Ratinho Junior abre o jogo sobre 2026: fecha time no Paraná, mira mudança no Planalto e defende anistia e reforma do Judiciário
Em longa entrevista, governador confirmou Cristina Graeml ao Senado, reforçou Sandro Alex e Rafael Greca na sucessão estadual, declarou apoio a Caiado no primeiro turno e deixou claro que estará com a oposição caso Lula chegue ao segundo turno

CURITIBA — A pouco menos de dois meses do primeiro turno das eleições de 2026, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), colocou sobre a mesa nesta terça-feira (11) uma das manifestações políticas mais abrangentes de seu último ano à frente do Palácio Iguaçu.
Em entrevista ao programa Café com a Gazeta, Ratinho falou da sucessão estadual, da disputa presidencial, do futuro de seu grupo político, da candidatura de Sergio Moro (PL) ao governo, da composição para o Senado, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Supremo Tribunal Federal e das condenações relacionadas aos atos de 8 de janeiro.
Mais do que uma entrevista sobre o encerramento de seu mandato, a conversa revelou como Ratinho pretende permanecer no centro do tabuleiro político mesmo depois de deixar o Governo do Paraná.
Caiado no primeiro turno; oposição a Lula no segundo
No cenário nacional, Ratinho Junior reafirmou seu alinhamento com Ronaldo Caiado, nome do PSD para a disputa presidencial.
A posição partidária, entretanto, veio acompanhada de uma sinalização política clara: se Caiado não estiver no segundo turno e Lula avançar, Ratinho pretende apoiar o candidato que representar a oposição ao atual governo — inclusive Flávio Bolsonaro, caso seja ele o adversário do petista.
Ao explicar sua posição, Ratinho afirmou considerar necessária uma mudança de comando no país e fez uma crítica direta ao ciclo político liderado pelo PT.
“O PT já deu o que tinha que dar”, afirmou ao avaliar os governos petistas e defender uma mudança no comando federal.
A declaração ajuda a definir com maior precisão o posicionamento do governador nesta campanha. Apesar de PSD e PL estarem em campos diferentes no primeiro turno — inclusive como adversários diretos na disputa pelo Governo do Paraná — Ratinho sinaliza que essa divisão pode desaparecer numa eventual segunda etapa da eleição presidencial.
Na prática, ele estabelece duas fronteiras políticas: no primeiro turno, compromisso com o candidato de seu partido; no segundo, prioridade para a derrota de Lula caso Caiado não esteja na disputa.
Ratinho desistiu do Planalto, mas não saiu da política nacional
A entrevista também aprofundou uma questão que acompanhou Ratinho Junior durante boa parte do atual mandato: por que um governador cotado nacionalmente decidiu abandonar a possibilidade de concorrer à Presidência justamente quando seu nome ganhava projeção?
Ratinho relacionou a decisão a fatores pessoais e políticos. A opção permitiu maior dedicação à família e, ao mesmo tempo, participação direta na construção de uma candidatura que preserve o projeto político de seu grupo no Paraná.
A desistência, entretanto, não significa abandono de um projeto nacional.
Questionado sobre o que fará após deixar o Palácio Iguaçu, Ratinho não fechou as portas para uma eventual participação em um futuro governo federal alinhado ao projeto político que defende.
O governador afirmou que avaliaria uma possibilidade de colaboração caso entendesse que poderia contribuir, embora tenha ressaltado que “não faço política para ficar pensando em cargo”.
A declaração mantém aberta uma questão importante para os próximos anos: Ratinho pode ter desistido de disputar o Planalto em 2026, mas não descartou uma presença futura no cenário político nacional.
Sandro Alex e Greca: aposta na continuidade no Paraná
Dentro do Paraná, a estratégia é mais objetiva.
Sandro Alex, ex-secretário estadual de Infraestrutura e Logística, tornou-se o nome escolhido pelo grupo governista para disputar o Palácio Iguaçu. Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, integra a composição como candidato a vice.
A construção da chapa tenta reunir dois ativos políticos diferentes.
Sandro Alex representa diretamente a continuidade administrativa da gestão Ratinho Junior e carrega como principal vitrine sua passagem pela área de infraestrutura, uma das bandeiras centrais do atual governo.
