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Há 35 anos, a World Wide Web começava a mudar o mundo

Marco celebrado neste 23 de agosto remete à chegada da Web aos usuários fora do CERN; criada por Tim Berners-Lee, tecnologia transformou informação, comunicação, comércio, educação e a própria maneira como a humanidade se relaciona

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TECNOLOGIA — Para bilhões de pessoas, abrir um navegador, clicar em um link, ler uma notícia, assistir a um vídeo, comprar um produto ou acessar um serviço público é um gesto tão cotidiano que parece ter existido desde sempre. Mas há apenas 35 anos a World Wide Web começava a deixar os laboratórios para alcançar usuários em outras partes do mundo.

Neste domingo, 23 de agosto de 2026, é lembrado o chamado Dia do Internauta, uma data associada à expansão pública da Web em agosto de 1991. Foi naquele período que o projeto desenvolvido pelo cientista britânico Tim Berners-Lee, no CERN, na Suíça, começou efetivamente a ultrapassar os limites da comunidade científica e a alcançar uma audiência internacional.

A história, entretanto, exige uma distinção importante: a Web não surgiu em um único dia.

O primeiro anúncio público mais amplo feito por Berners-Lee ocorreu em 6 de agosto de 1991, quando ele apresentou o projeto WorldWideWeb no grupo de discussão alt.hypertext e explicou como interessados poderiam acessar o software. O W3C registra que a associação do 23 de agosto ao Dia do Internauta surgiu porque novos usuários começaram a acessar a Web naquele período.

Era o começo de uma revolução silenciosa.

A necessidade de organizar conhecimento deu origem à Web

A World Wide Web nasceu dentro do CERN, Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, um dos maiores centros científicos do mundo.

Em 1989, Tim Berners-Lee enfrentava um problema aparentemente simples: pesquisadores de diferentes universidades, países e sistemas computacionais precisavam compartilhar informações, documentos e resultados científicos, mas os dados estavam distribuídos em máquinas e formatos diferentes.

Sua proposta foi construir um sistema universal no qual documentos pudessem ser conectados uns aos outros por meio de hiperlinks.

A ideia inicial foi apresentada em março de 1989. Em novembro de 1990, Berners-Lee e o engenheiro belga Robert Cailliau formalizaram uma proposta para um projeto chamado WorldWideWeb, baseado em uma rede de documentos de hipertexto acessíveis por navegadores.

O princípio era poderoso justamente por sua simplicidade: um documento poderia apontar para outro, localizado até mesmo em outro computador, e o usuário poderia navegar entre eles.

É o conceito que continua sustentando a Web atual.

HTML, HTTP e URL: as peças que ainda sustentam a Web

Para fazer o sistema funcionar, Berners-Lee desenvolveu tecnologias que continuam fundamentais mais de três décadas depois.

Entre elas estavam:

  • HTML — HyperText Markup Language: linguagem utilizada para estruturar páginas da Web;
  • HTTP — Hypertext Transfer Protocol: protocolo que permite a comunicação e transferência de recursos entre servidores e usuários;
  • URI, posteriormente popularizada por meio das URLs: sistema de identificação e localização dos recursos disponíveis na Web.

Berners-Lee também desenvolveu o primeiro servidor Web e o primeiro navegador/editor, chamado inicialmente de WorldWideWeb, utilizando um computador NeXT.

A combinação dessas tecnologias criou algo que até hoje define a experiência digital: um endereço, um servidor, uma página e links capazes de conectar documentos espalhados pelo planeta.

O primeiro servidor da história

O primeiro servidor Web do mundo funcionava em uma estação de trabalho NeXT, instalada no escritório de Tim Berners-Lee no CERN.

A importância daquela máquina era tamanha que uma anotação foi colocada sobre o computador advertindo que ele não deveria ser desligado, porque se tratava de um servidor.

Foi nele que funcionou o endereço info.cern.ch, reconhecido pelo CERN como o primeiro site e primeiro servidor Web da história. A página apresentava o próprio projeto World Wide Web e fornecia informações sobre hipertexto, criação de páginas e utilização do sistema.

Naquele momento, praticamente ninguém poderia imaginar que páginas semelhantes se multiplicariam aos bilhões e se tornariam parte da infraestrutura econômica, política, cultural e social do planeta.

Março de 1991: a Web começa a sair do computador de Berners-Lee

Em março de 1991, um navegador mais simples, conhecido como line-mode browser, passou a ser disponibilizado para usuários dos computadores centrais do CERN.

