Michelle Bolsonaro diz que crise com Flávio é “página virada” e sinaliza união para eleições de 2026
Ex-primeira-dama afirma não guardar mágoas, admite que desgaste poderia ter sido evitado e participa de agenda com Flávio Bolsonaro após semanas de tensão dentro do PL

BRASÍLIA — A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) afirmou nesta terça-feira (11) que considera superada a crise política e familiar que protagonizou com o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). Depois de semanas de divergências públicas, Michelle adotou um discurso de reconciliação, defendeu a união do grupo político e participou de atividades ao lado do enteado.
A declaração ocorreu após um encontro entre os dois em Brasília e representa uma mudança significativa no ambiente interno do bolsonarismo às vésperas do período mais intenso da campanha eleitoral de 2026.
“Não vamos polarizar. Um dia de cada vez, a gente está se ajustando, mas eu não guardo mágoa de ninguém. Poderia ter evitado esse desgaste, e aconteceu o que vocês já sabem, mas agora é página virada”, declarou Michelle.
Ela concluiu a fala defendendo a reunificação do grupo:
“Agora, todos unidos, vamos trabalhar para a gente resgatar o nosso Brasil.”
“Qual família não tem problema?”
Questionada sobre as divergências dentro da família Bolsonaro, Michelle tentou reduzir o peso político do episódio e tratou o desentendimento como algo presente em qualquer núcleo familiar.
“Qual família não tem problema?”, afirmou.
A resposta ocorre depois de um período em que a relação entre Michelle e Flávio ultrapassou os bastidores e passou a ser discutida publicamente.
Michelle havia demonstrado insatisfação com decisões tomadas dentro do grupo político e chegou a deixar a presidência nacional do PL Mulher. A crise provocou preocupação entre dirigentes partidários porque a ex-primeira-dama construiu, nos últimos anos, uma base própria de influência principalmente entre mulheres e no segmento evangélico.
A divergência também ganhou importância porque Flávio Bolsonaro depende da reunificação das diferentes alas do bolsonarismo para ampliar sua competitividade na disputa presidencial.
Michelle preferia uma mulher como vice de Flávio
Outro ponto relevante da entrevista foi a escolha do candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.
Michelle confirmou que tinha preferência pela presença de uma mulher na composição.
A campanha, entretanto, escolheu o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e ex-procurador-geral de Justiça do estado.
A escolha de Gaspar foi anunciada em 5 de agosto e surpreendeu parte do meio político, pois durante semanas dirigentes e integrantes da campanha mencionaram a possibilidade de uma mulher completar a chapa presidencial.
Mesmo admitindo a preferência feminina, Michelle adotou um tom conciliador e disse esperar que Alfredo Gaspar tenha atenção especial às mulheres e, particularmente, às mães atípicas.
A indicação de Gaspar também possui um componente estratégico. O parlamentar ganhou projeção nacional ao atuar em investigações relacionadas ao INSS e pode ajudar a campanha a fortalecer o discurso de combate à corrupção e segurança pública, além de ampliar a presença da candidatura no Nordeste.
Encontro vira também gesto de campanha
A reconciliação não ficou apenas nas declarações.
Michelle e Flávio participaram de gravações de material destinado à campanha eleitoral. A ex-primeira-dama, que é candidata ao Senado pelo Distrito Federal, deverá integrar algumas das peças de comunicação do candidato presidencial.
A presença de Michelle é considerada politicamente importante principalmente pela capacidade que ela possui de dialogar com dois segmentos eleitorais estratégicos: mulheres e evangélicos.
A tentativa de recomposição ocorre em um momento no qual Flávio busca reduzir a distância para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Pesquisa CNT/MDA divulgada nesta terça-feira mostra Lula com 48% e Flávio com 39,1% em uma eventual disputa de segundo turno. Em levantamento anterior, realizado em junho, Lula aparecia com 49,3% contra 36,8% de Flávio, indicando diminuição da diferença entre os dois.
No primeiro turno da pesquisa atual, Lula aparece com 42,4%, enquanto Flávio registra 28,7%.
O levantamento ouviu 2.002 pessoas em 140 municípios entre os dias 5 e 9 de agosto e possui margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
Oração e discurso religioso também marcam reencontro
Além das declarações políticas, Michelle voltou a utilizar a linguagem religiosa que se tornou uma de suas principais características públicas.
Durante evento ao lado de Flávio, a ex-primeira-dama realizou uma oração e afirmou que o Brasil precisa de “homens e mulheres de bem” ocupando posições de poder.
Segundo ela, as pessoas que exercem funções públicas devem compreender que são instrumentos para cuidar especialmente daqueles que mais necessitam.
Michelle também declarou que acredita que Deus entregou a responsabilidade de governar aos “homens de bem”.
O componente religioso tem presença constante em sua atuação política e ajuda a explicar parte de sua influência junto ao eleitorado cristão, especialmente entre os evangélicos.
Jair Bolsonaro permanece como principal referência do grupo
Mesmo com Flávio oficialmente candidato à Presidência, Jair Bolsonaro continua sendo a principal referência política e simbólica do grupo.
Durante o encontro desta terça-feira, houve menções ao ex-presidente e uma oração foi realizada por sua situação.
Flávio foi oficializado candidato presidencial pelo PL durante convenção realizada em julho, enquanto Michelle teve sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal oficializada no início de agosto.
A aproximação entre os dois, portanto, possui um significado que ultrapassa a relação familiar.
Ela representa uma tentativa de reconstrução da unidade política em torno do eleitorado que permanece identificado com Jair Bolsonaro.
Reconciliação tem peso eleitoral
Politicamente, a declaração de “página virada” pode ser considerada uma das mais importantes sinalizações recentes dentro da campanha de Flávio.
A exposição pública da crise criava duas dificuldades.
A primeira era transmitir ao eleitorado a percepção de fragmentação dentro do próprio grupo político.
A segunda — e possivelmente mais delicada — envolvia o eleitorado feminino.
Michelle possui capital político próprio e construiu sua atuação partidária justamente por meio de agendas voltadas às mulheres. Um eventual afastamento dela da campanha presidencial poderia dificultar a tentativa de Flávio de reduzir sua rejeição entre eleitoras.
A participação conjunta em gravações eleitorais mostra que, pelo menos publicamente, a estratégia agora será demonstrar unidade.
Se a reconciliação permanecer durante toda a campanha, Michelle deverá desempenhar papel importante na tentativa de ampliar a presença de Flávio entre mulheres, conservadores e evangélicos.
Um novo capítulo dentro do bolsonarismo
A entrevista desta terça-feira não apaga as divergências que ficaram públicas nas últimas semanas.
Mas modifica o cenário político.
Ao declarar que não guarda mágoas e que considera o episódio encerrado, Michelle sinaliza que pretende deslocar o foco da disputa familiar para a campanha eleitoral.
Para Flávio Bolsonaro, a reconciliação acontece em momento oportuno: as pesquisas indicam crescimento na comparação com levantamentos anteriores, mas ele ainda precisa ampliar significativamente sua votação para ameaçar a liderança de Lula.
Para Michelle, a participação na campanha também permite preservar protagonismo político enquanto disputa uma das vagas do Distrito Federal no Senado.
A partir de agora, a questão central será saber se a frase “página virada” representará efetivamente o encerramento das divergências ou apenas uma trégua necessária diante da proximidade das eleições.
No tabuleiro de 2026, contudo, a fotografia desta terça-feira é clara: Michelle e Flávio decidiram aparecer novamente no mesmo lado.
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