Agosto Lilás mobiliza Campo Largo e reforça rede de proteção às mulheres no mês em que Lei Maria da Penha completa 20 anos
Campo Largo promove ações do Agosto Lilás no mês em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Dados municipais mostram 558 atendimentos da Guarda relacionados à legislação em 2025.

CAMPO LARGO (PR) – Campo Largo intensifica durante o mês de agosto as ações de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher. A mobilização integra o Agosto Lilás, campanha nacional destinada a ampliar o conhecimento da população sobre as diferentes formas de violência, incentivar a denúncia e fortalecer a rede responsável pelo acolhimento e proteção das vítimas.
A programação ganha significado especial em 2026. Nesta sexta-feira, 7 de agosto, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Sancionada em 2006, a legislação modificou a forma como o Brasil enfrenta a violência doméstica e familiar, estabelecendo mecanismos de prevenção, medidas protetivas, atendimento especializado e instrumentos para responsabilização dos agressores.
Em Campo Largo, a campanha é coordenada pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e da Mulher e está conectada a uma política mais ampla de atendimento às mulheres, que envolve assistência social, segurança pública, saúde, sistema de Justiça e demais integrantes da rede municipal de proteção.
Números mostram dimensão do problema em Campo Largo
Mais do que uma campanha simbólica, o Agosto Lilás ocorre diante de indicadores que ajudam a dimensionar a violência doméstica no próprio município.
O diagnóstico elaborado para o Plano Municipal de Políticas Públicas para a Mulher 2026–2030 mostra que o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) realizou 46 acolhimentos iniciais em 2024 e 65 em 2025 relacionados às demandas acompanhadas pela rede.
O documento municipal também contabiliza 602 medidas protetivas de urgência em 2024 e 557 em 2025. No mesmo período, a Guarda Municipal realizou 558 atendimentos relacionados à Lei Maria da Penha em 2025, sendo 95 decorrentes de denúncias de violência doméstica. Esses atendimentos resultaram na prisão de 11 agressores, segundo os dados apresentados pelo município.
Outro instrumento utilizado em Campo Largo é o botão do pânico digital, disponível por meio do aplicativo 153 Cidadão. No diagnóstico divulgado pela Prefeitura neste ano, 62 mulheres com medidas protetivas vigentes estavam sendo atendidas pelo sistema.
Os números demonstram por que campanhas de conscientização continuam necessárias mesmo após duas décadas de avanços legislativos.
Mulheres entre 19 e 39 anos aparecem com maior incidência nos registros locais
O levantamento que embasa as políticas municipais aponta ainda que a maior incidência das situações de violência registradas em Campo Largo ocorre entre mulheres de 19 a 39 anos.
Segundo o diagnóstico municipal, fatores como dependência econômica ou emocional, medo de denunciar e naturalização de determinados comportamentos abusivos podem contribuir para a permanência das vítimas em relacionamentos violentos.
Esse é um dos motivos pelos quais o enfrentamento à violência não depende exclusivamente da atuação policial. Assistência social, autonomia econômica, acompanhamento psicológico, acesso à Justiça, saúde, educação e informação também fazem parte da estratégia de proteção.
Violência nem sempre deixa marcas visíveis
Um dos principais objetivos do Agosto Lilás é ajudar a população a reconhecer que violência doméstica não se resume à agressão física.
A Lei Maria da Penha prevê diferentes formas de violência. A legislação contempla violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral e, desde alteração promovida em 2026, passou também a prever expressamente a violência vicária — quando uma pessoa próxima, dependente ou integrante da rede de apoio da mulher é atingida como forma de provocar sofrimento à vítima.
Controle excessivo, ameaças, humilhações, perseguição, isolamento de amigos e familiares, retenção de dinheiro ou documentos, destruição de bens, coerção sexual, calúnia, difamação e agressões físicas são exemplos de comportamentos que podem configurar diferentes formas de violência.
A identificação precoce desses sinais é considerada fundamental para interromper ciclos de abuso antes que ocorram episódios ainda mais graves.
Rede municipal envolve diferentes serviços
Campo Largo organiza sua assistência social por meio de redes locais de proteção e equipamentos públicos distribuídos pelo território.
Os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) atuam principalmente na prevenção de situações de vulnerabilidade e no fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Quando já existe violação de direitos, o atendimento especializado passa pelo CREAS, que oferece acompanhamento psicossocial e articula encaminhamentos com outras políticas públicas.
A extensão territorial de Campo Largo torna essa estrutura especialmente relevante. O município possui mais de 1,2 mil quilômetros quadrados, o que exige ações descentralizadas para alcançar moradores tanto da área urbana quanto das comunidades mais afastadas.