O programa, desenvolvido por Nicola Pellow, tinha uma vantagem decisiva: poderia funcionar em diferentes tipos de computador, ao contrário da primeira versão gráfica, restrita às máquinas NeXT.

Isso tornou a tecnologia muito mais fácil de disseminar.

Em maio daquele ano houve uma liberação mais ampla nos sistemas centrais do CERN. Em junho, o projeto foi apresentado em um seminário da instituição.

Então chegou agosto.

Agosto de 1991: a Web encontra o mundo

Em 6 de agosto de 1991, Tim Berners-Lee publicou uma mensagem no grupo alt.hypertext, uma espécie de fórum de discussão da Internet da época.

Ali, apresentou o projeto WorldWideWeb e convidou outras pessoas a experimentá-lo e colaborar com seu desenvolvimento.

Nos dias seguintes, informações e arquivos foram distribuídos por FTP e divulgados em diferentes grupos de discussão da Internet. Registros históricos do W3C mostram publicações em 6, 19, 20 e 22 de agosto, ampliando progressivamente o alcance do projeto.

É nesse contexto que 23 de agosto passou a ser lembrado como Dia do Internauta.

Portanto, tecnicamente, não é correto afirmar que a Web simplesmente “nasceu em 23 de agosto”. A invenção é de 1989, o primeiro sistema já funcionava em 1990, a divulgação pública aconteceu durante agosto de 1991 e o dia 23 tornou-se um marco simbólico da entrada dos usuários externos nessa nova realidade.

Web e Internet não são a mesma coisa

Outra confusão histórica permanece comum até hoje: Internet e World Wide Web não são sinônimos.

A Internet é a infraestrutura global de redes que permite que computadores se comuniquem. Sua história começou décadas antes da Web.

A Web é um dos serviços que funciona sobre essa infraestrutura.

E-mail, FTP e outras aplicações já utilizavam a Internet antes que a World Wide Web existisse. O que Berners-Lee criou foi uma forma padronizada, interligada e extremamente acessível de organizar e navegar por informações utilizando páginas, endereços e hiperlinks.

Em outras palavras: a Internet é a rede; a Web é uma das principais maneiras pelas quais utilizamos essa rede.

1993: a decisão que permitiu à Web conquistar o planeta

Se agosto de 1991 marcou a abertura do projeto para uma comunidade muito maior, outra decisão foi decisiva para que a Web se transformasse no fenômeno mundial conhecido atualmente.

Em 30 de abril de 1993, o CERN declarou que a tecnologia World Wide Web poderia ser utilizada por qualquer pessoa sem pagamento de royalties à instituição.

O código foi colocado em domínio público e posteriormente disponibilizado sob licença aberta.

Essa decisão permitiu que desenvolvedores, universidades e empresas criassem servidores, navegadores e páginas sem depender do pagamento de uma licença proprietária ao CERN.

Foi uma escolha determinante.

Se a Web tivesse permanecido fechada ou submetida a taxas de utilização, sua história poderia ter sido completamente diferente.

Mosaic tornou a navegação mais acessível

A expansão acelerou ainda mais em 1993 com o surgimento do navegador Mosaic, desenvolvido no National Center for Supercomputing Applications, nos Estados Unidos.

O programa ajudou a tornar a navegação gráfica muito mais acessível.

Segundo a cronologia do W3C, no início de 1993 havia aproximadamente 50 servidores HTTP conhecidos. Em outubro daquele mesmo ano, já eram mais de 200.

No ano seguinte surgiria a empresa que posteriormente seria conhecida como Netscape, levando os navegadores ainda mais profundamente ao mercado de computadores pessoais.

Também em 1994, Tim Berners-Lee fundaria o World Wide Web Consortium, o W3C, organização criada para desenvolver padrões abertos e garantir que diferentes tecnologias continuassem interoperáveis na Web.

Da primeira página a uma sociedade conectada

A evolução ocorrida em apenas 35 anos é difícil de comparar com praticamente qualquer outra tecnologia de comunicação.

A Web passou de um projeto utilizado por pesquisadores de física para uma plataforma sobre a qual funcionam:

  • portais de notícias;
  • redes sociais;
  • comércio eletrônico;
  • bancos;
  • universidades;
  • sistemas de saúde;
  • serviços governamentais;
  • plataformas de entretenimento;
  • mecanismos de busca;
  • comunicação empresarial;
  • serviços de vídeo e áudio;
  • aplicações de inteligência artificial.

Ela também transformou profundamente o jornalismo.

