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600 dias de Gustavo Botogoski: entre avanços, correções de rota e o desafio de consolidar um legado em Araucária

MATÉRIA ESPECIAL | Administração chega aos 600 dias com avanços em educação, saúde, emprego, qualificação, regularização fundiária, cultura, esporte e articulação com os governos estadual e federal. Ao mesmo tempo, enfrenta queda de arrecadação, efeitos futuros da reforma tributária, obras ainda em recuperação e a necessidade de tornar a máquina pública mais eficiente sem comprometer os serviços essenciais.

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ARAUCÁRIA — Aos 600 dias de mandato, um governo já não pode ser explicado apenas pelo que encontrou quando assumiu. Também ainda não pode ser julgado como obra concluída. É exatamente nesse ponto intermediário que se encontra a administração do prefeito Luiz Gustavo Botogoski, que completou nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, 600 dias à frente da Prefeitura de Araucária.

Desde a posse, em 1º de janeiro de 2025, transcorreram pouco mais de 41% dos quatro anos de mandato. É tempo suficiente para identificar o perfil da gestão, suas prioridades, os resultados já mensuráveis, as áreas em que houve necessidade de reação e os desafios que começam a definir a segunda metade do governo.

A leitura desse período mostra uma administração que, em boa medida, concentrou sua agenda no enfrentamento de passivos estruturais. Hospital Municipal, obras atrasadas ou paralisadas, regularização fundiária, expansão de equipamentos públicos, reorganização de serviços, captação de recursos junto ao Governo do Estado e à União, emprego e qualificação passaram a ocupar espaço relevante.

Essa escolha ajuda a explicar parte das conquistas e também parte das críticas.

A administração anterior, comandada por Hissam Hussein Dehaini, consolidou uma identidade urbana fortemente associada à manutenção visual da cidade. Iluminação, sinalização, pintura, limpeza, paisagismo, canteiros e conservação dos espaços públicos contribuíam para uma percepção cotidiana de presença do poder público.

Seria incorreto reduzir aquele governo à aparência. Houve pavimentações, obras e investimentos estruturais. Mas é igualmente correto reconhecer que o cuidado visual se tornou uma de suas marcas.

Gustavo assumiu com uma ênfase distinta. Problemas mais profundos, muitas vezes menos visíveis, passaram a consumir parte maior da energia administrativa.

Essa diferença cria um paradoxo conhecido na gestão pública: a solução de um problema estrutural pode levar meses até ser percebida, enquanto uma falha de manutenção urbana é sentida imediatamente. Uma licitação refeita, uma regularização fundiária ou a reorganização de um hospital exigem tempo. Uma lâmpada apagada, uma praça sem conservação ou uma calçada deteriorada produzem efeito no mesmo dia.

O principal desafio da próxima fase será aproximar essas duas dimensões: continuar resolvendo problemas estruturais sem permitir que a experiência cotidiana da cidade perca qualidade.

O ponto de partida: 19 obras com atraso ou paralisação

Um dos primeiros diagnósticos realizados pela nova administração identificou 19 edificações públicas com execução atrasada ou paralisada, principalmente nas áreas de saúde e educação.

Esse estoque de obras condicionou parte do ritmo inicial do governo. Quando uma administração recebe uma construção próxima da conclusão e tecnicamente adequada, pode finalizá-la rapidamente. Quando existem problemas de projeto, contrato, execução ou cronograma, o processo se torna mais complexo.

É necessário avaliar juridicamente a continuidade, verificar a qualidade do que já foi executado, recalcular custos e, em alguns casos, reformular completamente a solução.

Esse contexto ajuda a explicar parte da primeira fase do mandato, mas deixa de ser suficiente à medida que o tempo passa. A herança explica o ponto de partida; não pode explicar indefinidamente o percurso.

O caso da Unidade de Saúde do Tupy sintetiza essa situação. A obra deveria ter sido concluída antes do atual mandato, mas chegou à nova gestão com execução muito abaixo do previsto. Diante disso, a Prefeitura optou por reformular a solução e passou a trabalhar com um sistema construtivo modular, prevendo uma unidade com cerca de 1.086 metros quadrados, 12 consultórios clínicos e ambientes para odontologia, enfermagem, vacinação, farmácia e observação.

