Anthony Fauci se recusa a responder perguntas sobre origem da Covid-19 e pode ser acusado de desacato nos EUA
Ex-diretor do principal instituto de doenças infecciosas dos Estados Unidos invocou a Quinta Emenda mais de cem vezes durante audiência no Senado.

Comissão investiga financiamento de pesquisas em Wuhan, atuação de autoridades durante a pandemia e possíveis contradições em declarações ao Congresso.
Anthony Fauci, um dos principais responsáveis pela resposta dos Estados Unidos à pandemia de Covid-19, voltou ao centro de uma disputa política, científica e jurídica sobre a origem do coronavírus. Durante uma audiência no Senado norte-americano, o médico recusou-se a responder a mais de cem perguntas, invocando o direito constitucional de não produzir provas contra si mesmo.
A audiência foi conduzida pelo senador republicano Rand Paul, que há anos questiona Fauci sobre o financiamento de pesquisas com coronavírus realizadas na China. A comissão pretende esclarecer se recursos públicos norte-americanos contribuíram para experimentos desenvolvidos no Instituto de Virologia de Wuhan e se autoridades omitiram informações sobre a possibilidade de o vírus ter escapado acidentalmente de um laboratório.
Ao permanecer em silêncio, Fauci não admitiu culpa. A Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos permite que uma pessoa deixe de responder a perguntas quando as declarações possam ser utilizadas em uma investigação ou processo criminal. A decisão, no entanto, intensificou a pressão política por novas apurações.
FAUCI RECUSA MAIS DE CEM PERGUNTAS
Segundo informações divulgadas após a audiência, Fauci invocou a Quinta Emenda diante de 111 questionamentos. As perguntas tratavam do financiamento de pesquisas, de contatos mantidos com integrantes da comunidade de inteligência e da elaboração de avaliações sobre a origem da Covid-19.
Rand Paul afirmou que pretende levar à votação uma proposta para declarar Fauci em desacato ao Congresso. O senador sustenta que o médico não poderia utilizar o risco de autoincriminação como justificativa para permanecer em silêncio porque recebeu um perdão preventivo do então presidente Joe Biden, em janeiro de 2025.
A interpretação, entretanto, é contestada por especialistas em direito constitucional. Embora o perdão cubra possíveis delitos federais cometidos durante determinado período, Fauci ainda poderia, em tese, enfrentar questionamentos estaduais ou acusações referentes a fatos não abrangidos pelo ato presidencial. Essa possibilidade sustentaria a utilização da Quinta Emenda, conforme argumenta sua defesa.
O perdão concedido por Biden também se tornou parte da controvérsia. O republicano Donald Trump e seus aliados questionam a validade de atos assinados com o uso de caneta automática, o chamado “autopen”. Até o momento, porém, não há decisão judicial definitiva anulando o benefício concedido a Fauci.
DOCUMENTOS APONTAM POSSÍVEIS CONTRADIÇÕES
Em junho de 2026, o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, comandado por Tulsi Gabbard, divulgou documentos e mensagens relacionados às discussões internas sobre a origem do coronavírus.
O órgão afirma que os registros mostram que Fauci manteve contatos com integrantes da comunidade de inteligência e participou de conversas sobre pesquisas virais. Segundo Gabbard, essas informações entrariam em conflito com declarações prestadas por Fauci ao Congresso em 2024, quando disse não ter conhecimento de discussões com órgãos como FBI e CIA sobre pesquisas relacionadas à Covid-19.
A direção da inteligência norte-americana também acusa Fauci de ter influenciado avaliações que favoreceram a hipótese de transmissão natural do vírus e afastaram, inicialmente, a possibilidade de um acidente de laboratório.
Essas são acusações formuladas pela atual administração dos Estados Unidos com base em documentos desclassificados. Elas ainda não representam uma condenação judicial, e Fauci não foi considerado culpado pela Justiça por ter causado a pandemia ou mentido ao Congresso.
A íntegra dos documentos disponibilizados pelo governo pode ser consultada no Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos Estados Unidos.
FINANCIAMENTO DE PESQUISAS EM WUHAN
Parte central da investigação envolve repasses do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, então comandado por Fauci, à organização EcoHealth Alliance. A entidade financiou estudos com coronavírus de morcegos desenvolvidos em parceria com o Instituto de Virologia de Wuhan.