Antes da Web, jornais, emissoras de rádio e televisão operavam predominantemente dentro de limites físicos ou geográficos. Com a comunicação digital, uma informação publicada em uma cidade pode ser acessada praticamente de imediato em qualquer parte do mundo.

O conceito de audiência deixou de ser apenas local.

Seis bilhões de pessoas conectadas

A dimensão da revolução pode ser medida pelos números atuais.

Segundo a União Internacional de Telecomunicações, aproximadamente 6 bilhões de pessoas utilizavam a Internet em 2025, equivalentes a cerca de 74% da população mundial.

Apesar da dimensão alcançada, aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas permaneciam desconectadas.

É importante novamente separar os conceitos: esses são números de usuários da Internet, e não exclusivamente da Web. Mas demonstram a escala do ecossistema digital dentro do qual a World Wide Web se tornou uma das tecnologias mais importantes.

A própria UIT aponta que as desigualdades ainda são expressivas. Em países de alta renda, 94% da população utilizava a Internet em 2025, contra apenas 23% nos países de baixa renda. Nas áreas urbanas, a taxa mundial chegava a 85%, enquanto nas áreas rurais era de 58%.

A revolução digital, portanto, ainda não alcançou todos igualmente.

Da Web estática à inteligência artificial

A primeira Web era composta essencialmente por documentos e hiperlinks.

Depois vieram páginas gráficas, mecanismos de pesquisa, comércio eletrônico, blogs, redes sociais, streaming, aplicações executadas dentro do navegador e serviços armazenados em nuvem.

Agora, a Web atravessa outra transformação provocada pela inteligência artificial generativa.

Sistemas capazes de interpretar textos, imagens, vídeos e voz estão alterando novamente a forma como informações são encontradas, produzidas e distribuídas.

A discussão contemporânea já não é apenas sobre como acessar uma página, mas sobre como algoritmos interpretam uma enorme quantidade de conteúdo disponível na rede e entregam respostas diretamente aos usuários.

Nesse cenário, questões como privacidade, proteção de dados, desinformação, direitos autorais, segurança cibernética, concentração de plataformas e transparência dos algoritmos passaram a ocupar lugar central.

Uma invenção que alterou também a democracia

A Web não transformou apenas tecnologia e economia.

Governos passaram a disponibilizar serviços eletrônicos. Campanhas eleitorais migraram para o ambiente digital. Movimentos sociais passaram a se organizar em rede. Cidadãos ganharam novas ferramentas de fiscalização, participação e denúncia.

Ao mesmo tempo, a mesma infraestrutura que ampliou o acesso à informação abriu espaço para novos problemas.

Fake news, golpes digitais, manipulação informacional, discurso de ódio, ataques cibernéticos e utilização indevida de dados demonstram que a tecnologia não elimina conflitos sociais: frequentemente, apenas os transporta para um novo ambiente.

Por isso, o desafio dos próximos anos não será apenas manter o mundo conectado, mas construir uma Web aberta, segura, confiável e acessível.

O princípio que tornou tudo possível

Talvez um dos aspectos mais importantes da história esteja na decisão de manter os padrões fundamentais da Web abertos.

Um site criado no Brasil pode ser acessado por um navegador desenvolvido nos Estados Unidos, utilizando um servidor instalado na Europa e transmitindo informações para um telefone fabricado na Ásia.

Essa interoperabilidade não aconteceu por acaso.

Ela nasceu do princípio de que a Web deveria funcionar como um espaço universal.

O W3C continua trabalhando justamente na elaboração desses padrões abertos e define sua missão como fazer a Web funcionar para todos.

35 anos depois

Em 1991, acessar a World Wide Web exigia conhecimentos técnicos e computadores que estavam longe da realidade da maioria da população.

Em 2026, uma criança com um smartphone pode tocar uma tela e acessar em segundos informações armazenadas no outro lado do planeta.

Uma empresa pode vender para clientes que nunca entraram fisicamente em sua loja.

Uma aula pode reunir professor e aluno separados por milhares de quilômetros.

Uma notícia local pode ganhar repercussão internacional.

Uma transmissão de rádio ou televisão pode chegar ao mundo inteiro sem depender exclusivamente de antenas terrestres.

Tudo isso nasceu de uma ideia fundamental: informações deveriam poder ser conectadas umas às outras e acessadas de maneira universal.

Trinta e cinco anos depois daquele agosto de 1991, a World Wide Web deixou de ser apenas uma invenção tecnológica.

Tornou-se parte da infraestrutura da vida contemporânea — e uma das maiores transformações na história da comunicação humana.


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