Greca agrega experiência eleitoral, forte identificação com Curitiba e a estrutura política do MDB.
Para Ratinho, entretanto, a eleição estadual representa algo maior do que simplesmente escolher quem ocupará o Palácio Iguaçu a partir de 2027. Trata-se de testar sua capacidade de transformar a popularidade construída em dois mandatos em votos para um sucessor.
Esse será, provavelmente, o maior teste eleitoral de sua liderança no Paraná.
Ratinho confirma Cristina Graeml para o Senado
Uma das principais novidades da entrevista ocorreu na composição da chapa ao Senado.
Ratinho Junior confirmou a jornalista Cristina Graeml (PSD) como candidata de seu grupo para uma das duas vagas que estarão em disputa no Paraná, formando a dobradinha com Alexandre Curi (Republicanos).
“Ela é nossa candidata”, afirmou Ratinho ao confirmar a definição.
A confirmação encerra uma indefinição que vinha acompanhando as negociações entre os partidos da base governista.
Até o fim de julho, Alexandre Curi já contava com o apoio declarado do governador para uma vaga, enquanto o segundo espaço permanecia em negociação. Cristina Graeml e Alvaro Dias estavam entre os nomes considerados para completar a composição.
Com a definição anunciada nesta terça-feira, Ratinho passa a apresentar ao eleitorado praticamente todo o núcleo de sua chapa majoritária:
Governo do Paraná: Sandro Alex
Vice-governo: Rafael Greca
Senado: Alexandre Curi
Senado: Cristina Graeml
O movimento também evidencia uma tentativa de ampliar a capacidade eleitoral da coligação entre diferentes segmentos do eleitorado paranaense.
Moro virou o principal obstáculo ao projeto de continuidade
Se Sandro Alex é a aposta de Ratinho para a continuidade, Sergio Moro representa hoje um dos principais obstáculos eleitorais à estratégia do governador.
A relação política entre os dois ganhou tensão nos últimos dias.
Na véspera da entrevista, ao comentar a ausência de Moro no debate promovido pela Band, Ratinho afirmou que o senador conhece “muito pouco” o Paraná e criticou o que considera excesso de concentração do discurso do adversário na polarização nacional entre esquerda e direita.
A crítica de Ratinho é politicamente significativa porque tenta deslocar o eixo da campanha estadual.
Enquanto Moro construiu parcela importante de sua projeção pública nacional no combate à corrupção e no enfrentamento ao PT, o grupo governista tenta levar a campanha para temas como infraestrutura, desenvolvimento econômico, administração estadual e continuidade de projetos.
Há, portanto, uma disputa não apenas entre candidatos, mas sobre qual será o assunto central da eleição para governador.
Moro tende a nacionalizar o confronto.
Ratinho e Sandro Alex têm interesse em estadualizá-lo.
Essa diferença poderá definir grande parte da estratégia eleitoral das duas campanhas.
Uma eleição estadual cada vez mais conectada à presidencial
Existe, porém, uma aparente contradição na estratégia de Ratinho.
Ao mesmo tempo em que critica a importação excessiva da polarização nacional para a eleição paranaense, o próprio governador assume posição bastante clara na disputa presidencial e estabelece como prioridade política impedir a continuidade do PT no Palácio do Planalto.
Isso faz com que os dois tabuleiros inevitavelmente se cruzem.
No Paraná, Sandro Alex enfrentará Sergio Moro, integrante do PL e aliado do projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
Nacionalmente, Ratinho admite apoiar justamente Flávio em um eventual segundo turno contra Lula, caso Ronaldo Caiado não avance.
A situação revela uma característica importante das eleições de 2026: adversários estaduais poderão tornar-se aliados no plano nacional poucas semanas depois.
STF: Ratinho rejeita personalização do conflito
Outro trecho relevante da entrevista ocorreu quando o governador foi questionado sobre o Supremo Tribunal Federal e o equilíbrio entre os Poderes.
Ratinho não concentrou sua resposta na defesa do impeachment de um determinado ministro. Em vez disso, argumentou que o problema deveria ser enfrentado institucionalmente, por meio de uma reforma mais ampla do Judiciário.
Para o governador, concentrar toda a discussão em uma única autoridade reduz o debate sobre questões estruturais.