A mudança demonstra capacidade de correção de rota, mas a avaliação final será muito mais objetiva: para o morador, o problema estará resolvido quando a unidade estiver aberta, equipada e atendendo.

Educação entrega um dos resultados mais importantes dos 600 dias

Entre os indicadores positivos do período, a educação ocupa posição de destaque.

O Ideb 2025 chegou a 6,5 nos anos iniciais do Ensino Fundamental, ante 5,9 na avaliação anterior, registrando o melhor resultado geral já alcançado pela rede municipal. A própria Secretaria Municipal de Educação destaca esse avanço entre as principais notícias recentes da rede.

A leitura desse resultado exige equilíbrio. Indicadores educacionais não pertencem exclusivamente ao governo que ocupa o Paço no ano de divulgação. Eles refletem um trabalho acumulado de professores, estudantes, famílias, diretores, equipes pedagógicas e políticas desenvolvidas ao longo de diferentes ciclos.

O mérito da atual gestão estará em conseguir transformar o 6,5 em tendência, e não em episódio isolado. Manter ou superar esse patamar nos próximos ciclos será uma demonstração mais consistente de consolidação da política educacional.

A administração também ampliou políticas de apoio direto às famílias. Em 2026, a rede municipal registrou a distribuição de kits escolares completos e uniformes, além da entrega de uma nova escola na região do Rio Abaixinho.

Essas medidas não produzem sozinhas melhores resultados pedagógicos, mas reduzem despesas das famílias, melhoram as condições de permanência dos alunos e ajudam a diminuir desigualdades dentro da escola.

Na infraestrutura, a nova Escola Municipal do Campo João Sperandio simboliza a transformação de uma obra em serviço efetivamente disponível. O desafio daqui para frente é combinar expansão física, ensino integral, valorização dos profissionais e aprendizagem.

A crise da merenda obrigou a administração a rever o modelo

A alimentação escolar também marcou o primeiro ano do mandato, mas por uma razão menos positiva.

Reclamações relacionadas ao abastecimento e à quantidade de alimentos em determinadas unidades ganharam repercussão e atingiram uma área particularmente sensível. Merenda escolar não é um serviço em que a administração possa permitir instabilidade.

A resposta posterior foi uma reorganização do modelo de contratação, buscando integrar fornecimento, logística, preparo e distribuição.

A partir daí, a avaliação passa a ser prática: regularidade no abastecimento, qualidade nutricional, quantidade adequada e fiscalização. O problema somente poderá ser considerado superado se deixar de se repetir.

Esse episódio oferece uma lição importante sobre administração pública: certas crises não são encerradas por uma boa explicação, mas por uma mudança de funcionamento.

Saúde: a maior crise e a maior oportunidade de recuperação

Nenhuma área explica tão bem os primeiros 600 dias do governo Gustavo quanto a saúde.

O Hospital Municipal de Araucária já concentrava críticas antes da posse. O prefeito reconheceu a dimensão do problema logo no início e chegou a instalar um gabinete dentro da unidade para receber diretamente demandas dos moradores.

A decisão demonstrava disposição para aproximar o governo do serviço que mais gerava insatisfação, mas também aumentava a responsabilidade política da administração sobre o que aconteceria posteriormente.

Ao longo de 2025, a gestão do HMA entrou em crise. A Prefeitura apontou inadimplência com fornecedores e profissionais, metas não atingidas e contas reprovadas, decidindo pela rescisão unilateral do contrato com o Instituto IDEAS.

Esse episódio integra o passivo do atual mandato e não pode ser apagado de uma análise responsável.

Mas o balanço também precisa considerar a reação.

A Prefeitura anunciou aproximadamente R$ 12 milhões em novos equipamentos para o Hospital Municipal, incluindo raio-X digital, mesas cirúrgicas, equipamentos de videolaparoscopia, ultrassom, aparelhos de anestesia, monitores, camas hospitalares, berços e incubadoras.

Também houve intervenções físicas, renovação de estruturas e continuidade das convocações de profissionais.

Em 2026, a Prefeitura abriu novos concursos para áreas da saúde e educação, incluindo médicos especialistas, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos e outros profissionais.

A reação é relevante, mas o julgamento definitivo virá de outra variável: o tempo de espera.

Para o usuário, qualidade hospitalar não é medida pelo valor da compra de equipamentos, e sim pela rapidez com que consegue consulta, exame, cirurgia e atendimento.

