Licença ambiental destrava terceira pista do Aeroporto Afonso Pena; obra terá investimento de R$ 800 milhões
Nova estrutura terá três quilômetros de extensão e poderá ampliar a operação de aeronaves cargueiras e voos internacionais de longa distância; prazo estimado de execução e homologação é de 28 meses

SÃO JOSÉ DOS PINHAIS (PR) — A construção da terceira pista do Aeroporto Internacional Afonso Pena avançou para uma etapa decisiva. O Instituto Água e Terra (IAT) emitiu nesta segunda-feira (10) a Licença de Instalação do empreendimento, autorização ambiental que permite à concessionária Motiva Aeroportos implantar o canteiro e começar a executar a obra.
O investimento estimado pela concessionária é de aproximadamente R$ 800 milhões. A nova pista terá 3 mil metros de comprimento e 45 metros de largura, além de acostamentos pavimentados de 7,5 metros em cada lado. O projeto é aguardado há mais de três décadas pelo setor produtivo e por lideranças políticas do Paraná.
Apesar da autorização, a movimentação de máquinas não começa automaticamente. A equipe de engenharia da Motiva ainda analisa as exigências previstas na licença para promover os ajustes necessários no projeto. A empresa responsável pela construção, entretanto, já foi contratada.
Obras e homologação devem levar 28 meses
A programação apresentada pela concessionária estabelece prazo estimado de 28 meses, considerando a execução da obra e o processo posterior de homologação perante os órgãos reguladores.
A nova previsão confirma que o cronograma contratual originalmente divulgado, que indicava a entrega até dezembro de 2026, não será cumprido. A demora na conclusão do licenciamento ambiental impediu que os trabalhos começassem dentro do prazo inicialmente planejado.
A Motiva estima que aproximadamente mil empregos diretos sejam gerados durante a construção.
A emissão da Licença de Instalação representa, portanto, o início de uma nova fase, mas não significa que a pista já esteja liberada para funcionamento. Depois da conclusão das intervenções, o empreendimento ainda dependerá da homologação aeronáutica e da emissão da Licença de Operação pelo IAT.
Nova pista terá três quilômetros
O Aeroporto Afonso Pena atualmente opera com duas pistas, de aproximadamente 1.800 e 2.200 metros. A nova estrutura será paralela à pista principal e terá dimensões suficientes para atender aeronaves de maior porte em operações de longa distância.
Além da pista de pousos e decolagens, o projeto prevê:
seis novas pistas de táxi para ligação com as demais áreas operacionais;
áreas de segurança nas extremidades da pista;
plataformas de contenção do jato dos motores nas duas cabeceiras;
sistemas de iluminação e auxílio à navegação;
estruturas de drenagem e vias internas de serviço;
adequações de segurança e proteção do perímetro aeroportuário.
A fiscalização das obras no âmbito da aviação civil caberá à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Altitude impõe restrições às aeronaves
Um dos principais objetivos da terceira pista é reduzir limitações provocadas pela localização do aeroporto, situado a cerca de 911 metros acima do nível do mar.
Em aeroportos de maior altitude, o ar menos denso pode exigir uma distância maior para que aeronaves pesadas consigam decolar com segurança. Dependendo das condições meteorológicas, do modelo do avião e do destino, isso pode obrigar as companhias a reduzir carga, passageiros ou combustível.
Com três quilômetros, a nova pista permitirá que aeronaves de grande porte operem com maior capacidade de combustível e carga, criando condições técnicas mais favoráveis para rotas internacionais de longa distância.
Isso, entretanto, não representa a confirmação imediata de novos voos para os Estados Unidos ou para outros destinos da Europa. A criação de uma rota também depende da estratégia comercial das companhias aéreas, da demanda de passageiros, de acordos operacionais e das autorizações dos órgãos reguladores.
Cargas e indústria regional
A ampliação é considerada estratégica para o setor produtivo da Região Metropolitana de Curitiba, especialmente para o eixo industrial formado por São José dos Pinhais, Curitiba, Araucária e Fazenda Rio Grande.
A nova estrutura poderá ampliar a capacidade de transporte de componentes, matérias-primas e produtos industrializados, reduzindo restrições para aeronaves cargueiras. O terminal de cargas do Afonso Pena já é apontado pela concessionária como o maior da Região Sul e o quinto maior do Brasil.
A expectativa é que a pista fortaleça a integração do Paraná com mercados internacionais, favoreça as exportações e importações e aumente a competitividade logística das empresas instaladas na região.
Turismo e conexões internacionais
O empreendimento também surge em um momento de ampliação da conectividade internacional do Paraná. Em julho de 2026, o Afonso Pena passou a contar com a ligação direta entre Curitiba e Lisboa, operada pela TAP.
A pista maior poderá criar condições para a chegada de outras operações intercontinentais e para o aumento da frequência dos voos existentes. A ampliação também interessa aos segmentos de turismo de negócios, eventos, feiras e congressos internacionais.
A infraestrutura aeroportuária, contudo, é apenas uma das condições necessárias. A viabilidade de cada ligação dependerá da procura, dos custos operacionais e das decisões das companhias.
Licença estabelece 41 condicionantes ambientais
A autorização emitida pelo IAT contém 41 condicionantes ambientais que deverão ser observadas durante a construção.
Entre as obrigações estão o monitoramento da fauna — incluindo os bugios identificados na área do empreendimento —, acompanhamento das águas subterrâneas, recuperação de áreas degradadas, controle da drenagem, gestão dos resíduos sólidos e prevenção de processos erosivos.
Também deverão ser monitorados os níveis de ruído, a qualidade do ar, as emissões de poeira e os possíveis impactos sobre os recursos hídricos. O cumprimento dessas exigências será determinante para a obtenção da futura Licença de Operação.
O projeto interfere ainda no sistema viário próximo ao aeroporto e envolve desapropriações e reconfiguração de acessos. O estudo ambiental identificou intervenções em trechos das ruas Antônio Môro, Constante Moro Sobrinho, Ernesto Montanarin e Dionísio Nabosne.
Estado prevê R$ 200 milhões em obras no entorno
Além dos R$ 800 milhões estimados para a construção da pista pela Motiva, o Governo do Paraná prevê aproximadamente R$ 200 milhões em intervenções complementares no entorno do aeroporto.
Os investimentos estaduais deverão ser executados em parceria com a Prefeitura de São José dos Pinhais e incluem rotatórias, alterações de acessos, sinalização e outras adequações do sistema viário.
Essas obras são necessárias para reorganizar a circulação nas comunidades atingidas e reduzir os impactos urbanos provocados pela ampliação do sítio aeroportuário.
Avanço histórico, mas fiscalização será essencial
A terceira pista representa uma mudança estrutural para a aviação paranaense e pode elevar a capacidade logística e internacional do Afonso Pena. A emissão da licença, porém, não encerra os desafios do empreendimento.
O prazo de 28 meses, o cumprimento das condicionantes ambientais, as desapropriações, as intervenções viárias e a homologação da estrutura precisarão ser acompanhados de forma transparente. Também será necessário assegurar que as obras compensatórias avancem no mesmo ritmo da construção aeroportuária, protegendo as comunidades diretamente afetadas.
Mais do que um anúncio, a terceira pista deverá ser avaliada pela capacidade de transformar o investimento previsto em infraestrutura efetivamente concluída, ambientalmente responsável e capaz de gerar desenvolvimento para toda a Região Metropolitana de Curitiba.
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