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Rússia diz estar aberta a novas propostas de paz para Ucrânia, mas impõe condições

Moscou afirma que está disposta a ouvir novas iniciativas para encerrar a guerra, mas exige que eventual acordo considere a atual situação territorial; Estados Unidos tentam reativar negociações enquanto combates continuam

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MOSCOU — A Rússia sinalizou nesta sexta-feira, 21 de agosto, que está disposta a analisar novas propostas para tentar encerrar a guerra contra a Ucrânia, mas deixou claro que qualquer iniciativa terá de considerar o que Moscou chama de “realidades no terreno”.

A declaração foi feita pelo vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, em entrevista divulgada nesta sexta-feira.

Segundo o diplomata, o governo russo continua aberto ao diálogo e considera que os Estados Unidos demonstraram disposição para uma conversa construtiva sobre uma possível saída para o conflito.

A sinalização, entretanto, está longe de representar um acordo de paz.

Moscou continua condicionando uma solução às suas exigências políticas, militares e territoriais, enquanto a Ucrânia rejeita reconhecer como russas as áreas ocupadas durante a guerra.

A Rússia controla atualmente aproximadamente 20% do território ucraniano internacionalmente reconhecido, incluindo a Crimeia, anexada em 2014, e regiões ocupadas depois da invasão em grande escala iniciada em fevereiro de 2022.

Rússia diz estar preparada para ouvir novas propostas

Ryabkov afirmou que Moscou pode considerar novas ideias que busquem uma solução para a guerra.

A condição apresentada pelo governo russo é que essas propostas reflitam a situação existente no campo de batalha e os objetivos defendidos pelo presidente Vladimir Putin.

Na prática, esse é um dos maiores obstáculos para qualquer negociação.

A Ucrânia sustenta que a ocupação de seu território é ilegal e que um acordo não pode simplesmente legitimar áreas tomadas pela força.

Moscou, por sua vez, exige que qualquer negociação considere a realidade territorial criada depois de mais de quatro anos de guerra em grande escala.

Moscou coloca pressão sobre os Estados Unidos

O vice-chanceler russo também atribuiu aos Estados Unidos papel decisivo para uma eventual retomada das negociações.

Ryabkov afirmou que Washington demonstra compreender parte das posições russas, mas questionou até que ponto o governo norte-americano conseguirá influenciar as decisões de Kiev e dos países europeus que apoiam a Ucrânia.

A declaração faz parte da disputa diplomática em torno das responsabilidades pelo impasse.

Enquanto Moscou acusa Ucrânia e Europa de impedirem avanços, Kiev argumenta que é a Rússia que precisa demonstrar disposição concreta para interromper os ataques e negociar uma paz duradoura.

Negociações diretas estão praticamente paralisadas

Os esforços diplomáticos perderam força nos últimos meses.

As últimas negociações diretas de maior relevância entre representantes russos e ucranianos ocorreram em fevereiro, enquanto os Estados Unidos tentavam exercer papel de mediador.

Desde então, o processo sofreu sucessivas interrupções.

A crescente atenção de Washington à guerra envolvendo o Irã também reduziu o espaço político destinado às negociações entre Rússia e Ucrânia.

Mesmo assim, o governo do presidente norte-americano Donald Trump continua afirmando que deseja mediar um acordo.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, já reconheceu que uma solução rápida para a guerra é improvável.

Ucrânia apresentou propostas aos Estados Unidos

Kiev também tenta manter aberta a via diplomática.

Em 11 de agosto, o presidente Volodymyr Zelensky informou que a Ucrânia havia apresentado aos negociadores norte-americanos propostas próprias para encerrar a guerra.

Os detalhes completos do documento não foram divulgados.

Zelensky afirmou, entretanto, que os Estados Unidos poderiam desempenhar papel importante tanto nas negociações quanto no fortalecimento da defesa aérea ucraniana e no aumento da pressão internacional sobre a Rússia.

Entre os interlocutores envolvidos na diplomacia norte-americana estão Steve Witkoff e Jared Kushner.

Nesta sexta-feira, Moscou informou que ainda não havia novidades sobre possíveis novas visitas dos representantes norte-americanos à Rússia.

Guerra continua enquanto diplomatas falam em paz

O contraste entre as declarações diplomáticas e o campo de batalha permanece evidente.

Nesta semana, ataques russos contra Kiev e outras regiões da Ucrânia deixaram 17 mortos e mais de 40 feridos, segundo autoridades ucranianas.