É aí que o governo possui uma grande oportunidade. Se o HMA terminar 2027 claramente mais resolutivo do que começou 2025, a administração poderá transformar seu maior desgaste em uma das principais histórias de recuperação do mandato.

A atenção básica completa a estratégia de recuperação

A saúde não depende apenas do hospital.

A expansão e modernização de unidades básicas pode reduzir a pressão sobre UPA e HMA. Quanto mais resolutiva for a unidade do bairro, menor a quantidade de problemas que chega aos serviços de urgência.

Por isso, novas unidades e estruturas em regiões como Jardim Israelense, Centro e outras áreas precisam ser analisadas como parte de uma mesma arquitetura de rede.

O desafio é garantir que prédios novos sejam acompanhados de profissionais, medicamentos e capacidade de atendimento. Inaugurar uma estrutura é apenas uma etapa; fazê-la funcionar é o resultado final.

Regularização fundiária começa a produzir resultados sociais

A regularização fundiária aparece como uma das políticas de maior impacto social e menor visibilidade imediata.

A entrega de títulos de propriedade a famílias representa uma mudança profunda para quem passou anos vivendo sem segurança jurídica sobre o próprio imóvel.

No Jardim Israelense e no Arco-Íris, a situação é mais complexa. Houve melhorias viárias e avanço na regularização de serviços como água e energia em pontos da região, mas o processo precisa chegar ao objetivo final: segurança jurídica sobre os imóveis.

É uma agenda capaz de produzir um dos legados sociais mais relevantes do mandato.

A região do Capela Velha concentra ainda uma combinação importante de investimentos em saúde, infraestrutura, esporte, regularização e mobilidade. Em vez de tratar essas ações isoladamente, a Prefeitura pode organizá-las como um programa territorial integrado.

Chegar a 2028 mostrando uma região substancialmente diferente daquela de 2025 teria efeito administrativo e político muito maior do que uma série de pequenas intervenções dispersas.

Assistência social e políticas para as mulheres formam a rede menos visível do governo

Há áreas da administração cujo resultado raramente pode ser resumido numa inauguração.

Assistência social é uma delas.

CRAS, CREAS, acolhimentos e serviços de proteção trabalham diretamente com famílias em situação de vulnerabilidade. É uma rede menos visível, mas essencial.

A política de proteção às mulheres também ocupa posição importante. O município mantém serviços especializados de atendimento e mecanismos de proteção.

O próximo avanço pode estar na integração ainda maior entre segurança, assistência, emprego e qualificação.

Em muitos casos, romper definitivamente um ciclo de violência exige proteção imediata, mas também autonomia econômica. Uma política pública madura precisa conseguir conectar essas duas dimensões.

Emprego, trabalho e qualificação ganham escala

Na área de trabalho, a administração apresenta um dos resultados mais objetivos dos primeiros 600 dias. Até julho de 2026, 2.839 pessoas haviam conquistado vagas por intermédio da Agência do Trabalhador/Sine de Araucária, resultado reforçado por mutirões de emprego e ações descentralizadas que aproximaram trabalhadores das empresas.

A política municipal, porém, passou a ir além da simples intermediação de vagas. O governo também ampliou a qualificação profissional gratuita, partindo de uma realidade conhecida de Araucária: uma cidade com forte parque industrial pode gerar oportunidades, mas parte delas exige preparação técnica e competências específicas para que os próprios moradores consigam ocupá-las.

Até julho de 2026, o Setor de Qualificação Profissional da Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego havia ofertado 64 cursos gratuitos e certificado 829 alunos. As capacitações incluíram áreas como informática básica, mecânica básica industrial, piloto de drone, cuidador de idosos, comunicação e postura profissional, assistente administrativo, inspetor escolar, almoxarife e recepção e administração em clínicas e consultórios.

A oferta continuou avançando no segundo semestre. Em agosto, a Prefeitura iniciou 16 novas turmas de capacitação, com previsão de atender aproximadamente 300 pessoas. Paralelamente, a Agência do Trabalhador mantém um canal específico de capacitação dentro do Portal de Empregos, integrando consulta de vagas e formação profissional.

Esse movimento revela uma mudança importante de abordagem. O objetivo deixa de ser apenas colocar o trabalhador em uma vaga disponível e passa a incluir a preparação necessária para ampliar suas chances de contratação, permanência e progressão profissional.