Os investigadores querem determinar se os experimentos poderiam ser classificados como pesquisas de “ganho de função”, expressão utilizada para estudos que modificam organismos a fim de analisar características como capacidade de transmissão ou potencial de causar doenças.
Fauci declarou anteriormente que os Institutos Nacionais de Saúde não financiaram esse tipo de pesquisa em Wuhan. Seus críticos afirmam que os experimentos apoiados com recursos norte-americanos se enquadravam nessa definição, ainda que outra terminologia técnica tenha sido adotada nos documentos oficiais.
A divergência envolve tanto a interpretação científica dos projetos quanto as regras administrativas utilizadas pelo governo naquele período. O financiamento de pesquisas em Wuhan é comprovado, mas isso não demonstra, isoladamente, que os estudos tenham criado o vírus responsável pela pandemia.
EX-ASSESSOR DE FAUCI FOI INDICIADO
A investigação ganhou força em abril de 2026, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou o indiciamento de David Morens, ex-assessor sênior do instituto dirigido por Fauci.
Morens é acusado de participar de um esquema para ocultar comunicações e evitar pedidos apresentados com base na Lei de Liberdade de Informação. As acusações incluem conspiração contra os Estados Unidos, destruição ou alteração de registros e ocultação de documentos relacionados às pesquisas sobre a Covid-19.
De acordo com a acusação, o ex-assessor teria utilizado meios de comunicação não oficiais e ajudado a esconder informações sobre verbas destinadas a pesquisas com coronavírus. O indiciamento representa uma acusação formal, e Morens tem direito à defesa e à presunção de inocência até o julgamento.
As informações sobre o processo estão disponíveis no Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
FAUCI ALEGA PERSEGUIÇÃO POLÍTICA
Fauci afirma ser alvo de uma campanha de perseguição conduzida por adversários políticos. Durante a audiência, acusou Rand Paul de transformar a investigação em uma tentativa de humilhá-lo e criminalizar sua atuação durante a pandemia.
A defesa sustenta que o médico colaborou anteriormente com diferentes investigações e que sua decisão de permanecer em silêncio decorreu da existência de riscos jurídicos concretos. Democratas também acusaram os republicanos de promover uma investigação politicamente motivada.
Rand Paul, por outro lado, afirma que o Congresso tem o dever de esclarecer o destino dos recursos públicos e verificar se autoridades apresentaram informações falsas sobre pesquisas potencialmente perigosas.
A disputa sobre a recusa de Fauci poderá chegar ao Departamento de Justiça. A comissão pretende avaliar uma declaração de desacato, mas ainda será necessário definir o procedimento jurídico adequado e os efeitos do perdão presidencial sobre uma eventual responsabilização.
ORIGEM DO VÍRUS CONTINUA EM DISCUSSÃO
Mais de seis anos depois do início da pandemia, não existe uma conclusão científica e jurídica definitiva aceita por todas as instituições sobre a origem do SARS-CoV-2.
Alguns órgãos de inteligência norte-americanos consideram mais provável a hipótese de um vazamento acidental de laboratório. Outros mantêm avaliações diferentes ou afirmam não dispor de evidências suficientes para chegar a uma conclusão. Pesquisadores também defendem a hipótese de transmissão natural de animais para seres humanos.
A falta de acesso completo aos registros chineses, aos bancos de dados do laboratório de Wuhan e às informações epidemiológicas dos primeiros casos dificulta uma conclusão definitiva.
Também é necessário distinguir três questões diferentes: a existência de pesquisas financiadas pelos Estados Unidos em Wuhan, a possibilidade de um acidente de laboratório e a alegação de que Fauci teria participado de uma tentativa de encobrir informações. Embora estejam relacionadas na investigação, nenhuma delas comprova automaticamente as demais.
O novo depoimento amplia as dúvidas sobre decisões tomadas durante a pandemia e deverá alimentar novas audiências nos Estados Unidos. Caberá às investigações e, eventualmente, à Justiça estabelecer se houve ocultação de documentos, falso testemunho ou qualquer responsabilidade criminal.
O Portal Conexão Geral continuará acompanhando as investigações sobre a origem da Covid-19 e os desdobramentos do caso envolvendo Anthony Fauci nos Estados Unidos.
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