Final Trágico: Corpo de João Gabriel é encontrado em biodigestor após três dias de buscas em Araucária
Estrutura estava dentro do ponto inicial da operação, mas a presença de efluentes contaminados impossibilitou uma inspeção interna imediata. Um rasgo na lona chamou a atenção dos bombeiros, que solicitaram o esvaziamento do reservatório.

URGENTE
ARAUCÁRIA (PR) — O corpo de João Gabriel Ferreira dos Santos, de 5 anos, foi encontrado na tarde desta terça-feira (28) dentro de um biodigestor localizado na propriedade rural onde a criança havia desaparecido, na região de Campo Redondo, em Araucária.
O reservatório fica a aproximadamente 100 metros da residência onde João Gabriel estava com familiares. De acordo com o comando da operação, a estrutura fazia parte do chamado “ponto zero” das buscas — área prioritária delimitada a partir do último local em que a criança teria sido vista.
Apesar de estar no perímetro inicial da operação, o biodigestor não pôde ser inspecionado internamente de imediato. A estrutura tem aproximadamente três metros de profundidade e recebe os dejetos provenientes das instalações destinadas à criação de suínos existentes na propriedade, conhecidas popularmente como “mangueirões”. O reservatório continha uma mistura de fezes, urina, água utilizada na limpeza das baias e matéria orgânica em decomposição. A presença desse efluente contaminado, além dos riscos biológicos e dos gases gerados pelo processo de biodigestão, inviabilizou a entrada ou o mergulho seguro das equipes.
Durante uma nova verificação, um rasgo na lona do biodigestor chamou a atenção dos bombeiros. Diante do indício, o comando da operação solicitou ao proprietário o esvaziamento completo da estrutura por meio de bombeamento. O procedimento dependia de equipamentos apropriados, devido à profundidade do reservatório, à concentração de dejetos da criação de suínos e aos riscos de contaminação e exposição a gases. Após a retirada do material, o corpo de João Gabriel foi localizado no interior do biodigestor.
A área foi isolada para o trabalho da Polícia Científica e das autoridades responsáveis pela investigação.
Três dias de buscas
João Gabriel, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e não verbal, estava desaparecido desde a manhã de domingo (26). Conforme o relato inicial apresentado às autoridades, ele teria saído da residência para ir ao banheiro, localizado na área externa da propriedade, e não foi mais visto.
O desaparecimento mobilizou uma grande força-tarefa formada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Paraná, Polícia Militar, Guarda Municipal de Araucária, Defesa Civil, Polícia Civil, equipes especializadas, cães de busca e voluntários.
Mais de 150 pessoas participaram da operação, que incluiu varreduras em áreas de mata, terrenos, estradas rurais, açudes, tanques e outros reservatórios existentes na região. Drones com câmeras térmicas, embarcações e equipes especializadas em buscas aquáticas também foram empregados.
A extensão da área rural, a vegetação, a forte neblina e a existência de vários pontos com água dificultaram os trabalhos. Embora estivesse próximo da residência e dentro da área inicial de buscas, o biodigestor precisava ser completamente esvaziado para permitir uma inspeção conclusiva.
O que muda na investigação
Com a localização do corpo, o caso deixa de ser investigado somente como desaparecimento. A Polícia Civil deverá agora esclarecer as circunstâncias da morte, reconstruir os últimos momentos da criança e apurar como João Gabriel chegou ao interior do biodigestor.
A perícia deverá verificar a causa e o horário aproximado da morte, a existência de possíveis lesões, o ponto de entrada no reservatório, as condições da lona e a presença ou ausência de barreiras de proteção ao redor da estrutura.
Também deverá ser apurada a origem do rasgo que chamou a atenção dos bombeiros, além das condições de instalação, conservação e segurança do biodigestor.
O exame necroscópico será determinante para estabelecer se a morte ocorreu por afogamento, intoxicação, trauma ou outra causa. Somente os laudos periciais poderão apontar se a criança caiu no reservatório ainda com vida e há quanto tempo o corpo permanecia no local.
Possíveis consequências jurídicas
A localização do corpo dentro da propriedade não significa que familiares ou o proprietário sejam automaticamente responsáveis pela morte. Até o momento, não há elementos conclusivos que permitam atribuir culpa a qualquer pessoa.
Os depoimentos já prestados pelos familiares deverão ser confrontados com os vestígios encontrados e com os resultados da perícia. Novas oitivas poderão ser realizadas para esclarecer quem estava responsável pela supervisão da criança, quais eram as condições de segurança do biodigestor e como ocorreu o desaparecimento.
Caso seja comprovado que se tratou de uma fatalidade e que não houve conduta negligente ou omissão juridicamente relevante, o inquérito poderá ser concluído sem responsabilização criminal.
Por outro lado, se a investigação demonstrar que uma situação conhecida de risco foi negligenciada, que a estrutura não possuía proteção adequada ou que alguém com dever de cuidado deixou de adotar uma providência necessária, poderá ser analisada a eventual ocorrência de homicídio culposo — quando não existe intenção de matar, mas o resultado decorre de imprudência, negligência ou imperícia.
Também poderão ser apuradas responsabilidades relacionadas à instalação, à manutenção e à segurança do biodigestor. Qualquer responsabilização dependerá de provas, dos laudos periciais e da demonstração de uma relação direta entre eventual conduta ou omissão e a morte da criança.
A localização de João Gabriel encerra de forma trágica uma mobilização que comoveu Araucária e repercutiu em todo o país.
O Portal Conexão Geral manifesta profunda solidariedade aos familiares e amigos de João Gabriel neste momento de dor.
Matéria em atualização. Novas informações poderão ser acrescentadas após manifestações oficiais da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Científica.
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