A realização do II Simpósio Municipal de Trabalho, Emprego e Renda, reunindo poder público, empresas, instituições de ensino e sociedade, reforçou essa estratégia de aproximar a formação profissional das necessidades reais do setor produtivo.

Outro avanço foi a instalação da Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego e da Agência do Trabalhador em uma nova sede, ampliando a estrutura de atendimento e concentrando serviços em um único espaço. O local também passa a abrigar o Instituto de Identificação do Paraná, fruto da parceria com o Governo do Estado, facilitando o acesso da população a serviços de documentação e reforçando a integração entre emprego, qualificação e cidadania.

Em uma cidade que abriga alguns dos empregos industriais mais qualificados do Paraná, esse é um ponto central. Araucária não precisa apenas gerar vagas; precisa criar condições para que cada vez mais moradores estejam preparados para disputar os postos técnicos e industriais de maior remuneração existentes dentro do próprio município.

A combinação entre intermediação de vagas, cursos gratuitos, aproximação com empresas e qualificação profissional começa, portanto, a transformar uma política tradicional de emprego em uma estratégia mais ampla de empregabilidade, renda e mobilidade econômica.

IFPR pode se tornar um dos principais legados estruturais

A implantação do Instituto Federal do Paraná em Araucária possui potencial para atravessar administrações.

Seu valor não está apenas no campus, mas na possibilidade de conectar educação técnica e tecnológica com a matriz produtiva local.

Automação, química, logística, energia, manutenção industrial e tecnologia são áreas que dialogam diretamente com o perfil econômico do município.

Se os cursos forem planejados em parceria com o setor produtivo, Araucária poderá reduzir uma de suas contradições históricas: gerar empregos altamente qualificados e, ao mesmo tempo, depender de mão de obra de outros municípios para ocupá-los.

Comércio e serviços precisam ganhar mais peso

A indústria continuará sendo o principal eixo da economia de Araucária, mas comércio e serviços precisam ocupar papel cada vez maior.

Parte da renda gerada no município acaba consumida em Curitiba e outras cidades. Quanto mais esse dinheiro circular dentro de Araucária, maior será o impacto sobre empregos, empreendedorismo e arrecadação.

O Município mantém estruturas de apoio ao empreendedor e serviços voltados a empresas e MEIs. A área tributária e de serviços também está sendo preparada para mudanças nacionais, inclusive com a migração dos contribuintes do Simples Nacional para o emissor nacional da NFS-e a partir de 1º de setembro de 2026.

Mas fortalecer o comércio exige mais do que orientação empresarial.

Segurança, iluminação, estacionamento, calçadas, mobilidade, limpeza e paisagismo influenciam diretamente a atividade comercial. Desenvolvimento econômico e zeladoria urbana se encontram nesse ponto.

Agricultura continua relevante numa cidade marcada pela indústria

A força industrial frequentemente esconde uma característica importante: grande parte do território de Araucária é rural.

Agricultura familiar, leite, frutas, grãos, mel e outras atividades possuem importância econômica e social.

A política agrícola precisa continuar apoiando produção, mecanização, assistência e agregação de valor.

O campo também começa a encontrar novas possibilidades por meio do turismo rural, conectando produção, gastronomia e experiência.

Turismo rural abre uma nova frente de diversificação

Araucária possui condições para desenvolver uma identidade turística própria baseada em cultura polonesa, gastronomia, turismo rural, morangos, vinho, lavanda, mel e produção artesanal.

A inclusão de propriedades locais em rotas estaduais demonstra esse potencial.

Essa atividade não substituirá a indústria, mas pode diversificar a economia e fortalecer pequenos negócios.

Grandes eventos também podem contribuir para esse processo se conseguirem direcionar visitantes para restaurantes, comércio, propriedades rurais e outros atrativos.

Cultura e esporte recuperaram presença

A retomada de eventos culturais produziu movimento social e econômico.

A Festa do Trabalhador reuniu dezenas de milhares de pessoas, enquanto outras programações culturais ampliaram novamente a presença do público em espaços como o Parque Cachoeira.

O desafio é transformar evento em política permanente. Grandes atrações têm importância, mas uma cidade culturalmente forte também precisa de artistas locais, bibliotecas, teatro, patrimônio e formação.

