Curitiba avança em projeto para enterrar até 120 km de fios e pode criar modelo inédito no Brasil
Prefeitura e BNDES assinam nesta terça-feira protocolo para estruturar estudos de uma PPP; proposta busca reduzir apagões, acidentes, furtos de cabos e poluição visual

Curitiba dá nesta terça-feira (25) um novo passo em um projeto que pode alterar significativamente a paisagem e a infraestrutura urbana da capital nos próximos anos. A Prefeitura e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) avançam na estruturação de uma parceria para estudar o enterramento de até 120 quilômetros de redes de energia elétrica e telecomunicações.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e o prefeito Eduardo Pimentel têm agenda prevista para as 15h, no Palácio 29 de Março, quando deverão formalizar um protocolo de intenções relacionado ao projeto.
A iniciativa ainda não significa o início imediato das obras. O documento abre caminho para uma etapa técnica destinada a avaliar a viabilidade econômica, jurídica e regulatória e a definir o modelo de uma possível Parceria Público-Privada (PPP).
A estimativa preliminar discutida pelo município aponta para um investimento da ordem de R$ 1,2 bilhão.
Até 120 quilômetros de redes podem ser enterrados
A proposta inicial é retirar do sistema aéreo até 120 quilômetros de cabos existentes em vias consideradas prioritárias.
A seleção deverá considerar regiões mais adensadas, áreas turísticas e históricas e pontos onde a rede apresenta maior vulnerabilidade a eventos climáticos ou interrupções.
O projeto envolve tanto a infraestrutura de energia elétrica quanto redes utilizadas pelos serviços de telecomunicações.
Isso significa que a iniciativa vai além da simples retirada de fios dos postes. A intenção é reorganizar parte da infraestrutura urbana que sustenta serviços essenciais de energia, internet e comunicação.
Menos apagões e maior resistência a temporais
Um dos principais argumentos para o enterramento das redes está relacionado à segurança e à continuidade dos serviços.
Nas redes aéreas, ventos fortes, queda de árvores e outros eventos climáticos podem atingir postes e cabos e provocar interrupções no fornecimento de energia ou telecomunicações.
Com a infraestrutura protegida no subsolo, a exposição direta a esses fenômenos diminui.
A Prefeitura também aponta potencial redução de ocorrências envolvendo fios rompidos, choques, incêndios e acidentes.
O tema ganha ainda mais importância diante do aumento da preocupação das cidades brasileiras com a adaptação da infraestrutura urbana a eventos climáticos extremos.
Combate aos furtos de cabos
Outro problema que o projeto pretende enfrentar é o furto de cabos.
Além dos prejuízos financeiros, esse tipo de crime pode interromper sistemas de telecomunicações, iluminação e outros serviços urbanos.
O enterramento torna o acesso aos cabos mais difícil e pode diminuir a vulnerabilidade das redes.
A medida também contribuiria para retirar fios abandonados ou inutilizados que permanecem presos aos postes mesmo depois de deixarem de ser utilizados pelas operadoras.
Projeto também muda a paisagem urbana
O impacto visual é outro componente importante da proposta.
Em diversas regiões de Curitiba, os postes concentram grande quantidade de fios de energia, telefonia e internet.
O acúmulo de cabeamento cria poluição visual e, em alguns pontos, interfere também na circulação de pedestres e na conservação da paisagem urbana.
A retirada gradual dessas redes permitiria maior valorização visual de regiões históricas e turísticas e poderia facilitar projetos de revitalização de calçadas, arborização e mobiliário urbano.
Curitiba pode funcionar como projeto-piloto
A modelagem estudada em parceria com o BNDES pode colocar Curitiba como uma das cidades pioneiras do país na estruturação de uma PPP específica para redes subterrâneas em larga escala.

O banco já vinha discutindo com o município a possibilidade de desenvolver um modelo que, caso demonstre viabilidade, possa posteriormente servir de referência para outras cidades brasileiras.
A complexidade, entretanto, é elevada.
Uma rede subterrânea envolve concessionárias de energia, empresas de telecomunicações, Prefeitura, órgãos reguladores e diferentes operadores privados.
Além das questões técnicas, é necessário estabelecer quem financiará a infraestrutura, como será feita a manutenção e de que maneira os custos serão distribuídos entre os participantes.
R$ 1,2 bilhão ainda é estimativa
O valor de R$ 1,2 bilhão divulgado anteriormente pelo município deve ser interpretado como uma estimativa inicial.
Não se trata, neste momento, de uma obra contratada por esse valor nem de um financiamento já liberado para o enterramento dos 120 quilômetros.
Os estudos do BNDES deverão justamente verificar custos, fontes de receita, divisão de responsabilidades e viabilidade financeira do projeto.
Somente depois dessa fase será possível avançar para a modelagem definitiva de uma eventual concessão ou PPP.
BNDES também participa de projetos de mobilidade

A aproximação entre Curitiba e o BNDES não se limita ao projeto dos fios subterrâneos.
O banco participa de diferentes iniciativas relacionadas à modernização da capital, especialmente na área de transporte coletivo.
Entre elas está a estruturação da nova concessão do sistema de ônibus e um financiamento já aprovado de R$ 380 milhões para aquisição de 80 ônibus elétricos.
A transição para veículos menos poluentes faz parte de um movimento de modernização da frota e redução das emissões do transporte público.
Durante a agenda desta terça-feira, o BNDES também deverá apresentar projetos relacionados ao Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, que contempla a Região Metropolitana de Curitiba.
Reflexos podem ultrapassar os limites da capital
Embora o projeto de enterramento de redes seja inicialmente municipal, a agenda de infraestrutura discutida com o BNDES possui dimensão metropolitana.
Curitiba concentra diariamente deslocamentos de moradores de Araucária, São José dos Pinhais, Colombo, Pinhais, Almirante Tamandaré, Campo Largo e outros municípios da RMC.
Projetos de mobilidade, transporte coletivo e infraestrutura tecnológica da capital acabam, portanto, produzindo efeitos sobre uma população muito maior do que aquela residente dentro dos limites de Curitiba.
O desafio será transformar os estudos anunciados em projetos financeiramente sustentáveis e capazes de sair do papel.
A assinatura prevista para esta terça-feira representa, assim, o início de uma nova etapa técnica — e não ainda o começo das obras.
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