O planejamento municipal para o período de 2026 a 2030 também estabelece metas relacionadas ao fortalecimento das políticas públicas para mulheres, autonomia econômica, atendimento às vítimas e articulação da rede de proteção.
Agosto Lilás é política nacional
O Agosto Lilás deixou de ser apenas uma mobilização promovida isoladamente por estados e municípios e tornou-se oficialmente uma campanha nacional com a Lei Federal nº 14.448, de 2022.
A norma determina que União, estados e municípios promovam durante agosto ações de conscientização e esclarecimento sobre as diferentes formas de violência contra a mulher, divulguem direitos, serviços existentes e mecanismos de denúncia e proteção.
Em 2024, a legislação foi ampliada para estimular novas iniciativas de conscientização em locais públicos e incorporar o chamado Projeto Banco Vermelho, símbolo utilizado para chamar atenção para o feminicídio e para a violência contra a mulher.
Lei Maria da Penha chega aos 20 anos com novas mudanças
Os 20 anos da Lei Maria da Penha também são marcados por novas alterações na legislação.
Somente em 2026 foram aprovadas normas que ampliaram instrumentos de proteção. Entre elas estão mudanças relacionadas à monitoração eletrônica de agressores, reconhecimento da violência vicária e ampliação das hipóteses de afastamento do agressor quando houver risco à integridade física, sexual, psicológica, moral ou patrimonial da mulher ou de seus dependentes.
A evolução da legislação demonstra que, mesmo duas décadas depois de sua criação, o sistema de proteção continua passando por aperfeiçoamentos para responder a novas situações identificadas na aplicação prática da lei.
Paraná registra redução nos feminicídios, mas violência doméstica permanece elevada
Os dados estaduais apresentam sinais positivos, mas também indicam que o problema continua exigindo atenção permanente.
Em janeiro de 2026, o Paraná registrou oito feminicídios, contra 13 no mesmo mês de 2025, uma redução próxima de 40%. Os registros de estupro também caíram de 549 para 430 no comparativo entre os dois períodos.
A redução da violência doméstica, entretanto, foi muito menor. Foram 6.687 ocorrências em janeiro de 2026, diante de 6.722 no mesmo mês do ano anterior — diferença inferior a 1%.
Os números reforçam que a diminuição dos casos mais extremos não elimina a necessidade de prevenção, acolhimento e intervenção nos milhares de episódios de violência registrados todos os meses.
Denunciar também é uma forma de proteger
A violência doméstica pode ser comunicada não apenas pela vítima, mas também por familiares, vizinhos ou qualquer pessoa que tenha conhecimento de uma situação de agressão ou risco.
A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 funciona gratuitamente 24 horas por dia e recebe denúncias, presta orientações sobre direitos e informa onde estão os serviços especializados de atendimento. Em situações de emergência, a orientação oficial é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo 190.
Em Campo Largo, a Guarda Municipal também pode ser acionada pelo 153 ou pelo aplicativo 153 Cidadão. O CREAS municipal integra a rede especializada para situações de violação de direitos.
Conscientização precisa continuar depois de agosto
O desafio das políticas públicas é fazer com que a mobilização promovida durante o Agosto Lilás produza efeitos durante todo o ano.
Identificar rapidamente os sinais de violência, garantir acolhimento à vítima, acelerar o acesso às medidas protetivas e oferecer condições para que a mulher conquiste autonomia são etapas fundamentais para interromper ciclos de agressão.
Em Campo Largo, os próprios dados municipais mostram que centenas de mulheres chegam anualmente aos serviços de segurança e assistência. Por isso, além de conscientizar, a campanha coloca em evidência a necessidade de uma rede pública preparada para responder quando uma vítima decide pedir ajuda.
Serviço — onde buscar ajuda
Central de Atendimento à Mulher: 180
Emergência / Polícia Militar: 190
Guarda Municipal de Campo Largo: 153 ou aplicativo 153 Cidadão
CREAS Campo Largo: atendimento especializado a pessoas e famílias em situação de violação de direitos. (Serviços e Informações do Brasil)
Portal Conexão Geral
Vinte anos depois da sanção da Lei Maria da Penha, os avanços são inegáveis, mas os números demonstram que o enfrentamento à violência contra a mulher continua sendo um desafio cotidiano. Informação, prevenção, acolhimento e resposta rápida das instituições precisam funcionar de maneira integrada. Romper o silêncio pode representar o primeiro passo para interromper um ciclo de violência — e garantir que a vítima encontre uma rede preparada para protegê-la.
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