O esporte segue lógica semelhante. Competições e eventos dão visibilidade; esporte de base, escolinhas e apoio permanente a atletas produzem legado.

Mobilidade: Terminal Central, Costeira e a reorganização da rede

A modernização do Terminal Central aparece como um dos investimentos de maior impacto cotidiano na segunda metade do mandato. A licitação para ampliação e modernização foi anunciada em agosto, em parceria com o Governo do Paraná.

O equipamento é utilizado diariamente por milhares de passageiros e ocupa posição central na vida urbana.

O Terminal Costeira, por sua vez, precisa avançar do planejamento para uma etapa concreta. O crescimento da região justifica discutir uma nova centralidade de transporte capaz de descentralizar a rede e reduzir pressão sobre o Terminal Central.

Para deixar de ser intenção, o projeto precisa ganhar localização definida, estimativa de custo, fonte de financiamento e cronograma.

Redução da tarifa pode produzir forte efeito social

O TRIAR cobra atualmente R$ 1 por viagem, e a administração trabalha com a previsão de reduzir esse valor para R$ 0,50 em novembro, caso a medida seja formalizada.

Se confirmada, a redução terá impacto significativo para quem utiliza o transporte diariamente e poderá ser apresentada como um avanço progressivo em direção à proposta de ampliar o acesso ao sistema.

Mas a política tarifária precisa ser analisada junto com a sustentabilidade financeira.

Tarifa pública muito inferior ao custo operacional exige subsídio. E esse subsídio disputa recursos com saúde, educação, obras e manutenção.

A medida será positiva se conseguir combinar três elementos: tarifa acessível, qualidade do serviço e equilíbrio financeiro.

As calçadas permanecem como um passivo de mobilidade

Araucária avançou historicamente muito mais no asfalto do que na infraestrutura para quem anda a pé.

Há bairros com calçadas inexistentes, descontínuas ou inadequadas. Isso afeta especialmente crianças, idosos, pessoas com deficiência e usuários do transporte coletivo.

Uma rua asfaltada sem calçada é uma urbanização incompleta.

O município precisa avançar para um plano permanente de calçadas e rotas acessíveis, conectando escolas, unidades de saúde, terminais, pontos de ônibus e áreas comerciais.

Essa política raramente produz a mesma repercussão de uma grande obra, mas altera diariamente a experiência da população.

A proximidade com o Governo do Estado se tornou um ativo

A relação entre Gustavo e o Governo Ratinho Junior é uma das características políticas mais claras do mandato.

A parceria aparece em investimentos de mobilidade, pavimentação, saúde e outras áreas.

A modernização do Terminal Central é um exemplo concreto dessa articulação.

Num cenário de menor receita própria, essa capacidade de captar recursos externos ganha ainda mais importância.

O mesmo vale para Brasília.

A administração ampliou interlocução com parlamentares e programas federais. O próximo passo deve ser transformar essa política numa conta pública: quanto Araucária conseguiu captar no Estado e na União, em quais áreas e quanto desses recursos já foi executado.

A queda da receita impõe uma nova etapa à gestão

A revisão das projeções de receita para 2027 é um dos elementos que mais alteram o planejamento da segunda metade do mandato.

Isso não significa que Araucária tenha deixado de possuir um orçamento expressivo. Significa que a administração deverá trabalhar com uma margem menor do que aquela inicialmente projetada e precisará ser mais rigorosa nas escolhas.

Na primeira fase do governo, parte considerável da energia esteve voltada à recuperação de obras, reorganização de serviços e abertura de novas frentes. Num ambiente fiscal mais restritivo, a segunda metade exige outra lógica: proteger serviços essenciais, concluir investimentos prioritários, rever despesas de menor retorno e aumentar a produtividade da máquina.

É justamente nesse cenário que a capacidade de captar recursos externos e preparar o município para a reforma tributária ganha dimensão estratégica.

Reforma tributária pode alterar a lógica financeira do município

Araucária é uma cidade produtora, com um parque industrial cujo volume econômico é muito superior ao tamanho da população.

Historicamente, essa estrutura ajudou a sustentar uma arrecadação municipal excepcional.

O novo sistema tributário, baseado em IBS e CBS, altera gradualmente a lógica de tributação sobre o consumo.

A transição será longa e possui mecanismos de compensação, portanto não é possível determinar agora o impacto financeiro definitivo para Araucária.

