, candidatos podem pedir votos explicitamente, fazer comícios, caminhadas e carreatas e realizar propaganda eleitoral na internet dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.
Também está permitido o impulsionamento pago de conteúdo eleitoral nas plataformas digitais, desde que contratado e identificado conforme a legislação.
Já o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa em 28 de agosto.
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Se nenhum candidato alcançar a maioria absoluta dos votos válidos, os dois mais votados disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
A campanha começou — e o tom também
A largada deste domingo mostrou uma eleição em que os principais candidatos buscarão estabelecer identidades muito claras desde o início.
Lula aposta em memória política, continuidade, políticas sociais, mulheres e soberania. Flávio Bolsonaro combina segurança pública, oposição ao PT e o legado político do pai. Caiado tenta apresentar experiência administrativa e segurança como credenciais. Zema oferece um discurso de endurecimento penal, gestão e oposição ao establishment político. Renan Santos tenta transformar a rejeição à polarização tradicional em espaço para uma alternativa mais jovem e de discurso antissistema.
Com os candidatos agora autorizados a pedir votos e colocar suas estruturas efetivamente nas ruas, a pré-campanha terminou. A disputa presidencial de 2026 começou oficialmente.
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