Edifícios residenciais e outras estruturas foram atingidos.

Zelensky voltou a cobrar de aliados ocidentais maior fornecimento de sistemas e interceptadores de defesa aérea Patriot, argumentando que a escassez dessas armas está aumentando o número de vítimas dos ataques russos.

Moscou afirma que suas operações têm como alvo instalações relacionadas à capacidade militar da Ucrânia.

A Ucrânia, por outro lado, também intensificou ataques de drones contra alvos dentro do território russo, principalmente estruturas ligadas à logística, energia e capacidade militar.

Troca de prisioneiros mostra que algum diálogo permanece

Mesmo com as negociações políticas praticamente paralisadas, Rússia e Ucrânia continuam mantendo canais para determinados acordos humanitários.

Na quarta-feira, 19, os dois países realizaram uma nova troca de prisioneiros de guerra.

Cada lado libertou 103 militares, permitindo que 206 pessoas retornassem aos seus respectivos países.

Novas trocas estão previstas.

Esses acordos são um dos poucos exemplos concretos de cooperação entre os dois governos desde que as tentativas de uma negociação mais ampla perderam força.

O que significa “realidades no terreno”

A expressão utilizada por Ryabkov merece atenção porque está no centro da divergência.

Quando autoridades russas afirmam que qualquer acordo precisa considerar as “realidades no terreno”, fazem referência principalmente às mudanças territoriais ocorridas durante o conflito.

A Rússia reivindica soberania sobre regiões ucranianas ocupadas durante a guerra.

A Ucrânia e grande parte da comunidade internacional não reconhecem essas anexações.

Esse conflito de posições cria uma questão fundamental para qualquer negociação:

um cessar-fogo congelaria as atuais linhas militares ou seria acompanhado de uma definição sobre o futuro dos territórios ocupados?

Até agora não há consenso.

Ucrânia não aceita imposição territorial

Para Kiev, reconhecer formalmente a perda de territórios representaria uma concessão política extremamente sensível e poderia criar um precedente internacional.

O governo ucraniano defende que qualquer paz precisa preservar a soberania e oferecer garantias de segurança capazes de impedir uma nova ofensiva russa no futuro.

Moscou argumenta, por outro lado, que suas preocupações de segurança e suas reivindicações territoriais precisam fazer parte de qualquer acordo definitivo.

É justamente essa distância entre as posições que tem impedido um avanço substancial.

Estados Unidos permanecem no centro da tentativa de mediação

Washington continua sendo o ator externo com maior capacidade de influenciar o processo.

Os Estados Unidos fornecem apoio militar à Ucrânia e, ao mesmo tempo, mantêm canais diplomáticos com Moscou.

O governo Trump tenta utilizar essa posição para negociar algum tipo de entendimento.

No entanto, a guerra contra o Irã e outras crises internacionais passaram a disputar a atenção política e diplomática norte-americana, reduzindo o ritmo das iniciativas relacionadas à Ucrânia.

Mais de quatro anos de guerra

A invasão russa em grande escala começou em 24 de fevereiro de 2022.

Desde então, centenas de milhares de militares dos dois lados morreram ou ficaram feridos, milhões de ucranianos foram deslocados e extensas áreas do país foram destruídas.

Não existe um número independente e definitivo de baixas militares, já que Rússia e Ucrânia tratam muitos desses dados como informações estratégicas.

A guerra também provocou impactos internacionais sobre energia, alimentos, gastos militares e relações entre Rússia e países ocidentais.

Sinalização é importante, mas ainda não representa avanço concreto

A declaração russa desta sexta-feira representa uma abertura retórica para novas propostas, mas não significa que uma negociação formal tenha sido retomada ou que exista um acordo próximo.

Moscou continua apresentando condições que Kiev considera inaceitáveis.

A Ucrânia continua buscando apoio militar e diplomático para melhorar sua posição antes de qualquer entendimento.

E os Estados Unidos tentam encontrar um espaço de negociação entre exigências ainda muito distantes.

Por isso, o principal fato desta sexta-feira não é a existência de um novo acordo, mas a sinalização de Moscou de que aceita voltar a discutir propostas — desde que elas levem em consideração os objetivos russos e a atual configuração territorial da guerra.

O próximo passo dependerá de uma eventual nova rodada de contatos entre Washington, Moscou e Kiev.


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