Mas o município não pode esperar o fim da transição para começar a se preparar.

As adaptações técnicas já aparecem, inclusive na área de NFS-e, com a adoção do emissor nacional para optantes do Simples a partir de setembro.

A preparação, porém, precisa ser mais ampla. Finanças, Planejamento, Desenvolvimento Econômico e Procuradoria devem trabalhar com cenários de médio e longo prazo.

Diversificar a economia passa a ser estratégia fiscal

É por isso que comércio, serviços, turismo, tecnologia e agricultura deixam de ser apenas políticas setoriais.

Passam a integrar uma estratégia de proteção da própria capacidade financeira do Município.

A indústria continuará sendo fundamental.

Mas uma economia mais diversificada reduz vulnerabilidade a mudanças tributárias, oscilações industriais e concentração de grandes contribuintes.

Essa discussão precisa ocupar lugar central no planejamento para a próxima década.

A segunda metade do mandato exige uma reforma administrativa

É nesse novo ambiente que a estrutura da própria Prefeitura passa a merecer avaliação mais profunda.

Araucária cresceu durante anos num cenário de arrecadação elevada. Como ocorre em administrações com grande capacidade financeira, estruturas, diretorias, funções e despesas de custeio tendem a se expandir à medida que novas demandas são incorporadas.

O problema surge quando a receita cresce menos do que a máquina.

Uma reforma administrativa responsável não significa desmontar serviços nem realizar cortes indiscriminados.

Significa rever sobreposição de competências, estruturas que entregam pouco, cargos e funções, contratos, frota, imóveis, processos e despesas administrativas que podem ser reduzidas sem atingir a ponta do atendimento.

A redução de custos deve começar onde o cidadão sente menos.

Médico, professor, assistente social, guarda municipal e profissionais essenciais não podem ser tratados como primeira linha de ajuste.

A reforma precisa atingir antes o custo administrativo da própria máquina.

O secretariado também precisa ser avaliado pela fase que começa agora

Depois de 600 dias, o governo já possui informação suficiente para avaliar o desempenho do primeiro escalão.

A próxima fase será diferente da primeira. Se antes era preciso instalar, reorganizar e abrir projetos, agora será necessário concluir e produzir resultado.

Isso exige secretários e dirigentes capazes de trabalhar com metas, orçamento restrito, integração entre áreas e acompanhamento de indicadores.

Uma eventual reforma secretarial deve ser menos orientada por acomodação política e mais por capacidade de execução.

Secretarias com atribuições próximas precisam ser analisadas em conjunto. Áreas que trabalham sobre o mesmo problema devem operar de forma integrada.

Capela Velha, por exemplo, não é problema apenas de Obras ou Urbanismo. Envolve saúde, habitação, transporte, segurança e desenvolvimento.

Qualificação não é apenas Trabalho. Envolve educação, IFPR e setor produtivo.

Turismo rural não é apenas Turismo. Depende de Agricultura, Cultura e Desenvolvimento Econômico.

Uma máquina menor, mas ainda fragmentada, não será necessariamente mais eficiente.

Limite prudencial exige antecipação

A Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece limites para a despesa de pessoal dos municípios. Quando a relação entre folha e Receita Corrente Líquida se aproxima do chamado limite prudencial, a administração perde margem para ampliar despesas e fica sujeita a restrições.

Num cenário de queda de receita, existe um risco adicional: mesmo que a folha permaneça estável em valores absolutos, o percentual de comprometimento aumenta porque o denominador diminui.

Isso significa que a Prefeitura precisa agir antes de chegar a uma situação de pressão legal.

O objetivo não deve ser apenas permanecer formalmente abaixo do limite.

Deve ser criar margem de segurança fiscal suficiente para enfrentar queda de arrecadação sem precisar realizar cortes emergenciais posteriormente.

Enxugar a máquina sem atingir a proteção social

Esse talvez seja o maior teste de maturidade administrativa da segunda metade do mandato.

O governo precisa encontrar eficiência sem transferir o custo do ajuste para quem mais depende do poder público.

Isso implica revisar contratos, funções redundantes, estruturas administrativas, aluguéis, frota, compras, tecnologia e processos.

O foco deve ser reduzir desperdícios e custos de retaguarda antes de tocar nos serviços essenciais.

Há uma diferença fundamental entre reduzir serviço e reduzir ineficiência.