Ele defendeu que uma reforma estabeleça maior equilíbrio entre os Poderes, redefina limites institucionais e enfrente distorções existentes na própria estrutura do sistema judicial.
Ratinho também criticou remunerações extraordinárias e os chamados “penduricalhos” pagos no Judiciário, classificando como incompatíveis com a realidade da sociedade valores que fazem remunerações mensais atingirem cifras extremamente elevadas.
A posição coloca Ratinho em uma linha diferente de setores da oposição que concentram sua estratégia política diretamente no afastamento de ministros específicos do Supremo.
Para ele, trocar personagens sem alterar as estruturas não resolveria a questão.
“Sou a favor da anistia”
Sobre os condenados pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, Ratinho foi categórico:
“Sou a favor da anistia.”
O governador classificou os acontecimentos como atos de vandalismo e sustentou que as punições precisam observar proporcionalidade.
Defendeu ainda que o Congresso avance na discussão sobre uma solução política para o tema, argumentando que o país precisa superar o conflito e voltar sua atenção para outros desafios nacionais.
A declaração aproxima Ratinho de uma das principais bandeiras atuais da direita brasileira e representa uma posição política mais explícita do que a postura cautelosa que adotou em diferentes momentos de sua projeção nacional.
Do perfil moderado a posições mais claras
As declarações desta terça também indicam uma mudança importante na comunicação política do governador.
Ratinho Junior construiu grande parte de sua imagem evitando confrontos nacionais mais intensos e privilegiando temas administrativos, desenvolvimento econômico, infraestrutura e indicadores do Paraná.
Na entrevista, porém, apresentou posições políticas muito mais definidas.
Manifestou oposição à continuidade de Lula.
Admitiu apoiar Flávio Bolsonaro em um segundo turno.
Defendeu anistia.
Propôs reforma estrutural do Judiciário.
Criticou privilégios existentes no sistema judicial.
Definiu seu sucessor estadual.
Confirmou os dois nomes de seu grupo ao Senado.
E manteve aberta a possibilidade de participar da política nacional depois de encerrar o mandato.
O conjunto dessas manifestações mostra um governador menos interessado em permanecer fora das grandes controvérsias nacionais e mais disposto a marcar posição.
Ratinho disputa também o próprio legado
Por trás de toda a engenharia eleitoral existe outro elemento: o futuro político do próprio Ratinho Junior.
Depois de dois mandatos no comando do Paraná, a eleição de 2026 determinará não apenas quem será o próximo governador, mas qual será o tamanho da influência política que Ratinho carregará ao deixar o Palácio Iguaçu.
Eleger Sandro Alex significaria preservar o controle político do grupo sobre o governo estadual e dar ao atual governador uma poderosa plataforma para projetos futuros.
Eleger também os nomes apoiados para o Senado ampliaria essa influência em Brasília.
Uma derrota de seu candidato ao governo, por outro lado, encerraria o mandato com uma ruptura no projeto de continuidade.
É nesse contexto que as eleições deste ano assumem dimensão pessoal para Ratinho mesmo sem seu nome aparecer como candidato.
O xadrez montado por Ratinho
A estratégia apresentada pelo governador pode ser resumida em quatro movimentos.
No Paraná, Sandro Alex e Rafael Greca representam a continuidade administrativa.
Para o Senado, Alexandre Curi e Cristina Graeml ampliam a chapa governista.
Na Presidência, Ronaldo Caiado recebe o apoio de Ratinho no primeiro turno.
E num eventual segundo turno sem Caiado, o governador deixa antecipadamente estabelecida a disposição de apoiar o candidato de oposição a Lula.
Ratinho Junior não estará na urna em outubro, mas poucas lideranças paranaenses terão tanto em jogo quanto ele.
A eleição determinará se o governador encerra oito anos de mandato apenas como uma liderança estadual bem avaliada ou se consegue transformar sua gestão em um projeto político capaz de sobreviver a sua saída do Palácio Iguaçu e projetá-lo para um novo capítulo da política nacional.
Mais do que escolher sucessores, Ratinho Junior começou a disputar nesta terça-feira o tamanho do espaço político que pretende ocupar depois de 2026.
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