A nova realidade fiscal exige a segunda opção.

Tecnologia e indicadores precisam ganhar espaço

Uma reforma administrativa moderna também precisa ser tecnológica.

Integração de sistemas, digitalização, compras centralizadas, gestão de contratos e análise de dados podem reduzir custo sem diminuir atendimento.

Cada secretaria deveria trabalhar com poucos indicadores objetivos.

Na saúde: filas, consultas, exames e cirurgias.

Na educação: aprendizagem, frequência e expansão do integral.

No trabalho: contratações e renda.

Na infraestrutura: obras concluídas.

Na manutenção: tempo de resposta.

Na administração: custo e produtividade.

A pergunta central deixa de ser quantas estruturas existem e passa a ser quanto cada uma entrega e quanto custa entregar.

A zeladoria urbana não pode ser tratada como luxo

Um ajuste fiscal responsável também não pode repetir o erro de considerar manutenção urbana secundária.

Iluminação, limpeza, roçada, pintura, sinalização e paisagismo possuem custo relativamente menor que grandes obras e afetam diretamente a percepção e a qualidade de vida.

A atual administração pode recuperar rapidamente parte da comparação desfavorável com a gestão anterior sem abandonar a agenda estrutural.

O melhor modelo é justamente combinar as duas coisas: cidade que resolve problemas profundos e, ao mesmo tempo, transmite sensação diária de cuidado.

Governabilidade será ainda mais necessária

Gustavo conseguiu preservar capacidade de aprovação das principais matérias na Câmara, mesmo diante de episódios de tensão.

Essa governabilidade terá peso ainda maior num período de ajuste fiscal.

Quando há crescimento de receita, é mais fácil acomodar demandas.

Quando é necessário priorizar, algumas decisões inevitavelmente produzem contrariedade.

Reforma administrativa, revisão de despesas e novos critérios de investimento exigirão diálogo político e transparência.

A capacidade de articulação passa a ter função menos eleitoral e mais administrativa.

As polêmicas não podem definir a agenda do governo

Os 600 dias também foram marcados por controvérsias envolvendo saúde, merenda, contratos, obras e relações políticas.

Adversários exploraram esses episódios, enquanto veículos críticos à administração deram destaque a diferentes questões.

Esse processo faz parte da democracia.

Oposição questiona, imprensa fiscaliza e governo precisa responder.

Mas a experiência desses 600 dias mostra que a resposta mais eficiente veio quando o governo deixou a disputa discursiva e adotou medidas concretas.

O HMA exigiu mudança.

A merenda exigiu reorganização.

O Tupy exigiu revisão do projeto.

Um governo não precisa ganhar todas as discussões da semana. Precisa terminar o mandato tendo resolvido os problemas que estavam no centro delas.

A divergência com a vice-prefeita altera o cenário, mas não pode interromper a gestão

O distanciamento político entre Gustavo e a vice-prefeita Tati Assuiti também faz parte do cenário atual.

Os dois foram eleitos juntos. Tati participou da primeira fase do governo e comandou a Educação. Posteriormente, as divergências se tornaram públicas.

Hoje, inclusive, estão em campos políticos diferentes na disputa estadual.

Essa diferença poderá ter impacto na formação do tabuleiro municipal de 2028, mas não deveria reorganizar as prioridades administrativas de 2026 e 2027.

O mandato atual ainda precisa ser concluído.

Os próximos dois anos precisam ter outra lógica

Os primeiros 600 dias foram marcados em boa medida por diagnóstico, recuperação, reorganização e resposta a crises.

A próxima fase precisa ser marcada por prioridade, conclusão, eficiência e percepção.

Isso significa reduzir a quantidade de novas frentes e acelerar o que já está em andamento.

Uma UBS com 90% de execução ainda não atende.

Um recurso anunciado ainda não pavimenta.

Uma regularização iniciada ainda não é escritura.

Um equipamento comprado não reduz fila sozinho.

O restante do mandato precisa transformar processo em resultado.

A melhor preparação para uma possível continuidade é concluir bem o primeiro mandato

Caso Gustavo Botogoski decida disputar a reeleição em 2028, estará numa posição completamente diferente da de 2024.

Na primeira campanha, apresentou propostas.

Numa eventual segunda, terá de apresentar resultados.

Não bastará dizer que pretende melhorar o HMA; precisará demonstrar que melhorou.

Não bastará falar em obras; precisará mostrar quais foram concluídas.

Não bastará dizer que foi a Brasília e ao Governo do Estado; precisará mostrar quanto trouxe e onde aplicou.

Não bastará anunciar cursos; será necessário demonstrar emprego e renda.

Não bastará afirmar que a administração economizou; será necessário mostrar que o ajuste não piorou os serviços.

A continuidade dependerá também de quem não pertence ao grupo político

Uma reeleição consistente não é construída apenas preservando quem já apoiou o prefeito.

Ela ocorre quando parte de quem votou em outro candidato passa a reconhecer competência administrativa.

Esse eleitor pode discordar politicamente do governante e, ainda assim, concluir que a cidade melhorou.

Esse tipo de avaliação possui enorme peso.

E dificilmente é produzido apenas por comunicação.

Precisa ser vivido na experiência cotidiana.

Aos 600 dias, o governo demonstrou capacidade de reação; agora precisa demonstrar capacidade de consolidação

Há avanços que precisam ser reconhecidos.

A educação alcançou resultado histórico no Ideb.

Uniformes e materiais chegaram aos estudantes.

Obras começaram a ser retomadas.

A saúde recebeu novos investimentos, profissionais e reorganização.

Regularização fundiária avançou.

Emprego e qualificação ganharam escala.

Agricultura e turismo rural começaram a encontrar novas possibilidades.

Eventos culturais recuperaram público.

O transporte recebe novos investimentos.

A relação com o Estado e a União ampliou a capacidade de captação.

Ao mesmo tempo, continuam abertos desafios significativos.

O HMA precisa transformar investimento em atendimento melhor.

Obras precisam ser concluídas.

O Terminal Costeira precisa avançar.

Araucária ainda possui déficit de calçadas.

A manutenção urbana precisa recuperar intensidade.

A receita está mais pressionada.

E a reforma tributária exige planejamento de longo prazo.

É essa combinação que faz dos 600 dias um marco importante.

A próxima fase exige um governo mais enxuto, mas também mais forte

Reduzir a máquina não significa reduzir a capacidade do governo.

Uma administração com menos sobreposição, menor custo administrativo, comando mais claro e secretarias avaliadas por resultado pode se tornar mais forte na ponta justamente porque consome menos recursos consigo mesma.

Esse é o desafio central.

Reformar sem paralisar.

Economizar sem desmontar.

Preservar saúde, educação, assistência, segurança e manutenção enquanto despesas administrativas são revistas.

Criar margem fiscal antes que a legislação obrigue decisões emergenciais.

E preparar Araucária para uma realidade em que a extraordinária arrecadação histórica precisará ser administrada com mais cautela.

A cidade entregue em 2028 será mais importante que qualquer narrativa

Os próximos dois anos provavelmente valerão mais que os primeiros 600 dias.

Porque serão os anos da conclusão.

É quando o investimento do HMA precisará aparecer nas filas.

O Ideb precisará ser sustentado.

A regularização precisará chegar aos documentos.

O recurso estadual precisará virar pavimentação.

O curso precisará virar trabalho.

O turismo precisará gerar renda.

O terminal precisará sair do papel.

O ajuste fiscal precisará preservar serviços.

E as ruas precisarão voltar a transmitir uma sensação cotidiana de cuidado.

Talvez seja justamente essa a síntese que Gustavo Botogoski precisa construir para a segunda metade do mandato.

A administração anterior demonstrou o valor político e urbano de uma cidade visualmente organizada. A atual demonstrou disposição para enfrentar problemas estruturais que nem sempre aparecem nas fotografias.

Uma gestão completa precisa conseguir reunir as duas experiências.

Resolver o que está por baixo e cuidar do que está diante dos olhos.

Aos 600 dias, Gustavo ainda não apresenta um legado concluído.

Chega, porém, ao momento em que precisa decidir quais prioridades receberão tempo, dinheiro e capacidade política suficientes para se transformar nesse legado.

E, caso exista um projeto de continuidade em 2028, sua defesa mais consistente não estará numa campanha antecipada ou numa nova lista de promessas.

Estará numa comparação muito mais simples e difícil de manipular:

a Araucária que este governo recebeu em janeiro de 2025 e a Araucária que será capaz de entregar ao final do primeiro mandato.


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